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Passear pela Europa… Zé Benedino, agora aposentado, começa a viagem em Portugal. O brasileiro que vem à Santa Terrinha, é como se estivesse retornando a suas raizes, revisitando o passado, em meio a modernidade deste pequeno pais, terra de gigantes, como foram Camoes, Fernando Pessoa, Cabral, Vasco da Gama e tantos outos,

Nosso vôo da TAP já iniciava a descida para aterrisagem, na aproximação para Portela de Sacavém. Quase todos a bordo ainda dormiam, o manto da noite começando a se recolher, sob os primeiros raios de luz do alvorecer.

Mas eu tinha que estar acordado, pois era como um sonho, o reencontro com o passado. Nos poucos segundos que a aeronave levou para atravessar o estuario do Tejo, la embaixo, me veio a lembrança que há 5 seculos, daquelas mesmas aguas, levantaram ferros as caravelas de Cabral, que iriam colocar o Brasil no mapa, adentrando o mar desconhecido com a Cruz de Cristo em suas velas, enfunadas ao vento, apos terem seus bravos marinheiros implorado a proteção divina, na Torre de Belem..

Mas certamente nem todos fizeram as mesmas preces… pois muitos eram cristãos-novos, a começar pelo interprete Gaspar da Gama, comandante da nau de mantimentos, e o Mestre João de Faras, asatrônomo da frota, que logo após o desembarque na Terra de Vera Cruz, iria se tornar o primeiro a observar uma constelação em forma de cruz, a que deu o nome de …. Cruzeiro do Sul … era o astrônomo da frota, e logo presentiu a importância daquelas estrelas para a navegação.

O que não sabia, é que a sua descoberta iria atravessar os séculos, e um dia estaria a figurar no nosso belo Hino Nacional, na nossa Bandeira, no Selo Nacional, nas Armas da República, no símbolo do Exército Brasileiro, e na nossa mais importante condecoração, a Ordem do Cruzeiro do Sul.

E foi com muita emoção, que recordei naquele momento os versos imortais de outro cristão-novo, o grande Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.

Mestre João e Fernando Pessoa nunca imaginaram, mas um dia não seria mais obrigatório seguir a religião do Rei em Portugal. Não mais seria pecado, e quem quisesse poderia comer carne na Semana Santa, ou frequentar a sinagoga, sem medo da “Sancta” Inquisição, que de santa não tinha nada … mas sim diabólicas fogueiras.

Muito menos imaginariam que se passariam cinco séculos, até que Portugal se arrependesse, e resolvesse conceder a cidadania portuguesa aos descendentes daqueles que foram expulsos em 1496, ou que permaneceram, mas obrigados a seguir à força uma outra religião.

Se hoje falamos português e vivemos em um imenso e rico país, muito devemos aos judeus,mouros e cristãos novos, que foram o esteio da Era dos Descobrimentos, pois dominavam o software (mapas e tabuas astronomicas) e o hardware (bussolas, astrolabio de metal), que possibilitaram as Grandes Navegações, como bem nos ensinaram os eminentes e saudosos historiadores Alte. Max Justo Guedes e Coronel Macedo de Carvalho.

Ao visitar a Lisboa antiga, ainda que pouco tenha restado das ruinas do grande terremoto de Lisboa, ao passar pela Mouraria e pelas proximidades dos Armazens do Chiado, onde um dia efervesceu a Judiaria, não pudemos deixar de nos emocionar com o significado de estar ali, onde pode se dizer, o Brasil começou.

Ficamos pouco mais de uma semana, o tempo passou mais depressa do que gostariamos, mas levamos muitas recordações, entre elas da fantástica Castelo de Vide, terra do grande médico Garcia de Orta, quando se completam 450 anos do seu falecimento, guiados pelo caro amigo Carolino Tapadejo, ex-presidente da Càmara Municipal de Castelo de Vide, ou seja, o Prefeito, ele mesmo outro cristão-novo, como Garcia de Orta, cujos ossos foram desenterrados e qeimados na fogueira pela Inquisição, pelo pretenso “crime” de judaismo. Castelo de Vide é tambem a terra do expoente da Revolução dos Cravos, o cristão-novo Capitão Salgueiro Maia, que prendeu e escoltou Marcelo Caetano para o aviao da Varig que o levaria ao exilio no Brasil, onde iria falecer tempos depois. Salgueiro, assim como Linhares e Silveira, tem todas as letras da palavra ISRAEL …

Castelo de Vide fica relativamente perto da cidade histórica de Évora, e de Marvão, um dos pontos por onde em 1492 entraram os judeus expulsos de Espanha, cruzando a ponte de pedra que existe até hoje.

Outra experiência marcante foi de ter adentrado o solo sagrado da primeira casa de oração judaica aberta em Portugal desde a Inquisição. Com mais de 1 século, precisou ser construida por tras de um outro prédio, pois assim era a legislação da época. Apenas igrejas podiam ter frente para a rua. E assim está até hoje a sinagoga … oculta ! Mas foi visitada por todos os presidentes após Salazar (por razões óbvias).

Não poderia deixar de lembrar os nomes de dois grandes patriotas portugueses, Capitao Barro Basto, que em 1910 hasteou a bandeira da repubica no Porto, comandou um batalhão do Corpo Expedicionário Português na frente da Flandres.
Oficial das ordens miltares de cristo e de aviz.

E o consul Aristides de souza mendes, um heroi do nosso tempo. Consul em bordeaux durante a segunda gerra mundial, organizou a maior operação humanitaria da sgunda guerra mundial. Por isso foi perseguido, mas a justiça foi feita, e hoje uma arvore no bosque dos justos entre as nacoes, em jerusalem, leva seu nome honrado.

Dois bravos patriotas portugueses, a final venceram e suas almas se incorporaram a corrente da vida eterna.

Foram dias intensos. Ao decolar de volta uma silhueta familiar ao longe, esbelta e elegante aeronave se destaca entre gigantescos Boeing e Airbus. Sim, é o pássaro brasileiro, o nosso EMBRAER-195, bi-jato para 116 passageiros ostentando as cores da TAP, e uma pequena bandeira verde-e-amarela na fuselagem.

Sob as bênçãos de Albertus Magnus Zé Benedino dá adeus a Portugal, mentalmente recordando saudoso o familiar monólito negro da Av Chile, onde a engenharia financeira benedense tanto ajudou para fazer presente nos aeroportos do mundo inteiro aquelas magníficas aeronaves fabricadas pela EMBRAER em São Jose dos Campos.

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Israel Blajberg
Há 10 séculos seus antepassados paternos saíram de Bleiberg, na Carinthia (Áustria), firmes como o chumbo (Blei) e imponentes como a montanha (Berg), entrando na Polônia sob o Grande Rei Kazimierz. Teve a honra de ser o primeiro Blajberg nascido no Brasil (Rio de Janeiro, 1945), estando hoje a família na terceira geração verde-e-amarela. Professor da UFRJ e UFF e Engenheiro do BNDES, aposentado em 2015. Palestrante e Autor de livros e artigos sobre Historia do Brasil, Militar, Judaica, Genealogia e Viagens. Membro das Ordens do Mérito da Defesa, Naval, Militar e Aeronáutico, e Medalha Pro-Memoria da Republica da Polônia.