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CALEM A MIDIA (setembro/2003)
CALEM A MIDIA

Como acabar com o terrorismo sem disparar nenhum tiro

O pessoal que costuma fazer propaganda pró-Israel geralmente defende a tese de que, após os atentados terroristas, Israel deveria mostrar o máximo possivel das cenas do local, com criancinhas em pedaços, velhos ensanguentados e afins como forma de ganhar a simpatia mundial. Eu já acho isso uma enorme besteira. Em primeiro lugar, porque essas cenas vão afugentar de vez os poucos turistas que ousam aparecer por lá. Em segundo porque esta mídia é exatamente o que os terroristas querem. Ao invés de divulgar o terror, o governo israelense deveria emitir uma ordem expressa proibindo qualquer tipo de cobertura dos atentados. O jornal que divulgasse um atentado deveria tomar uma multa cavalar e se fosse estrangeiro pior ainda: os jornalistas deveriam ser expulsos do País, jogados a pé na fronteira com o Egito. Aí se o meu plano falhar pelo menos a gente vai poder se divertir vendo o pessoal da France Press com suas boinas carregando as malas Sinai afora.

Vamos colocar a idéia da seguinte forma: quando o Hamas manda um palestino de 17 anos se explodir num ponto de ônibus ou numa pizzaria seu objetivo não se limita a destruir aquele local. Com certeza os extremistas não pretendem acabar com o Estado Judeu através da eliminação de suas pistas de danca. Não. Os grupos terroristas querem amedrontar os judeus até que:

1) A populacao israelense fuja do País
2) A falta de turismo arruine a economia
3) O País retalie tão brutalmente que isso favoreca os próprios grupos terroristas, jogando as massas árabes nas suas mãos

Para atingir estes objetivos grandiosos, a morte de uma dúzia de pessoas numa pizzaria nao é suficiente, por mais doloroso que isso seja para nós. A destruição concreta causada por um terrorista tem impacto muito limitado num país inteiro, mesmo que seja uma nação pequena como Israel. Se a gente se concentrar exclusivamente nos números, a chance de alguém ser assassinado em Israel é cerca de 10 vezes menor do que no Brasil (como já foi provado aqui nesta coluna - 04/2003). Se a destruição concreta fosse parâmetro, ja nao teria ninguém mais morando no Brasil, dado que a turma do Beira Mar é muito mais letal do que qualquer coisa que o Arafat possa jogar em nós. O estrago real causado pelo terror tem muito pouca relevância.

O grande problema é que o terrorismo se alimenta através de um processo muito simples mas pouco compreendido: A MÍDIA SERVE COMO UM MULTIPLICADOR DA DESTRUIÇÃO CONCRETA. Terror na Terra Santa desperta curiosidade, assalto em periferia não. Cada morte absoluta em Israel é transformada pela lente de aumento da mídia em milhares de mortes relativas. Ou seja, enquanto ninguém se incomoda com as dezenas de milhares de mortes na periferia paulistana, aos olhos do mundo e da opinião pública, parece que o Israel inteira esta imitando um campo de batalha. Quem mas ganha com isso são os terroristas. Eles vivem da mídia, eles precisam da mídia para respirar. Tirar a mídia deles é a mesma coisa que tirar o mar de um cardume de atums.

Vamos imaginar que essas medidas sejam implantadas, ok? Isso não tem nada a ver com liberdade de imprensa. Ninguém esta aqui sugerindo impedir que falem mal do Sharon ou que escondam algum caso de corrupção. Trata-se de um pacto social dentro de Israel em que Governo, Mídia e Sociedade simplesmente decidem parar de dar de mão beijada essa arma para os terroristas. Cada vez que um ponto de ônibus explodir, todos os cidadãos resolutamente continuam suas vidas sem comentar, as familias são avisadas, o local é limpo e nenhuma palavra sobre o ocorrido. Israel fica com uma aparência de mais calma, acabam-se as festinhas em Gaza comemorando o feito, enfraquece-se o recrutamento do Hamas. Ao mesmo tempo, o Tzahal continua a todo vapor combatendo o terror.

Qualquer seja a estratégia adotada a partir de agora para livrar o povo judeu da praga terrorista, precisamos começar a pensar "fora da caixa". Já ficou bastante claro que os métodos tradicionais não funcionam. Sharon já teve tempo suficiente para isso. O que custa tentar?

Alexandre Nani Ostrowiecki

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