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Os Quatro Filhos do Conflito (maio/2003)
Os Quatro Filhos do Conflito

Os quatro filhos de Pessach nos ajudam a entender o conflito árabe-israelense

Pessach já passou faz algum tempo. O momento agora é de comemorar o Yom Haatzmaut e nos maravilhar com esse milagre moderno chamado Estado de Israel. No entanto, dada a enrascada em que se encontra a "terrinha" ultimamente, me veio a idéia de ligar os dois temas. Vamos imaginar que os quatro filhos de Pessach agora deixaram o Seder e estão batendo um papo sobre as possíveis escolhas que Israel tem pela frente. O que dizer a cada um deles?

Ao que não sabe perguntar, devemos dizer o seguinte:

Com tantas variáveis e a chuva de notícias que recebemos diariamente, o conflito árabe-israelense nos parece um emaranhado intratável. Na verdade, é bem mais simples do que podemos pensar. Existem dois povos, judeu e árabe, reivindicando o mesmo território: a área entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão. Nós chamamos aquilo alí de Israel e os árabes chamam de Palestina. A essência do conflito é essa simples disputa de terras. Não é um problema religioso, nem cultural, apesar de que existem questões religiosas e culturais que complicam o problema.

Dada a situação acima, existem alguns fatos que são fundamentais para entendermos a situação atual.
1) Os judeus atualmente controlam todo o território (através de guerras essencialmente defensivas)
2) Os judeus atualmente são maioria no território (através da imigração)
3) Os árabes serão, inevitavelmente, maioria no futuro (através de suas taxas de natalidade)

O que diz o mau: "Por que não nos livramos dos árabes?"

Infelizmente, essa solução ainda é defendida por muita gente em Israel. Chama-se "transfer" ou a transferência de população árabe para fora de Israel. Os defensores dessa política encontram-se geralmente na extrema direita do espectro político e se dividem em dois grupos. O primeiro é o pessoal do "transfer da boa vontade", ou seja, ficam repetindo dia e noite o quanto Israel é sagrado e importante para os judeus, o quanto Jerusalém é mais importante para nós do que para os árabes e fazendo planos para o dia em que estes argumentos convencerão os países árabes a aceitar os palestinos. Apesar desse tipo de discurso sensibilizar um cara como eu, judeu, dificilmente vai convencer os árabes. Será que algum dia, os 4 milhões de palestinos vão se levantar e dizer: "puxa vida! Quer dizer que isso aqui era um reino judaico há 3 mil anos atrás? Mil desculpas, nós não sabíamos que pertencia a vocês, estamos saindo agora mesmo, nós e nossas famílias, e vamos nos mudar pra Bagdá!"?

O segundo grupo é o do "transfer na paulada". Estes são um pouco mais realistas e sabem que não se faz limpeza étnica no gogó. Precisa de exército, violência, humilhação. Precisa encarar as cenas na CNN de soldados de kipá arrastando famílias inteiras para dentro de caminhões com destino a Amã. Além de ser uma solução moralmente repugnante, que jogaria a nossa herança ética no lixo, uma política de expulsão forçada seria catastrófica para Israel, que poderia sofrer retaliações externas terríveis. Só um embargo de petróleo, por exemplo, deixaria Israel de joelhos em 3 meses, sem contar com a possibilidade de guerra aberta com os árabes.

O que diz o ingênuo: "Porque não continuamos com todo o território como está agora?"

Essa é a solução adotada pelo atual governo de Israel. No curto prazo é uma boa opção, dado que o nosso "parceiro da paz", Arafat, tem preferido explodir pizzarias a conversar seriamente. No longo prazo, enrolar do jeito que está significaria o suicídio de Israel. A taxa de natalidade entre os palestinos é de 4,5% ao ano, contra 1,5% entre os judeus. Isso significa que em 20 anos, os árabes passarão dos atuais 4,5 milhões de pessoas para 11 milhões, contra 6,7 milhões de judeus. Ou seja, a menos que a comunidade judaica dos EUA inteira faça aliah (hipótese que não chega a tirar o sono de Arafat), logo logo, os judeus serão uma minoria controladora de uma maioria árabe. Esse controle, como sempre foi na história, só pode ser feito à força e via opressão. Não seria exatamente o Estado dos sonhos de Hertlz, Ben Gurion e Cia... um Estado de Israel cada vez mais policial e paranóico, onde os jovens atrasam seus estudos porque têm que ficar policiando milhões de favelados fanáticos nas ruas de Gaza. Será que essa é a Israel dos sonhos de Sharon?

O que diz o sábio: "Como podemos conciliar a criação de um Estado Palestino com segurança para os judeus?"

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Se eu soubesse a resposta, estaria dando consultoria para o Governo de Israel, cumprindo meu dever nacional judaico e ainda faturando uns trocados com isso. O que é possivel adiantar é que a solução passa necessariamente pela negociação. Não se encerra um conflito de 100 anos só na paulada, apesar de que às vezes a paulada ajuda a aproximar o fim dos conflitos. A boa notícia é que estamos num momento muito propício para tentar. Nesta últimas semanas, o ditador mais perigoso do Oriente Médio foi derrubado, os palestinos perceberam que sua Intifada foi um fracasso e elegeram uma nova liderança para substituir Arafat. Além disto, EUA, UE, Russia e ONU publicaram o seu "Road Map" (me recuso a usar aquela tradução literal do Estadão, "Mapa de Estrada"), dando peso político para a solução que todos sabem ser a única possível: dois Estados para dois povos.

A maioria dos israelenses recebeu o plano com uma ponta de ceticismo. Perfeitamente compreensivel, dado que, para funcionar, depende dos palestinos cumprirem a sua parte também, principalmente eles pararem de envenenar a cabeça de suas crianças. No entanto, só esperar por eles e dizer que nós não temos nenhuma lição de casa pra fazer é uma grande bobagem. Israel poderia começar parando de contruir assentamentos. Cada casa que é levantada nos arredores de Jenin é um símbolo de que, bem lá no fundo, muitos de nós não aceitamos que a Palestina possa ter uma existência soberana por alí. Se o maior equívoco deles é não aceitar o nosso direito à existência soberana em Israel, então não devemos cair no mesmo erro.


Alexandre Ostrowiecki (Nani)

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