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Em Defesa do "Carnajudeu" (outubro/2003)
Em Defesa do "Carnajudeu"

De quem é a culpa por uma Hebraica lotada de goyim no Yom Kipur?


Fim de Yom Kipur. Anualmente, após terem suas barrigas preenchidas com o tão sonhado alimento, a juventude judaica tradicionalmente seguia para a Hebraica para a festa de confraternização, a Shava Tova Party. Era um evento marcado pelo encontro dos amigos há tempos não vistos, integração entre jovens judeus e reforço de amizades. Geralmente localizada na Praça Carmel, a festa podia contar com alguma banda da comunidade e poderia servir um vinho não muito chique aos presentes. Os preços eram convidativos, entre R$ 10 e R$ 15, de modo que ninguém ficaria de fora por causa de dinheiro. Sem muita pretenção, a festa tinha um sabor de encontro casual da nossa grande família de jovens judeus.

Na semana passada, ocorreu a mesma festa Shana Tová Party, na Hebraica, mas a cena era bem diferente. Quase cinco mil pessoas lotavam o Ginásio e o Salão Marc Chagall, escutando música eletrônica e a banda de axé Chiclete com Banana, uma das mais "quentes" do momento. A multidão balançava alavancada pelas doses alcólicas do Open Bar, onde se servia de cerveja a uísque a vontade. Quase nenhuma cara conhecida, já que a grande maioria dos presentes não eram judeus e sim, jovens universitários atraídos pelo que está ficando cada vez mais conhecido como o "Carnajudeu". De evento fechado, a festa de Yom Kipur passou a ser vendida na maioria das faculdades de São Paulo e atraiu multidões de não judeus. Algumas das cenas que ficaram na minha cabeça foram uns grupelhos de rapazes sem camisa urinando pelos cantos da Hebraica. Em outro momento, diversas pessoas se queixaram de roubos de celular e carteira. Do lado de fora, surgiram inúmeros flanelhinhas e cambistas, "guardando" os carros e vendendo ingressos por até R$ 150! Se me dissessem que eu estava na porta do Maracanã eu teria acreditado.

Tendo em vista que o propósito original da festa foi completamente trucidado, é bastante fácil culpar a organização do evento pelo fim do "paraíso perdido". Se, por um lado, os convites foram vendidos em massa para não judeus e, por outro, os preços chegaram a mais de R$ 100, o resultado não poderia ser outro: descaracterização do evento. Na verdade, as explicações são muito mais complexas e não temos como entender o que se passou sem uma análise aprofundada.

Há vários anos, a festa de Yom Kipur da Hebraica tem perdido força, tanto em número de pessoas como em composição do público. Os frequentadores tem sido cada vez mais novos, muitos pré-adolescentes e isso tem afugentado as pessoas mais velhas, entre 20 e 30 anos. Além disto, a competição com festas mais sofisticadas vinha espantando os frequentadores. Os jovens estão cada vez mais exigentes, demandando DJs chiques, Open Bar e outros elementos que dão charme às festas. Isso não tem nada a ver com a organização da Shaná Tová Party e sim com o perfil social da juventude judaica. É por isso que as festas de Yom Kipur "alternativas", promovidas por nomes como Mario Levi e Fabio Epstein ganharam fôlego e vinham superando de longe as festas da Hebraica. Tendo em vista esta situação, o clube judaico decidiu contra-atacar e oferecer um produto (festa) que não deixasse nada a desejar em relação às festas alternativas. Contrataram o próprio Mario Levi para a promoção, colocaram DJs, Sushi Bar, Open Bar e a grande atração que foi o Chiclete com Banana. O mesmo pessoal que critica o preço alto se esqueçe de que caso fosse oferecida uma festa básica, sem muita sofisticação, metade das pessoas não iria por achá-la brega.

Quanto ao fato da maioria das pessoas serem goyim, isso foi muito mais o resultado involuntário do grande sucesso na própria comunidade do que opcão deliberada dos organizadores. Quem critica a composição do público não pode se esquecer que a venda de ingressos foi feita única e exclusivamente dentro do clube e mediante apresentação da carteirinha de sócio. Quem vendeu a massa de ingressos para gente de fora foram os próprios sócios judeus, não os organizadores. Além disto, nenhuma mídia foi realizada fora da comunidade judaica. Houve que, simplesmente, o produto saiu melhor que a encomenda, a qualidade da festa foi tão boa que ultrapassou qualquer expectativa. Se a festa trouxe lucro, grande parte deste foi parar nas mãos da própria Hebraica. Ou seja, uma instituição comunitária falida a menos.

Mais importante do que achar culpados pela festa seria fazermos um verdadeiro balanço do que essa festa simboliza para nós, jovens judeus, e que grau de integração externa nós queremos para ela. Se a festa "caída" tradicional estava quase sumindo e se a festa "Carnajudeu" foi um exagero, qual o ponto certo entre esses dois extremos?


Alexandre Nani Ostrowiecki

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