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Porque chovem bombas em Bagdá mas dólares em Tel Aviv? (março/2003)
Porque chovem bombas em Bagdá mas dólares em Tel Aviv?

Como refutar a mais perigosa acusação contra Israel

De todas as críticas feitas a essa guerra, provavelmente a mais contundente e perigosa para nós judeus seria a pergunta abaixo:

"Tanto o Iraque como Israel possuem armas de destruição em massa e violam resoluções da ONU. Porque o Iraque deve ser bombardeado enquanto os judeus recebem dólares dos EUA?"

Se uma pessoa bem intencionada (porém mal informada) se deparar com essa questão, ela pode ficar tentada a achar que existe aí uma parcialidade flagrante em relação ao tratamento dado a Israel. Na realidade, as semelhanças entre Israel e Iraque param por aí. Mais do que o simples bom senso, as diferenças estão claras dentro da lei também.

Não é preciso ser um especialista em relações internacionais para saber que enquanto o Iraque é uma ditadura sanguinária, Israel é uma democracia (caótica, sim, mas democrática). Israel nunca despejou armas quimicas em sua própria população e suas guerras foram majoritariamente defensivas, enquanto as do Iraque foram exclusivamente ofensivas. Além disto, por mais que achem Ariel Sharon desagradável, ele ainda não mandou colar cartazes de si mesmo pelo País inteiro nem torturou pessoalmente membros de sua própria família. Algumas diferenças são óbvias, mas o que a maior parte das pessoas não sabe é que, além do bom senso, a lei internacional também deixa clara a diferença entre os dois casos.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer o que significa ter armas proibidas: quando se fala em armas de destruição em massa, as WMD, existe um acordo segundo o qual determinado país abdica oficialmente de possuí-las e recebe uma série de benefícios em contrapartida. O Iraque assinou esse acordo, recebendo os benefícios, sendo o principal deles ajuda alemã para construir um reator nuclear. Mais para frente, Tio Saddam resolveu jogar os acordos no lixo e começar a produzir essas armas, violando o que ele proprio tinha concordado. Já Israel não é signatário, ou seja, preferiu não assinar, apesar de não receber os benefícios. Portanto, legalmente não está impedido de possuir as WMD. Outros países também seguiram o caminho de Israel e não são importunados por isso.

A questão das resoluções é outro tema que tem confundido a cabeça de muita gente por aí. A carta de fundação da ONU determina que o Conselho de Segurança pode passar resoluções de dois tipos: as enquadradas dentro do Capítulo Seis e as do Capítulo Sete. As resoluções sobre o Iraque estão enquadradas no Capítulo Sete enquanto as de Israel estão no Capítulo Seis. Nu? Bom, as resoluções do Capítulo Sete são do tipo enforceable, que podem ser impostas à força pela ONU. O Capítulo Sete trata do poder do Conselho de Segurança de fazer guerra para frear agressores (caso do Iraque). São resoluções que sempre miram um Estado só. O Tio Saddam atacou e ocupou outro país sem provocação. Em resposta, o Conselho de Segurança aprovou "o uso de todos os meios" (ou seja, força) para que ele saisse do Kuwait e entregasse suas armas, sendo que a última parte ele ainda está por fazer. É dentro deste capítulo que está a resolução 1441, afirmando que Saddam descumpriu as determinações anteriores.

Já as resoluções do Capítulo Seis são do tipo recomentative, ou seja, tratam do solucionamento consensual de conflitos. Este tipo de resolução sempre se dirige a mais de uma parte, dando "lição de casa" para os dois lados de cada conflito. No caso específico de árabes e israelenses, a resolução 242, por exemplo, pedia aos israelenses que "saissem de territórios ocupados" em 1967. Em contrapartida, árabes tinham que reconhecer Israel e assinar a paz. Nem um nem o outro lado cumpriu a sua parte, o que exige mais negociação e acordos. Isso não tem nada que ver com o caso do Iraque.

Quanto à questão da ajuda financeira dos EUA, é sempre bom lembrar que a maior parte desta ajuda vem do pacote de 1978, que visava a promoção da paz na região. Não só Israel, mas Egito e, mais tarde, Jordânia, também passaram a receber ajuda financeira. Hoje, o valor da ajuda dos EUA aos países árabes é similar à ajuda a Israel. No caso do Egito, o maior receptor, a ajuda vem na forma de equipamento militar. Ou seja, ao enviar dinheiro a Israel, os EUA estao essencialmente reequilibrando a balança de poder na região, não fazendo-a pender definitivamente a favor dos judeus. Claro que existe um relacionamento muito especial entre Israel e os EUA, por uma série de fatores, mas deve-se colocar a ajuda americana dentro do seu devido contexto.

Não acho que os argumentos acima teriam muito efeito na cabeça oca de um anti-semita. Quem acredita em teorias da conspiração e afins tende a rejeitar qualquer fato que não se conforme com a sua visão pré-concebida de mundo. No entanto, para o público em geral, e para nós judeus, é importante ter em mente que os casos do Iraque e Israel são os mais distintos possíveis e, portanto, as soluções para cada um também o são.

Alexandre Ostrowiecki (Nani)

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