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Madrid, Hamurabi e a fronteira do Sinai (dez / 2003)
Madrid, Hamurabi e a fronteira do Sinai

A virada do milênio apresenta ao mundo judaico todo um rol de novos desafios. Assimilação, casamentos mistos e perda de identidade são processos que o mundo moderno tem imprimido aos judeus nas últimas décadas, fazendo com que alguns inclusive coloquem em xeque a continuidade judaica. Na realidade, sempre houve desafios. Se a assimilação é um perigo, o que dizer da destruição do templo no século I e.c. e da dispersão dos judeus? Se o casamento misto pode representar o enfraquecimento das comunidades, o que dizer da extinção do Sanhedrim, a última autoridade central religiosa ou da expulsão do maior centro judaico da idade média: a Espanha? O judaísmo continuou vivo ao longo dos séculos porque, ao mesmo tempo em que passava por um processo radical de autotransformação, preservava as bases essenciais da sua existência. O primeiro passo para enfrentar os desafios da continuidade no mundo atual é conhecer os pilares básicos do judaísmo.

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Em Madrid, há uma lojinha de artigos para turistas próxima ao Palácio Real. Óculos, lenços, miniaturas e quadros são vendidos aos visitantes. Um expositor no fundo da loja apresenta alguns exemplares de Chai, Maguen David e uma Menorah prateada. O vendedor informa que o dono da loja é um hebreo, por isso vende aqueles artigos. O dono se aproxima e as apresentações são feitas. O sorriso se estende de lado a lado do rosto, quando o lojista reconhece o visitante como um dos seus. “Quer dizer que você é judeu brasileiro!?”. Entra em curso um processo de reconhecimento do semelhante que tem mantido a coesão do povo judeu por milênios. Naquela tarde, haverá um casamento na sinagoga local. O dono insiste para que o visitante compareça. Por acaso o visitante conhece noivo ou noiva? Por acaso ele tem alguma relação com as famílias? Nada disso importa. A sua mera pertinência à tribo já garante que ele seja um convidado em potencial. O povo judeu não é nem tão grande como a população da Ásia nem tão pequeno como os moradores de um quarteirão. Ele tem o tamanho exato para dar aquela sensação reconfortante de super-família. Ao chegar na sinagoga, a mera afirmação “Ani yehudi meBrazil”, “Eu sou judeu do Brasil” já abre portas (após os procedimentos de segurança, claro). O rabino local puxa conversa, afirmando conhecer o Rabino Sobel (que novidade!). De certa forma, o processo de pertinência ao grupo cria intimidade entre pessoas que nunca se viram antes. Kol Israel arevim zé la zé, todo os judeus são responsáveis uns pelos outros.

O primeiro pilar da existência judaica é o povo. Antes da entrada na Terra de Israel, antes da entrega da Torá, já havia o pacto de Deus com Abraão e seus descendentes. Diferentemente das demais religiões monoteístas, o judaísmo trata da relação do criador com um povo específico, com uma tribo e sua existência nacional. As aventuras, alegrias e infortúnios que os judeus viveram juntos ao longo de milênios fazem parte da essência da identidade judaica. Apesar da grande diversidade dentro do judaísmo, todos os judeus possuem um passado com características comuns e têm a sensação de compartilhar um destino único, de estarem todos no mesmo barco.

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Dentre os muitos sistemas formais de leis criados pelo homem, o código de Hamurabi, da Babilônia, foi provavelmente o primeiro. Há mais de 4.000 anos, ele já definia os parâmetros segundo os quais deveriam ser regidas as relações entre os homens. A legislação sobre assassinatos, por exemplo, era bastante clara e específica. Se um nobre matasse o escravo de outro, deveria pagar ao dono uma quantia estipulada na lei. Se a vitima fosse, por outro lado, um trabalhador rural livre, a indenização seria maior, e seria devida ao proprietário das terras em questão. A situação se complicaria mais ainda se a pessoa assassinada fosse um artesão urbano ou pequeno comerciante. Neste caso, além de uma multa vultosa, o assassino poderia ser submetido a punições físicas, tais como chibatadas ou tortura. Quanto mais importante fosse a posição social da vítima, em relação à posição do assassino, maior seria a pena, culminando com a pena de morte para o caso de se matar alguém da nobreza ou família real.

Muitos anos depois do desenvolvimento do código de Hamurabi, conta a tradição judaica que um judeu egípcio chamado Moisés desceu do Monte Sinai com um sistema de leis bastante diferente do sistema Babilônico. Sobre a mesma questão levantada acima, este sistema de leis dizia simplesmente: “não matarás”. Não previa nenhuma distinção sobre posição social, riqueza e prestígio de vítima ou algoz. Não importava se o assassino era mais ou menos importante do que a vítima, se era um rei, um estudioso ou um escravo. Dizia simplesmente: “não matarás”. Dessa forma a lei prosseguia em relação a todos os aspectos da vida humana. A lei de Moisés era tão revolucionária, em seu reconhecimento de que todos os seres humanos são essencialmente iguais, que o mundo nunca mais foi o mesmo. Ninguém estava acima da lei. Até mesmo o Rei David, conquistador dos Filisteus e construtor de Jerusalém, tinha que se submeter à lei divina. Em retribuição à cobiça de Bat Sheva, Deus o impediu de ver o templo construído.

O segundo pilar da identidade judaica é a lei, uma bagagem ética de conteúdo universal, que propõe a existência de uma centelha divina dentro de cada ser humano. A lei judaica foi sendo desenvolvida através dos séculos até se tornar um compêndio detalhado que rege a vida humana do despertar ao adormecer, do nascimento até a morte e tem como objetivo tornar o mundo mais justo. O judaísmo não está centrado na fé e sim na ação. O judaísmo reconhece que, assim como o lado bom, existe um lado mau dentro de cada um de nós e cabe ao homem dominá-lo. De certa forma, quando o judeu ortodoxo enrola os Tefilim ao redor do braço e da mão, dia após dia, ele está amarrando a besta que existe dentro de si e reconhecendo que cabe a ele fazer prevalecer o lado bom.

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Existe uma estrada de terra no deserto do Sinai que não fica muito distante do caminho trilhado originalmente pelos hebreus em fuga do Egito. Ela segue de Sharm El Sheikh para o posto de Erez. No pôr do sol, o deserto fica dourado e o jipe se aproxima da fronteira com Israel, vindo das areias do Egito. As tardes de vento são as mais bonitas, pois as cerca de oito bandeiras azuis e brancas dançam juntas como se estivessem apresentando uma Hora. O sol se pondo, as bandeiras dançando e os guardas de boina fazendo perguntas no mesmo idioma dos antigos judeus de três mil anos atrás. “Me eifo ata?” (provavelmente os antigos faria esta pergunta na forma correta “Me ayn ata?”, “De onde você vem?”). Em seguida, pisa-se no território de Israel, a terra onde os judeus reconquistaram a sua soberania, após dois mil anos de exílio. Dentro dela, uma existência nacional judaica vibrante e moderna pode ser observada.

Há pouco tempo atrás, a situação era bem diferente. A máquina de guerra alemã estendia os tentáculos do nazismo do Canal da Mancha até as estepes, da Escandinávia à África do Norte. Parecia que nada deteria os panzers. No estômago daquele império devastador, e com o apoio aberto ou a indiferença de grande parte da população européia, o judaísmo ia sendo digerido. Os fornos trabalhavam dia e noite, consumindo o futuro do povo judeu. Parecia a muitos que seria o fim de uma história milenar. Em 1945, as portas dos campos se abriam, revelando os poucos sobreviventes do mais assustador assassinato coletivo da história. Assim como o código de Hamurabi considerava a morte de um escravo como sendo um mal menor, pouco importava aos nazistas destruir as vidas dos judeus inferiores. No entanto, apenas três anos após o Holocausto, em 1948, a bandeira azul e branca subia na terra de Israel e os judeus derrotavam os exércitos invasores. A medida em que o Hebraico era ressuscitado e a nação era construída, o povo judeu ia retomando o destino nas mãos. O Estado de Israel é o símbolo máximo da auto-emancipação judaica.

O terceiro pilar da identidade judaica é a terra de Israel. Israel representa o povo judeu tomando nas mãos as rédeas do destino. Para o bem ou para o mal, nos erros e nos acertos, as decisões tomadas dentro de Israel pelos judeus são decisões soberanas, tomadas por um povo livre. Lihiot Am Chofshi be artzenu, ser um povo livre na nossa própria terra, é a penúltima estrofe do hino de Israel.

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Já se afirmou que judaísmo é uma civilização cujo tripé é composto pelo povo, a lei e a terra de Israel. Estes três elementos, misturados com diferentes intensidades em cada lugar e para cada pessoa, compõem o fenômeno fantástico e inigualável do judaísmo. Quando falamos em desafios enfrentados pelos judeus no mundo de hoje, possivelmente o maior deles seja conhecer a fundo a nossa herança. Em cada geração, em cada canto do mundo, nosso povo maravilhou e incomodou de forma muito especial as demais nações. Isso nos fez subir as maiores montanhas e nos fez mergulhar nos poços mais profundos. Mas nós permanecemos aqui e nos mantivemos juntos. Mesmo levando em conta tudo o que vivemos, aqueles que acreditam no judaísmo, como eu próprio, sabem que, na verdade, a aventura judaica ainda está apenas começando.

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