Os Varenikes do Concurso
O lar judaico ainda é o aspecto mais forte da nossa identidade
Recentemente, o "Espaço K", que promove eventos e atividades para jovens, realizou o primeiro concurso literário judaico. Com o tema sendo "identidade judaica", o evento teve a participação de cerca de 30 jovens, que compuseram textos com os mais diferentes assuntos ligados à nossa identidade. Desde Israel, passando por anti-semitismo, sinagoga, Deus e escola judaica. O texto vencedor, no entanto, escrito por uma garota de Porto Alegre, falava de varenikes. Descrevia em detalhes o processo de produção artezanal dos bolinhos, executado com perfeição em cada geração da família. A primeira vista, o grau de detalhe em que a autora chegava, ao detalhar os itens da receita e as sensações que a atingiam em cada etapa podia parecer exagerado, mas logo o leitor se via carregado pelo ritmo saboroso do texto e logo se sentia embalado por uma calma tão profunda como a da colher de pau a mexer a panela fumegante.
Por que esse texto, entre tantos outros com temas mais grandiosos, ganhou o concurso? Israel foi considerado menos importante do que os varenikes? O contato com Deus na sinagoga foi deixado de lado, no rol de prioridades judaicas, para dar espaço às gordurentas bolotinhas? Dizer que o texto ganhou porque foi bem escrito não vale. Realmente as palavras e composição do material foram bem escolhidas, mas o mesmo se pode dizer de vários outros texto do concurso. Apesar de estar bem escrito, não foi isso que tocou os jurados. Além disto, outros materiais escritos não tão criteriosamente foram bem avaliados, por tratarem de temas importantes.
Os varenikes simbolizam aquilo que há de mais importante na identidade judaica: a nossa família. De certa forma, a comida sempre funcionou para os judeus como a atividade agregadora da família. Em torno da mesa a família se reunia e comemorava as datas alegres. E grande parte destas datas trazia aquela alegria com um fundo de amargura, tão típica da existência judaica. Celebramos a liberdade em Pessach com um fundo de amargura pelos anos de escravidão. Em Purim nos lembramos de que escapamos por pouco de Haman. Ao redor da mesa o judeu expurgava todas as desgraças e dificuldades que assolavam a nossa existência. Cada gole de vinho doce, cada mordida num varenike fumegante dava aquela sensaçào interna de que existe gente que está "do nosso lado". Enquanto o mundo virava de ponta cabeça e o anti-semitismo nos rondava, a comida funcionava como terapia e Prozac ao mesmo tempo.
O texto é tipicamente judaico também porque nos remete, ao mesmo tempo, a alegrias e preocupações. Nos dias de hoje, as famílias estão cada vez mais ameaçadas. A correria da vida moderna, os casamentos mistos e a assimilação têm causado a dissolução da maior parte dos lares judaicos. Os depositários de conhecimento sobre judaísmo passam a ser exclusivamente os rabinos e cada vez menos as famílias. Nos próximos anos isso terá um efeito devastador sobre a comunidade judaica brasileira. Com famílias enfraquecidas, fica cada vez mais difícil sustentar a identidade judaica.
Neste contexto, devemos aplaudir de pé tanto o texto calórico quanto a bela iniciativa do Espaço K. Refletir e escrever sobre a comunidade, de forma aberta e livre, é algo que está ficando cada vez mais difícil nos dias de hoje.
Alexandre Ostrowiecki (Nani)
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