O Muro e o "Murro"
Uma idéia boa e outra estúpida na nova construção israelense
Possivelmente o assunto mais comentado no momento, em termos de estratégia israelense, é a construção do "muro de defesa", ao longo das linhas aproximadas de 1967, separando os territórios palestinos da Israel pré-67. Trata-se de uma obra caríssima, que terá como nucleo a criação de um elaborado sistema de cercas eletrônicas, estradas e muros de concreto. A idéia é que a construção eventualmente cerque por completo a Cisjordânia, fechando hermeticamente o acesso a Israel. A obra nasceu polêmica, sendo radicalmente defendida por alguns grupos e criticada por outros. Normalmente, ou se é a favor do muro ou contra.
Na verdade, existem dois muros sendo contruidos ao mesmo tempo, mas pouca gente enxerga a diferença. O primeiro muro é aquele que está sendo contruído próximo da linha verde, ou a fronteira que separa onde há maioria judia de onde há maioria palestina. O objetivo deste muro é exclusivamente proteger a população israelense do terror. Não há nada mais legítimo do que isso. Todo governo tem direito e dever de defender a sua população. A medida mais elementar para tanto seria, claro, tentar impedir que os imbecis-bomba cheguem às cidades israelenses e matem um sem número de civis. Com excessão dos anti-semitas de plantão, que consideram um abuso o fato dos judeus tentarem se defender, a maior parte das pessoas sensatas apoiam essa idéia.
O que se questiona muito é se a coisa toda funciona ou não. Roberto Pompeu de Toledo, em seu último ensaio na Veja, travestiu-se de especialista em segurança e afirmou que "muros não resolvem", o que poderia sugerir que a obra toda não passa de um grande desperdício de dinheiro. Não é verdade, como se pode comprovar pelo caso da Faixa de Gaza. Desde 1996, essa área palestina foi completamente cercada por um sistema de segurança similar ao que está em contrução na Cisjordânia. Desde então, não houve um único caso de terrorista que partiu da Faixa de Gaza. Claro que se pode afirmar que aqui se trata de um setor muito menor e, portanto, mais facil de controlar, mas o simples fato de não haver atentados a partir de uma área radicalizada e explosiva como Gaza é indício de que o muro pode ajudar, e muito. Qualquer iniciativa que ajude Israel a voltar a uma vida normal deve ser bem vinda.
No entanto, existe um lado negro do muro para o qual muita gente tem fechado os olhos. Ao invés do traçado se manter próximo à linha verde, a construção faz diversas e longas entradas dentro das áreas palestinas (ver mapa). Separa aldeias de suas plantações, famílias dos seus hospitais e transforma num inferno qualquer tentativa de se movimentar dentro desses territórios. O objetivo ostensivo desses desvios de percurso é proteger os assentamentos judaicos localizados no coração da Cisjordânia, mas para quem conhece a linha ideológica do atual governo de Israel, pode-se desconfiar que essa história vai muito além disso. Na verdade, é possível que Sharon esteja querendo usar esse traçado para tornar cada vez mais difícil a criação de um Estado Palestino e para consolidar cada vez mais o controle de Israel sobre os territórios ocupados. Esse muro é um verdadeiro murro no processo de paz.
Esse "traçado maligno" do muro é um tiro no próprio pé de Israel. Na melhor das hipóteses, em breve haverá um Estado Palestino na Cisjordânia e Gaza e todo o dinheiro gasto com a obra será jogado fora, uma vez que Israel terá que erguer novas barreiras, essas próximas da fronteira. Para haver um País Palestino, a maioria dos assentamentos terão que ser desmantelados junto com os pedaços do muro que ficarem dentro da nova nacão. Na pior das hipóteses, o muro vai acorbertar mais confisco de terras, mais fragmentação das áreas palestinas e inviabilizar um tratado de paz por mais alguma décadas. Não dá pra calcular quantas vidas ainda serão perdidas por causa dele.
O conflito árabe-israelense é polêmico até quando se trata de um monte de arame e concreto como esse muro. A ONU, ao mesmo tempo em que "se esquece" de denunciar a ocupação cinquentenária do Tibet pela China, dos curdos pelos turcos, do fato de alguns países árabes tratarem as mulheres como animais, devota uma sessão da Assembleia Geral para condenar Israel. Melhor faria se, ao reconhecer o lado bom da construção do muro (menos vítimas do terror), pressionasse o governo de Israel a seguir um traçado mais construtivo.
Alexandre Ostrowiecki (Nani)
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