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A vida parece um jogo de tabuleiro, vez ou outra paramos para tirar uma carta de sorte ou revés.

Ao terminar o “shabat” liguei o celular ansioso por revisar meus correios eletrônicos.

Entre as mensagens acumuladas me deparei curioso com um convite de um fornecedor para acompanha-los dentro de algumas semanas numa viagem de negócios aos Estados Unidos.

A multinacional me convidava para alguns dias de exposição de novos produtos, um programa especialmente montado para entreter e dinamizar clientes da América Latina.

A carta de sorte era brindada, presente de semana nova.

Contente com a perspectiva de um “relax” por alguns dias de uma vez comecei a pensar na solução para o “shabat” que passaria fora.

Não foi difícil conseguir com amigos a indicação de uma sinagoga perto de onde me hospedaria.

Troquei correios com o rabino americano e logo tudo estava razoavelmente equacionado.

A data da viajem chegou e embarquei alegre com destino a Nova Jersey.

Durante a semana tudo correu a maravilhas, o clima de outono era agradável, as palestras e demonstrações interessantes, as pessoas muito animadas.

Os anfitriões de uma gentileza incrível conseguiram comida “kosher”, e entretido os dias voaram.

Na sexta-feira o trabalho basicamente já havia culminado e junto com os outros executivos latinos fizemos um “city tour” de primeira em Nova York.

Depois do almoço, um “Cadillac” estava pronto para levar-me ao Hotel, meus anfitriões sabiam que deveria preparar-me com antecedência.

Tudo estava perfeito, sentia-me animado com a perspectiva de um “shabat” diferente em “Parsippany”, um lindo subúrbio de Nova Jersey.

No final da tarde o taxista do hotel me deixou na frente da pequena sinagoga.

De acordo com as indicações o “shil” ficava a três milhas do Hotel, nada que um bom andarilho, como me considero, não pudesse resolver numa agradável noite de outono.

Na verdade não me lembrava de que o outono americano fosse tão fresco, chegando a zero grau a noite, e de madrugada abaixo disso.

O taxista, que gentilmente insistia em voltar para buscar-me mais tarde, não entendia por que eu não queria que ele regressasse. Sem querer dar grandes explicações finalmente consegui esquivar-me do bom samaritano.

As luzes da sinagoga estavam acesas e me dirigi à porta de entrada. Estava trancada.

Dei a volta buscando a porta dos fundos que também estava fechada.

Caminhei ao redor. A linda tarde fria estava absolutamente quieta, somente as folhas vermelhas acumuladas no chão de asfalto, ninguém a quem indagar.

Supus que em breve chegariam os fiéis, deveria esperar. Para aproveitar o tempo e evitar perder a reza da tarde saquei do bolso o minilivro de “minchá”.

Enquanto isso chegou uma “van” e logo um segundo carro, os rabinos e seus filhos entraram na sinagoga. Quando finalizei minhas preces entrei na sinagoga e cumprimentei o rabino, e também ao outro religioso, que soube tratar-se de seu irmão menor, acenei sorrindo para as crianças.

A sensação de que seria uma noite bastante diferente aumentou assim que os dois começaram o “cabalat shabat”, não havia mais ninguém.

A cerimônia foi rápida devido ao público reduzido e já me preparava para despedir-me quando o rabino gentilmente informou que deveria acompanhá-los para o jantar. Aceitei encabulado o convite, no fundo feliz por ter uma mesa para compartir.

Conversamos durante o percurso e descobri que os irmãos eram de Chicago e que no sábado os fiéis estariam presentes na reza da manhã, por incrível que pareça sexta a noite não costumava ter muita audiência por aquelas bandas.

A casa estava pronta, luzes ligadas, calefação acendida, ambas as famílias bem vestidas esperando os pais chegaram do “shil”.

Mas uma vez fui bem recebido, e me deixaram a vontade.

A mesa estava posta, e após o “kidush” a refeição foi servida.

“Hering”, “goldene ioch”, pepino azedo, húmus, “varenikes”, carne, frango, vegetais e várias “chalot” deliciosas. Quase minha dieta se perdia, enquanto as “meidalach” mais velhas me serviam com a devida aprovação dos pais.

Palavras de “Torá” e farta conversa acompanharam toda a refeição com alegria.

Mas como é de se esperar chegava a hora de agradecer, despedir-me e ir para o hotel.

O rabino antes de se despedir me deu orientações a respeito do caminho de volta, eram muitos detalhes, assim que memorizei boa parte, me lembro de que depois da recomendação de passar a ponte sobre a estrada já não me preocupei mais por pensar que estaria perto do hotel.

O rabino ainda insistiu para eu levar um jaleco refletivo que julguei desnecessário, mas ele não me deixou sair sem isto, pensei que era preocupação de americano exagerado.

A noite estava fria e escura, e seguindo as indicações me pus em caminho.

Depois de dez minutos andando comecei a entender a necessidade do jaleco refletivo pela escuridão do subúrbio e a falta de iluminação das ruas.

Engatei uma marcha para tentar chegar rápido ao meu destino.

Depois de uns trinta minutos caminhando passei a ponte sobre a estrada, limite do que tinha entendido das explicações do rabino.

Não via sinal de nenhum hotel e as luzes diminuíam conforme avançava.

Depois da ponte o breu aumentou, e o frio também.

Já tinha a cara enrolada no cachecol comprado dia anterior quando me dei conta que o outono Nova-Iorquino era de lascar.

O jeito era avançar, pois regressar seria pelo menos quarenta minutos e não saberia diferenciar a casa entre as dezenas similares. Caso a conseguisse reconhecer como me explicaria.

Aumentei a velocidade da marcha e agradeci a bondade do rabino de cuidar-me com o jaleco que me dava alguma visibilidade no meio do negror da noite cerrada.

Buscava alguma referência, mas nada me fazia o menor sentido, não havia ninguém nas ruas, nem uma viva alma.

Ao longe vi sedes empresariais e pensei que poderia buscar alguma informação.

Esperançoso, me decepcionei ao perceber que a segurança americana não necessita de ninguém para cuidar dos imóveis que estavam absolutamente vazios.

De vez em quando um carro passava em alta velocidade e não dava a menor chance de perguntar nada.

Preocupado não me restava outra senão seguir adiante. O medo das gigantescas dimensões americanas crescia rapidamente, e comecei a temer perder-me e andar a noite inteira sem chegar a lugar nenhum. O frio era enorme.

Estava em uma grande avenida com alguns poucos edifícios corporativos, estava ferrado.

Para frente o desconhecido, para trás quase uma hora de caminhada e a humilhação de regressar à casa de pessoas que mal conhecia.

Pedi a Deus que me ajudasse e decidi seguir. Mais outra esquina a uns quinhentos metros.

Com o coração na mão andava rapidamente em busca de salvação.

Virei à esquina, e mais outro tanto vislumbrei o que poderia ser a fachada dos fundos do Hotel.

Contornei o estacionamento gigante e incrédulo e agradecido reconheci as luzes.

Gelado, entrei no lobby. Num alívio senti o calor do lar. Tirei o cachecol e o jaleco e subi a escadaria em direção ao meu quarto.

Dormi feliz, agradecido pelo milagre que acabava de acontecer.

No dia seguinte a linda manha gélida de outono estava clara sem nenhuma nuvem no céu, fiz o caminho para a sinagoga em menos de uma hora.

Já conhecia o trajeto feito na noite escura e cantando caminhei para chegar à reza da manha.

Dessa vez havia um bom público na minúscula sinagoga “ashkenazi” e o serviço foi muito aconchegante.

Ao final sentia o cheiro do “kidush” preparado na parte traseira do pequeno local. Gostosuras foram compartidas entre todos os convivas.

Conversei com alguns curiosos que me perguntavam a respeito de tão diferente personagem que os visitava.

Ao despedir-me um casal de idade insistiu para almoçar em sua casa e não pude negar tão generosa oferta.

A poucas quadras da sinagoga a casa era clara, típica de um simpático casal de aposentados. A senhora, uma marroquina, falava um excelente espanhol e me deixava muito à vontade.

O almoço de “shabat” foi regado à boa conversa de pessoas generosas que com sincero interesse recebiam seu convidado pelo simples fato de ser um irmão.

Escutaram com atenção minhas histórias, e eu escutei as deles, rezamos, rimos e comemos.

Depois os deixei para desfrutaram a merecida “siesta”.

Estava feliz e contente de passar o “shabat” na América. O sol da tarde esquentava o ar frio de outono iluminando uma deliciosa caminhada ao Hotel.

De volta ao Panamá troquei alguns correios eletrônicos agradecendo o rabino e sua família, e o delicioso casal, que tão generosamente me receberam pelo simples desejo de cumprir uma “mitzvah” tão bonita da nossa cultura.

“AM ISRAEL CHAI”

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