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No Farol dos Jardins (jan / 2004)
No Farol dos Jardins

Era mais ou menos nove da noite quando eu vinha passando pelo farol da Faria Lima com a 9 de Julho. Vidros fechados, carro engatado e o olhar furtivo para os lados, típico de qualquer paulistano de juízo. Como na maioria dos faróis das áreas nobres, os motoristas eram "visitados" por uma porção de gente em busca de dinheiro. Mais alguns daqueles moleques sem
rosto para os quais a gente se acostuma a virar a cara, ficar mexendo no celular e inventando mil outras atividades para fingir que não os vemos. "Dá uma moedinha aí moço?".

Ligo pra casa e minha família já saiu pra jantar. A Tally terá que trabalhar até tarde. Parece que vai ser um daqueles jantares solitários e apressados em casa, daqueles que você olha a despensa e saca um miojo para gastar o mínimo de tempo e trabalho possível.

Olhando de novo ao meu redor, o moleque "dá uma moedinha aí moço" tinha ido embora. Agora tinha outro "dá uma moedinha aí moço" em seu lugar. E mais um, e mais um. Aquele farol tinha mais crianças do que um jardim de infância.

Naquele momento, me deu uma vontade meio inexplicável de não ir embora. De ficar por ali mesmo. Mediante a buzina do vizinho traseiro resolvi me mexer e seguir pra casa, mas duas quadras depois a imagem daquele farol ainda estava na cabeça. Voltei para lá. Só que, dessa vez, arranjei uma faixa onde pudesse parar e observar o que acontecia. Aos poucos, aquele farol foi tomando nova dimensão.

Quase duas dezenas de crianças corriam e brincavam em todo canto. Quando paravam no vidro de algum carro, o rosto se transformava imediatamente em tristeza e martírio puro, para voltar à alegria infantil segundos depois, uma habilidade dramática incrível. Como fiquei parado lá uns 5 minutos, um molequinho de uns 6 anos (Gabriel ,aprendi depois) veio fuçar o que estava acontecendo.

- Oi - puxei conversa
- Oi moço. Dá uma moedinha? (veio o rosto tradicional)
- Mas quanta criança por aqui né? Algum é teu irmão? (Gabriel aponta para uma meia dúzia)
- Tio, como você faz pra abrir e fechar o vidro?

Com essa puxada de papo, comecei a mostrar ao meu novo amigo as maravilhas e os segredos de um vidro elétrico de carro. Em poucos segundos, as outras crianças perceberam que algo de interessante estava acontecendo e logo eu só via cabeças enfiadas para dentro do carro. Perguntei se eles já tinham comido. Como a resposta foi majoritariamente negativa, convidei o pessoal para jantar. Adoraram a idéia. Só faltava pedir a permissão da mamãe, que se encarregava de vender flores na esquina seguinte. Aprovação materna concedida e a presença da irmã mais velha para fiscalizar (13 anos), um a um começaram a entrar no carro. E cada um que entrava atraia mais dois das redondezas, até o ponto em que havia eu e mais 11 crianças dentro de um Golf, a maioria entre 6 e 9 anos de idade. Perguntei aos meninos quem arrecadava mais dinheiro no farol. Todos me apontaram um magrinho com cabelo pixaim que, orgulhoso, contou que já tinha conseguido setenta reais em um dia.

- Puxa, quanto dinheiro! Como você consegue isso?
- É que enquanto os outros ficam brincando eu não paro de trabalhar. (Me indaguei silenciosamente se esse aí não teria algum sangue judeu a contabilizar...)

Até eu perguntar onde eles queriam comer, meu instinto moralista tinha me induzido a sugerir salada. "Eles devem ter uma alimentação tão incorreta... vou levá-los pra comer salada!". Brilhante idéia a minha, colocar 11 crianças espevitadas em frente a um pote de alface com rabanete... Depois da pergunta veio um não surpreendente "MACDONALDS!!!!"

No caminho, paramos nos farol seguinte e encontramos o irmão da "mais velha'. Como ele era o único que faltava na caravana, abrimos espaço para mais um. Considerando-se que a Aline, a "mais velha", de 13 anos, estava grávida de 8 meses, pode-se considerar que éramos 14 pessoas num Golf. Não me perguntem como isso foi possível.

Chegando ao Mcdonalds da Mario Ferraz, fomos direto para o andar de cima, debaixo dos olhares curiosos do público freqüentador. Para a população padrão do Itaim Bibi, aquilo não era exatamente o que se costuma ver na lanchonete. Depois de alguma discussão, fizemos o pedido dos sanduíches e ficamos batendo papo. Fiz algumas perguntas e todos estavam ansiosos para contar um pouco das suas histórias. Eu não queria nem ver a hora que chegasse a comida. Aquelas crianças não comiam desde a manhã e eu estava imaginando que ocorreria uma guerra civil por lá. Depois de alguns anos como madrich em colônia de férias, me lembrava do que são capazes as crianças quando estão com fome.

Com a chegada das bandejas de comida, a coisa mais extraordinária aconteceu. Ao invés da briga esperada, as crianças aguardaram pacientemente pelo seu sanduíche. À medida que esses chegavam, os mais velhos entregavam para os mais novos, certificando-se de que cada um recebia o que tinha pedido. Sem brigas, sem discussões, as pilhas de hambúrgueres e x-burguers estavam distribuídas. Cada um com a sua batata e a sua bebida. Não estamos falando aqui de coisa trivial, que eles têm todo dia e sim de algo muito, muito cobiçado, um jantar no Mcdonalds, e quente! Eu tinha tomado o cuidado de pedir um lanche para cada criança, nem mais nem menos. Não passou pela cabeça de nenhum deles ficar com a comida do vizinho.

A maioria deles não comeu tudo. Geralmente pegou meio sanduíche e algumas batatinhas.

- Que foi, não tão mais com fome?
- Não é isso, é que eu vou levar o resto pra mamãe
- E eu vou guardar pra amanhã de manhã

Quanto aos brinquedos que vieram junto com o Mc Lanche Feliz, eles separaram entre os de homem e os de mulher e redistribuíram para cada um. Meninos com os azuis, meninas com os rosas. No final, sem que eu pedisse nada, eles se levantaram, juntaram as caixinhas com sanduiche e fizeram um limpeza geral na área. A Aline supervisionava tudo. Com a idade de uma Bat Mitzva, ela checava se não faltava nada a ninguém, separava as brigas e carregava dentro dela uma vida de 8 meses. Perguntei sobre o pai da criança.

- Tem 22 anos, mas não presta não.
- E o seu pai?
- Morreu faz uns 10 anos, de morte matada. (segundo ela um ex-sócio matou o pai e ficou com todo o dinheiro que eles tinham)

É incrível como aquele jantar mudou a minha percepção sobre os meninos de rua. Aqueles seres amorfos dos faróis se transformaram de repente em crianças vivas, educadas e inteligentes. Havia os mais tímidos, os mais faladeiros, os mais independentes e os mais carentes. Cada um com uma personalidade e uma dimensão humana que eu nunca tinha percebido, apesar de quão absurdo isso possa soar.

Durante o jantar, um cliente do Mcdonalds virou para mim e me deu os parabéns. "Muito bonito o que você está fazendo por eles, isso faz parte de algum trabalho?". "Não, eu só chamei eles pra jantar comigo". "Ahhh...mmmm..... - coçou a cabeça - parabéns". Agradeci. Na hora, eu não entendi muito bem, mas esse elogio, por melhor intencionado que tenha sido, me causou algum desconforto, ainda mais sendo recebido na frente das crianças. Até aquele momento, aquilo tudo não tinha tido um caráter de benevolência. Eu não estava fazendo aquilo por caridade nem achava que era um favor para eles. Era uma troca justa, eu comprava alguns sanduíches e eles me devolviam parte da hunanidade que todos nós perdemos diariamente nessa selva de concreto paulistana. Quando eu me encontrei cara a cara com um "dos meus", "do meu nível", eu e as crianças fomos jogados de volta para a posição clássica de dominado e dominador, do pobre impotente e do rico que, generosamente, dá algumas sobras a ele. Estou sendo injusto com a pessoa que simplesmente quis ser gentil? Pode ser, mas foi essa a sensação.

Me lembrei da visão judaica da Tzedaká. No Judaísmo não existe o conceito de caridade. Caridade é dar aos outros porque você é bonzinho e benevolente. Você dá quando e quanto quer. Tzedaká vem da raiz Tzedek, justiça. Para os judeus, fazer Tzedaká é uma obrigação que não implica relação de superioridade para com a pessoa que recebe. Muitos judeus religiosos têm o costume de eles mesmos agradecerem à pessoa que recebe a Tzedaká: "obrigado por me permitir cumprir essa mitzvá de Tzedaka!". Foi o que eu senti naquela hora. "Obrigado por me permitirem me sentir mais humano naquela noite, no farol dos Jardins".
Abs,

Nani

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