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A Fazendinha de Hitler (abril/2003)
A Fazendinha de Hitler

Por que o Holocausto Judeu foi um evento sem paralelo no mundo?

Muitas vezes, durante uma conversa com amigos na faculdade, trabalho ou em outros ambientes sociais, escutamos afirmações que relativizam a importância do Holocausto Judeu na história humana. São afirmações do tipo:

"O que fizeram com vocês judeus foi ruim, mas foi apenas mais um massacre entre muitos que acontecem todos os dias: Bósnia, Ruanda, Chechênia etc"
"Vocês vivem falando dos seus 6 milhões. Mas na Segunda Guerra Mundial morreram mais de 50 milhões de pessoas. Vocês não foram os que mais sofreram"
"Só se fala de judeus no Holocausto, mas muitos outros grupos foram exterminados também: ciganos, homosexuais, deficientes mentais..."

De modo geral são afirmações bem intencionadas mas que devem ser respondidas à altura. Claro que nós não temos nenhuma pretenção ao monopólio do sofrimento nem da perseguição. No plano individual e familiar, é igualmente trágica a morte de uma criança em Kosovo ou em Auschwitz. No entanto, existem duas diferenças principais que tornaram o Holocausto Judeu um acontecimento sem paralelo em termos de repugnância e impacto coletivo. A primeira é de método e a segunda de ideologia.

O Holocausto foi a primeira (e única) vez na história que um regime destinou todo o potencial econômico e logístico da nação para exterminar um povo. Foi o único genocídio realizado em escala e com métodos industriais. A Alemanha utilizava seu exército para ocupar nova terras, a polícia para encontrar os judeus conquistados, o sistema ferroviário para reuní-los e o máquinário industrial para a sua destruição física. Ao contrário dos demais genocídios, caracterizados pelo uso da fúria e caos das multidões, o extermínio dos judeus foi frio e impessoal. Os métodos utilizados foram sem precedentes.

Mais importante ainda do que isso é entender o espaço que a figura do judeu ocupa na ideologia nazista. Muitas pessoas pensam que o judeu é apenas mais um grupo entre o rol de "raças inferiores" de Hitler. É um engano compreensível, mas que nos impossibilita compreender bem essa questão. Para ilustrar e simplificar esse ponto, permitam-me criar uma paralelo com algo conhecido nosso. Hitler via o mundo ideal como se fosse uma fazendinha. Ele acordava todos os dias com o objetivo de moldar a fazendinha dos seus sonhos. Nela, cada grupo humano tinha um papel específico.

Os donos da fazenda, claro, seriam a raça ariana, alemães, suecos, austríacos etc... Eles seriam os proprietários de tudo e senhores do mundo. Um mundo belo e perfeito comandado por uma raça bela e perfeita.

Os administradores da fazenda, pessoas de bem e capazes, apesar de não serem tão boas como os arianos, seriam os demais povos europeus, franceses, italianos, gregos etc... Eles teriam um papel confortável sob as asas dos donos da fazenda.

Abaixo destes viriam os demais empregados, aqueles que plantam, colhem e ordenham os animais. São pessoas sem muita capacidade, simples, mas que podem ter um papel positivo se forem bem orientados pelos senhores. São os eslavos, latino-americanos, asiáticos, etc... Para os nazistas, se estes povos estiverem sob o firme controle ariano, não há o que temer.

A fazendinha de Hitler não podia dispensar os animais de carga, os cavalos, mulas, bois etc... Esses não pensam por si próprios, mas podem realizar trabalho util para os Senhores. Na visão nazista seria o caso dos negros, meros animais de carga que devem ser contidos e manipulados para se extrair trabalho. Assim como não tem sentido uma fazenda matar seus próprios cavalos, o nazismo não via sentido em exterminar os negros.

Mais abaixo, viriam os animais doentes, aqueles que não servem para o trabalho e que podem contaminar outros. Para quem acha que estamos falando dos judeus, ainda não chegamos lá. Trata-se dos homosexuais, deficientes mentais, etc... Estes devem ser mortos não porque são intrinsicamente maus, mas porque destoam do mundo ideal nazista. Uma vaca doente deve ser morta, mas é lamentada, os donos prefeririam que não tivesse de ser assim.

E quem seriam então, os judeus, na fazendinha nazista? O paralelo mais próximo que encontrei seria o dos virus. Os judeus são invisíveis quando estão alojados nas sociedades hospedeiras, visíveis quando espalham os seus males. Eles se multiplicam rápido e se infiltram em todos os segmentos, misteriosos, dotados de uma vontade destrutiva e desconhecida. Se beneficiam da vida e riqueza da fazenda para crescer e depois destruí-la. Para o nazismo, o judeu é um virus maligno e perigoso que tem assolado o mundo desde os tempos imemoriais. O judeu é o vírus e Hitler é a cura. O que você faz com um vírus? Existe meio termo? Existe compromisso? Não. O virus deve ser exterminado, onde ele estiver, não por causa do que ele faz, mas pelo que ele é. De certa forma, Hitler considerava os judeus como super-heróis do mal. Sua guerra contra o judeu não tinha o carater nacionalista da guerra da Servia contra os albaneses, por exemplo. A Sérvia estaria satisfeita quando expulsasse os muçulmanos de Kosovo. Hitler nunca estaria satisfeito. Sua guerra contra os judeus era universal. O extermínio sempre foi a consequência lógica da visão de mundo nazista.

A partir de 1933, o nazismo pôs as mãos nos recursos industriais da Alemanha para implantar a sua profecia apocalíptica. Com raras excessões o resto do mundo ora aplaudia, ora ficava indiferente. A memória e o entendimento destes anos terríveis é uma das nossas maiores armas para evitar que eles se repitam.

Alexandre Nani Ostrowiecki


Fontes: "Hitler", Joaquin Fest, "Hitler's willing executioners", Daniel Goldhagen, "Sword and Swastika", Telford Taylor

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