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Assassinato Liana e Felipe (novembro/2003)
Oi pessoal,

Acabei de voltar do enterro da Liana. Fui madrich dela na colônia, mas há tempos que eu não a via. Foi uma vontade meio inexplicável de estar lá no cemitério nesse momento, talvez um jeito de reencontrar uma tragédia que eu próprio vivi recentemente. Ao contrário da minha tragédia, que nunca será definitivamente explicada, essa chegou ao fim. Mostrou pra todos nós que o ser humano sempre consegue se superar quando se trata de quão baixo nivel pode-se chegar. Um amigo meu escreveu que no momento em que um ser humano tira a vida de uma garota inocente de 16 anos, indefesa e apavorada, depois dos mais indigitados abusos, dá pra entender o que Deus tinha na cabeça quando inundou o mundo na época de Noé. Ele devia estar envergonhado e enojado com a sua própria criação.

Nunca vi, em toda a minha vida, tamanha quantidade de jovens num enterro. Das mais de 300 pessoas que devia ter lá, pelo menos uns 200 jovens, vindos dos diversos ambientes de convívio da Liana: Bialik, Chazit, Hebraica, Campo de Estudos e do colégio atual. Existe um pedaço do coração de cada um de nós que morre numa situação dessas, quando passa bem devagar, atrás do Chazan, um caixão tão pequeno como o que levava a Liana para a sepultura. Um caixãozinho, parecia de brinquedo, tirado direto da câmara fria para a curta prece e depois enterro. Nesta passagem, mil imagens me vieram à mente, de como tudo aconteceu, do medo que ela deve ter sentido, da dor, veio uma frustração enorme e uma sensação de impotência. Acabou! Nada nem ninguém vai trazê-la de volta. E a família? E aquele pai que ficou na cabeça como o símbolo da esperança de encontrá-la? Durante todo o trajeto a pé, dois zumbidos no ouvido de todos. Eram os helicópteros da imprensa, que não perdiam um único detalhe, só se esqueciam de deixar a família chorar em paz. Nós praguejávamos contra a mídia, nos esquecendo de que é a nossa própria curiosidade que os faz estar lá, assim como as dezenas de câmeras que acompanhavam a cerimônia de um morro vizinho. Amanhã eles estarão sobrevoando mais uma tragédia, e essa estará esquecida.

Muita gente aproveita esses episódios para atribuir culpa. A culpa é um elemento indissociado da dor. Uns culpam os pais por serem severos demais, outros por não controlarem direito os filhos, outros culpam os dois jovens pela irresponsabilidade, e muitos mais culpam a polícia, o governo... nessas horas tudo fica irrelevante perto da enormidade dessa tragédia. Para as pessoas próximas, a vida nunca mais será a mesma. Mas mesmo com toda a dor, eu tenho certeza de que a nossa presença física lá e a presença de toda a comunidade em pensamento não foi irrelevante. Por experiência própria eu sei como ajuda o fato da gente pertencer a essa enorme família judaica, como os nossos símbolos e rituais e a nossa união ganham força concreta nesses momentos. É um privilégio fazer parte disso tudo.

Espero que a questão da culpa fique reduzida aos criminosos que cometeram essa atrocidade e que os pais e familiares da Liana possam encontrar algum dia a paz e o perdão, perdão deles mesmos para si próprios.

Alexandre Ostrowiecki (Nani)

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