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Um olhar mais abrangente sobre a homenagem do Exército Brasileiro ao Major Otto Von Westernhagen, assassinado em 1968 no Rio de Janeiro

Ao completar 51 anos da sua morte, o Major Otto reapareceu no noticiário. A homenagem prestada causou polêmica, alimentada que foi pelas contradições surgidas, agravadas pelo momento de elevada polarização da opinião pública.

Uma tradição militar usual é de homenagear os que tombaram em combate, ou mesmo em serviço, como foi o caso do Major Otto. A presença do Capitão de Mar e Guerra Ralf Gunther Schimitt-Raiser, Adido de Defesa da Alemanha no Brasil, significa que a ECEME pretendeu homenagear um antigo aluno de Nação Amiga falecido.

No entre-guerras o Exército Brasileiro enviava oficiais brasileiros para estágios e cursos, e comprava material bélico na Alemanha. No pós-guerra a República Federal da Alemanha aderiu à OTAN, sendo formado um novo exército, mas não como sucessor da Wehrmacht, sendo que por falta de opções muitos ex oficiais dos exércitos de Hitler tiveram de ser aproveitados. Eram os tempos da Guerra Fria, da OTAN x Pacto de Varsóvia.

Neste quadro se insere o Major Otto, um dos oficiais cogitados para o novo exército, em geral por serem julgados como não tendo um passado associado ao nazismo, nem como soldados da Wehrmacht, SS, agentes da Gestapo, culpados de atrocidades ou perpetradores do Holocausto como criminosos de guerra ou nazistas convictos. Claro que julgamento precário.

Bem ou mal a RFA seria uma nova Alemanha, não mais o III Reich. A vinda do Major Otto para cursar a ECEME foi portanto uma consequência dessa nova política, quando também oficiais brasileiros voltaram a cursar as Escolas militares alemãs, o que ocorre até hoje, bem como a compra de material bélico da Alemanha.

Entretanto, não é tão simples quanto parece. Por trás de uma singela homenagem pairam os espectros de milhões de vítimas inocentes. Ainda que o Major Otto eventualmente até pudesse ser um anti-nazista convicto.

O impacto da homenagem ao Major Otto sobre a opinião pública foi intenso, agravado pela dificuldade de entendimento da questão, entretanto seria prudente evitar uma interpretação apressada, como será exposto a seguir.

É possível que o Major Otto não tivesse um passado comprometedor, já que foi chamado de volta em 1955 para integrar o novo exército da RFA, o Heer, ou Bundeswehr, que nada teria a ver com a antiga Wehrmacht e seus crimes de guerra. Na nova força só ingressaram aqueles de passado limpo.

Os elogios a carreira militar do major produzidos durante a homenagem, talvez nem muito recomendados, em tese advém exclusivamente pelo seu valor militar intrínseco, tal como ocorre com os estudos de caso sobre generais nazistas, suas táticas de blitzkrieg, suas batalhas, seus blindados, até hoje objeto de estudo em academias militares pelo mundo afora, nada tendo a ver com admiração pelo nazismo, trata-se puramente de estudos estratégicos e história. O ideal seria que nem fossem estudados, para evitar uma certa apologia do nazismo.

Certamente não é necessário ressaltar como o assunto é delicado, sensibiliza negativamente, e causa extremo sofrimento aos sobreviventes, mesmo na hipótese que pretendemos provar, de que não se tratou de maneira alguma de apologia ao nazismo. E hoje, cada judeu é de certo modo um sobrevivente, tendo ainda de lutar contra o antissemitismo e o neonazismo.

Em 1952, 16 anos antes do Major Otto desembarcar no Brasil, David Ben-Gurion já iniciava contatos informais com o Chanceler Adenauer. Em 1956, durante a Guerra do Sinai, a Alemanha deu a partida para uma ativa cooperação com o jovem Estado de Israel no campo militar. 50 oficiais das FDI foram treinados em escolas militares na Alemanha, certamente por companheiros do Major Otto. Seriam estes instrutores germânicos também nazistas?

Por sua vez, uma delegação de instrutores e experts militares alemães foi mandada para Israel a fim de assessorar as FDI. Também estes seriam nazistas, colegas do Major Otto? Nesta oportunidade, os Ministérios da Defesa dos dois países assinaram contratos de fornecimento de material militar alemão dos mais variados tipos, em particular artilharia e lanchas de patrulha, no valor de 60 milhões de marcos. Portanto a mesma Bundeswehr a que pertenceu o Major Otto estava treinando intensivamente especialistas das FDI e da indústria militar de Israel. Seriam também nazistas?

Em 1965 foram afinal estabelecidas relações diplomáticas entre Israel e a RFA, com a abertura de embaixadas nos 2 países. E quem foi o primeiro embaixador alemão? Ninguém menos que Rolf Pauls, antigo Oficial da Wehrmacht de 1934 a 1945. Gravemente ferido em combate, recebeu a Cruz de Ferro. Seria ele também nazista como o Major Otto? O fato é que Paulus serviu em Israel durante 3 anos. Mas ele não foi o único. Casos assim abundavam no governo, no judiciário, por toda parte. Portanto, assim como o Major Otto, Pauls tinha também uma medalha da Wehrmacht por bravura em combate. E seu vice na embaixada era o antigo fascista húngaro Alexandre Torok, que em 1950 recebeu cidadania alemã.

Segundo Begin, este foi o legado macabro de Ben Gurion, não sendo surpresa, ele que apenas alguns anos antes havia dado a ordem para bombardear o Altalena. Em 1977 Begin tornou-se o sexto Primeiro Ministro de Israel, rompendo uma sucessão de 31 anos de governos trabalhistas. Mas o mal já estava feito. E hoje o antissemitismo renasce na Alemanha e na Europa em geral. Begin era homem de muitos talentos e de grande paixões.

Guerreiro e político, visionário, comandante do IRGUN, o mais popular primeiro-ministro de toda a história de Israel, maior orador da nação – suas palavras incendiavam as plateias. Homem de linha dura, foi o falcão que fez a paz com o Egito, de Anuar Sadat, o que os trabalhistas jamais haviam conseguido. Deu também a ordem para destruir o reator atômico do Iraque em 1981.

Essa aproximação pragmática com a Alemanha, hoje esquecida, foi tristemente lamentável, tão pouco tempo após o terrível Holocausto. Vozes dissonantes se levantaram em Israel, destacando-se o líder da Oposição, Menachem Begin, entretanto os governos trabalhistas da época tinham maioria no Parlamento, e sob o pretexto da necessidade de indenizar os sobreviventes e de armar Israel contra os inimigos que o rodeiam até hoje, David Ben Gurion deu andamento às negociações. Valeu a pena? Assim ensinou o cristão-novo Fernando Pessoa.

A história é essa. Deixamos ao prudente critério de cada leitor a conclusão. Se o próprio Estado de Israel aceitou tal grau de cooperação com a Alemanha, porque o Brasil não poderia também manter um intercâmbio muito menos significativo com a Alemanha, admitindo na ECEME um simples major, e enviando para estudar na Escola de Estado Maior em Bonn outro major brasileiro?

Como todos sabem, o intercâmbio com a Alemanha prosperou muito desde então. Em Israel nem se fala, com exercícios conjuntos entre as FDI e a Bundeswehr, troca de inteligência em anti-terrorismo, treinamento nas academias de ambos os exércitos. A Alemanha forneceu armas importantíssimas para a defesa de Israel, como 4 submarinos da Classe Dolphin, canhões e blindagem para o carro de combate Merkava, eletrônica de bordo e aviônica para os F-16 e helicópteros AH-64 APACHE, motores para navios e lanchas de combate, equipamento de telecom e muitos outros. A cooperação técnica militar incluiu o desenvolvimento de sistemas de mísseis, complementares ao Iron Dome, acertado quando Angela Merkel visitou Israel em 2008.

No Brasil também aumentou extraordinariamente a cooperação, aumentando o intercâmbio e com a grande compra de blindados Leopard. Face ao exposto, parece nos impróprio acusar liminarmente o honrado Exército Brasileiro de ter homenageado um nazista, pois o Major Otto foi readmitido em 1955 na Bundeswehr, colhendo pelo menos o benefício da dúvida de que não tivesse um passado obscuro, assim como Israel também aceitou bem antes da chegada do Major Otto ao Brasil, que antigos integrantes da Wehrmacht servissem como instrutores e conselheiros em Israel.

Conclui-se então que a homenagem feita pelo Exército foi a um oficial de uma nação amiga assassinado por um comando terrorista há 51 anos atrás. A própria presença do Adido Militar alemão na ECEME durante a homenagem, se deu em função da presumível aceitação do Major Otto como apto a integrar o novo Bundeswehr. O exército alemão tinha 12 milhões de soldados. Outros milhões serviram na Gestapo, no S.A. e nas S.S. O Major Otto e tantos milhões tiveram que servir em alguma força. Milhões sobreviveram a guerra, entre inocentes e culpados.

O que deve ficar claro, é que o mesmo Exército que prestou a homenagem ao Major Otto, foi também que colocou a Estrela de David no Monumento aos Pracinhas, recebeu a comunidade no mesmo monumento em 27 jan 2019, Dia do Holocausto, bem como muitas outras vezes em comemorações do Levante do Gueto e do Dia do Holocausto, em geral com a presença de Oficiais Generais do Alto Comando, e colocou a placa SALA GENERAL KICIS na sala de instrução do Curso de Artilharia da prestigiosa EsAO – Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, na Vila Militar. Cedeu ainda os Fortes de Copacabana e do Leme para vários lançamento de livros e documentários sobre os militares judeus brasileiros, festivais de dança israelense, e um sem número de outros gestos tocantes para com a comunidade judaica. Na mesma ECEME, as táticas das FDI são estudadas, e muitas teses são apresentadas com temas a elas alusivos. A própria BIBLIEX publica livros como a biografia de Rabin.

Enfim, é o mesmo Exército que há mais de 30 anos mantém uma Distância em Tel-Aviv, agora também com um Adido Aeronáutico, e já há várias décadas desenvolve intensa cooperação técnica com as FDI, contribuindo para incrementar os laços de amizade que unem as duas nações amigas. É significativo o número de militares que fazem intercâmbio em Israel, bem como a contrapartida na forma de visitantes e atuação dos Adidos militares de Israel no Brasil.

No pós-guerra, os vencedores consideraram que uma outra Alemanha ressurgia das cinzas do passado tenebroso. Essa hipótese se confirmou em nosso tempo, quando a Alemanha se tornou uma nação amiga tanto do Brasil quanto de Israel. O Brasil, que combateu na Itália o nazi-fascismo, e Israel, referência espiritual dos descendentes de 6 milhões de vítimas inocentes, e de 1,5 milhão de soldados judeus das nações aliadas, fizeram frente a um inimigo comum, venceram e com o passar do tempo iniciaram um novo capítulo de relacionamento.

Jamais saberemos com total certeza se o Major Otto foi realmente um nazista, ainda que as circunstâncias da sua readmissão na Bundeswehr indiquem possivelmente que não. Na verdade, ele foi apenas um dos milhões de alemães a quem foi permitido recomeçar a vida, independente de culpa. Se a justiça tivesse que ser abrangente, milhões teriam que passar pelos tribunais, mas na verdade o que aconteceu foi uma lamentável anistia branca quase que total.

Talvez a homenagem devesse ser evitada. Mas teriam havido homenagens aos conselheiros militares e instrutores alemães em Israel que lá serviram a partir de 1956? E o embaixador que serviu na Wehrmacht? Teria sido homenageado também? Evitar tais homenagens possivelmente de nada serviria para fazer justiça, ainda que tardia.

Se tinha as mãos imaculadas do sangue de inocentes, o Major Otto morreu sem culpa. Mas se foi mesmo um criminoso de guerra oculto, a Justiça Divina demorou um quarto de século, mas o alcançou longe da Alemanha, em uma rua do Rio de Janeiro, quando em lugar de outro que deveria ser morto pelo comando terrorista, finalmente teria pago pelos seus crimes.
O Eterno, que tudo conhece, tudo pode, talvez um dia permita a nós, simples mortais, conhecer a verdade. Até lá, o Exército Brasileiro jamais poderá ser acusado de ter homenageado um nazista.

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