Uma Nova Era e mais duas Bombas Atômicas – por Herman Glanz

Conforme a TV iraniana, o Presidente Mahmoud Ahmadinejad, após firmado o acordo mediado pelo Brasil e Turquia, telefonou ao Primeiro-Ministro turco, Erdogan, declarando que tal acordo marca uma nova era na política internacional. A notícia não esclareceu se igual telefonema foi dado ao Presidente Lula.

O grande trunfo pretendido pelo Irã, com a participação do Brasil e Turquia, (há quem fale em cumplicidade) foi a declaração de estar sendo cumprido, integralmente, a exigência do Grupo de Viena (5+1) e da Agência Internacional de Energia Atômica, com a finalidade de evitar o uso da energia nuclear para fins bélicos, pois fora exigido, em outubro de 2009, que o Irã remetesse 1200kg de urânio a 2%, que era a totalidade prevista em poder do Irã, para ser enriquecido na Rússia, gerando 120kg a 20%, e depois remetido à França para a confecção dos bastões para uso nos reatores.

Acontece que, devido ao tempo decorrido desde a exigência de outubro do ano passado, está estimado que o Irã já é possuidor de 1600kg a 2000kg de urânio a 2% e, além do mais, segundo a agência de notícias iraniana IRNA, em 17 de maio pp, o acordo não impede ao Irã a continuidade de enriquecimento de urânio, o que significa, explicitamente, que o Irã possui mais urânio além daquela quantidade, vista como a totalidade na época. O Primeiro-Ministro turco, por sua vez, emitiu declaração de que a Turquia é apenas fiel depositária dos 1200kg, que serão retornados ao Irã caso não receba os 120kg enriquecidos.

Ao firmar um acordo, mas em quantidades menores, porque de sete meses anteriores, entende Irã estabelecer uma nova ordem na qual o Irã deverá estar presente, conforme as idéias do Presidente Ahmadinejad de criar uma alternativa moral, cultural e política ao que chama de fracassada velha ordem do Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, que assim fica desafiado e sem alternativa decisória exclusiva pela presença do Irã, que não mais ficaria isolado.

Ao utilizar países em desenvolvimento como o Brasil, que também persegue a independência em energia nuclear, e que alguns países ocidentais consideram visar implicações militares, e também a Turquia, que busca liderança no mundo muçulmano, a intenção do Irã é deslocar a influência do Ocidente pois, com o Brasil tendo assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Irã se projeta além da sua posição regional no Oriente Médio e vai além da sua esfera exclusivamente nuclear, criando uma frente anti-americana e alternativa à hegemonia das grandes potências ocidentais, atraindo a participação de países latino-americanos e quebrando o isolamento imposto pelos Estados Unidos, pois o Irã passa a ser parceiro nas decisões. O marketing iraniano foi dizer cumprir integralmente exigência ocidental, também acompanhado por declarações do Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, omitindo-se o fato de se tratar de exigência ultrapassada, tentando enganar a muitos.

Todavia as grandes potências ocidentais não se deixam enganar, pois esse não é o procedimento internacional, e o Ministro do Exterior da França , imediatamente, declarou que tal acordo não impede ao Irã continuar seu programa nuclear, inclusive para fins militares. Deve-se levar em conta que a Agência Internacional de energia Atômica informa que o Irã já possui suficiente quantidade de urânio para a confecção de duas bombas nucleares.

A posição do Presidente Lula passa a ser questionada pelas grandes potências, como no pronunciamento da Secretária de Estado americana, Clinton. Devemos entender estar ocorrendo um alinhamento com Cuba e Venezuela, e o bolivarianismo de Hugo Chávez, que também busca liderança, já tendo atraído a Bolívia, Equador e Nicarágua, além do fracasso em Honduras, com o uso dos petrodólares, antes abundantes, quando barril de petróleo beirava os 150 dólares.

Com o seu antiamericanismo, Hugo Chávez trouxe o Irã para a América do Sul, firmando acordos, inclusive na área nuclear, e comprando armamento russo. Os acordos de Chávez com Ahmadinejad, com base no antiamericanismo comum aos dois, trouxe o Hizbollah para a região, firmando a presença do terrorismo nestas bandas. Vemos assim que o Irã, habilmente manobra países sulamericanos, dando, agora, vez ao Brasil, do que se aproveita Lula pelo destaque que alcança, mas com consequências ainda não bem delineadas no cenário internacional e local.

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