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Hoje é PURIM, a festa judaica que mais se parece com carnaval. Uma explosão de alegria, precedido de um breve jejum, Taanit Ester. Lembra quando fomos apresentados ao antissemitismo há, praticamente, 2500 anos, no Reino da Pérsia, atual Irã.

A história é contada nos rolos da Meguilat Ester, sobre a Corte da Pérsia, com muitas intrigas políticas, tentativas de assassinatos, partidos e grupos públicos e privados disputando poder e privilégios, propinas e conflitos entre os principais contendores do governo. É um filme conhecido.

Os judeus eram um povo diferente e com suas próprias leis, diferentes das leis do reino, e deveriam ser eliminados, um genocídio rápido e eficiente, enforcados todos. Na história contada no Livro de Ester, sobressai a Rainha Ester, uma judia escolhida pelo Rei Ahasverus, como a mais bonita.

E ela se decidiu a tentar salvar seu povo apelando para o rei, diante de um complô para assassiná-lo. Ela resolveu falar com o Rei, sujeita a ser morta, assumindo que, se tiver de morrer, morrerá, mas deveria fazer aquilo que lhe competia fazer. E das forcas preparadas para os judeus, lá foi eliminado o intrigante e conspirador Haman, o Primeiro-Ministro do Reino.

Nos rolos da história de Purim, não figura uma só vez o nome do Senhor D’s. Purim, referindo-se a sorte, seria uma ação individualista, humana, e mais do que isso, uma manifestação feminista, nesta semana do Dia Internacional da Mulher. Nesta história, o tio de Ester, Mordehai, ajudou e orientou, conforme se conta nos rolos do Livro, aliás, um rolinho. Foi um grito de liberdade para os judeus da Pérsia, e pode ser visto como uma atividade feminista entre machistas.

Como o cristianismo incorpora o antigo testamento, o Livro de Ester foi vertido, mas não traduzido, na septuaginta, já introduzindo os desígnios de D’s. Martinho Lutero, com o seu protestantismo, tendo primeiro se aproximado dos judeus, acabou virando contra, e disse ser “um grande inimigo do Livro de Ester”, e também que os judeus deveriam ser assassinados, sendo assim, um precursor do nazismo, o nacional-socialismo de triste memória, e também de Karl Marx, que fora educado como luterano, e que escreveu que o mundo deveria se emancipar dos judeus. O antissemitismo promovido por Marx.

E falando em Marx, lembramos de outra efeméride, o Centenário da Revolução Russa, marcada no dia 8 de março, quarta-feira passada, (pelo nosso calendário; pelo calendário Juliano, vigente na Rússia, foi em 23 fevereiro) quando o Czar, o imperador, teve de renunciar e o governo menchevique assumiu, e teve a liderança de Kerensky, anunciando a liberdade para os judeus.

Essa liberdade foi saudada no mundo pela coletividade judaica, como uma nova liberdade prometida pela Revolução Francesa. Mas sabemos que não durou muito. A Alemanha, em 1917, trouxe Lenin da Suíça, onde estava exilado, num trem diplomático blindado para que chegasse na Rússia, financiando suas atividades, livrando-se, assim, da Frente Oriental na Grande Guerra.

O presidente americano, Wilson, ajudou a libertar Trotsky, preso no Canadá, para que chegasse, também, a Rússia e ambos, Lenin e Trotsky, fizeram a Revolução de outubro (por um calendário ou novembro, pelo nosso calendário), derrubando Kerensky e introduzindo o governo comunista. Também davam liberdade para os judeus, renunciando a religião. Clarisse Lispector, a grande escritora brasileira, veio criança com a família fugida da Ucrânia, em fins de 1917, época da revolução comunista, devido ao antissemitismo, no qual a Ucrânia sempre foi destaque.

O grito de liberdade para os judeus durou pouco. A Alemanha, derrotada, se preparou para a nova empreitada guerreira, produzindo o Holocausto. A ascensão de Stalin, após a morte de Lenin, em 1924, impulsionou o antissemitismo. Stalin celebrou um Pacto com Hitler, em 23 de agosto de 1939, dando sinal verde para início da II Guerra nove dias depois.

Metade dos 6 milhões de judeus assassinados pelos alemães, teve lugar em terras soviéticas, contando com a colaboração dos seus aliados e população local, e ficamos sabendo dos horrores do Holocausto, porque Auschwitz, embora libertado pelos soviéticos em 1945, teve sobreviventes judeus ocidentais, que puderam contar os horrores. Os sobreviventes de áreas soviéticas caíram na Cortina de Ferro e não puderam falar.

Em 1942, um ano depois da Operação Barbarossa, a invasão da União Soviética pelos alemães, foi constituído o Comite Judaico Antifascista, mas dos seus membros, apenas um sobreviveu, os demais assassinados por Stalin, no famoso complô contra escritores judeus. A maioria dos assassinatos de judeus se deu na Ucrânia e Bielorrússia. Na Rússia de hoje, se fala em 8 milhões, pois 2 milhões foram assassinados pelos colaboradores locais e não contados, porque, habilmente, se devia poupar o comunismo estalinista.

Enquanto isso, da Pérsia, hoje Irã, as ameaças se estendem para o mundo. Para os nazistas, a raça ariana é originária da Pérsia/Irã. Voltaram os persas-iranianos a querer assassinar os judeus e a tomar conta do mundo. Como em Purim, o complô será desfeito. Nos últimos dias, ataques islâmicos na Alemanha; ataques a instituições judaicas nos Estados Unidos, lugar onde nem se pensava poderiam ocorrer e em cujas universidades segue um curso de antissemitismo. Um novo livro, de Laurent Overtone, Guerrilla fala de uma civilização diferente transformando a França em poucos dias, após mobilizações e confrontos, que se transformam em guerrilha e mudam a França. Já vimos ideia semelhante em O Campo dos Santos, de Jean Raspail.

Juntamos assim, a alegria de Purim ao Centenário da Revolução Russa, e a ebulição mundial de agora, considerando que tudo gira em torno de um povo diferente e do respeito ao outro, sem domínio imperialista, aguardando uma nova Rainha Ester neste período do dia Internacional da Mulher. Purim dá alento para enfrentar a adversidade.

Chag Sameach, alegria de Purim.

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Herman Glanz

Herman Glanz é presidente do Likud no Rio de Janeiro. Foi um dos fundadores e ex-presidente do Grupo Universitário Hebraico do Brasil. Foi Diretor da FIERJ, vice-presidente da Organização Sionista do Rio de Janeiro e do Brasil. É Secretário do Comitê Eleitoral Regional da Organização Sionista do Brasil e Secretário da Chevrá Kadishá do Rio de Janeiro.