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A Holanda tem uma ligação especial com o povo judeu, desde a época da Inquisição. Em cada lugar do país, vê-se um traço judaico.

por Anna Azevedo – A Holanda tem uma ligação especial com o povo judeu, desde a época da Inquisição. Em cada lugar do país, vê-se um traço judaico. Famosos são o bairro judeu em Amsterdã, a casa de Anne Frank, o memorial do Holocausto, o Monumento a Spinoza, dentre outros, mas o meu passeio não se deu nestes visitados e festejados locais.

Estive, durante as férias, em Hertogenbosch, uma cidade de gente muito alegre, festeira e sorridente. Nesta cidade, conheci a antiga Sinagoga do século XIX, fechada durante a tomada da Holanda pelos nazistas, onde hoje, é um centro cultural (De Toonzal). Insisti muito para poder conhecer a sinagoga, e lá estava a “heikhal”, restaurada, exibindo a sua beleza.

Em frente ao Hospital Saint Joan (Ziekenhuis St. Joan de Deo), construído em 1914, ficava o Liceu Judaico, hoje parece ser área residencial. O liceu funcionou de 01/09/1941 a 7/04/1943, quando foi definitivamente fechado pelos nazistas.

Às vezes, andamos pelas cidades de modo tão automático, que não percebemos a História. Lá estava eu, diante de uma “stolperstein”*, ali, pertinho de casa. Todos os dias passava por ali, e nunca a percebi.

No último dia de carnaval, depois de todo o frio, o sol apareceu um pouco forte. E eu segui no ônibus até o Nationaal Monument Kamp Vught.

A viagem agradável. Era por volta das 10:00h e o sol brilhava, apesar do frio. A paisagem linda. Lindas casas. Campos.

Plantações. Cavalos… E eu pensava: “Será que as pessoas que seguiram para Vught, mesmo sabendo o destino que lhes aguardava, contemplou a beleza desta paisagem pela últimavez? Será que durante todo o tempo que os nazistas permaneceram aqui, teve algum dia bonito assim?”

E eu segui ao meu destino. Desci do ônibus com as pernas trêmulas, porque não sabia se eu teria coragem de colocar os pés num local de barbárie. Nunca estive em um lugar assim, onde desde o grãozinho de areia até o teto pudesse estar impregnado de maldade e sofrimento e desespero.

Eu estava tão nervosa, que nem entendi o que a recepcionista me disse ao entregar uma espécie de gravador, onde se pode ouvir toda a historia do campo. Na verdade, nem cheguei a usar aquilo, pois o vento frio daquele lugar, já era – por si só, capaz de contar toda a história de pavor de cada uma das pessoas que para ali foram enviadas.

Antes de entrar para a sala onde estão roupas, utensílios de cozinhas, fotos, e etc, tem-se uma mesa com uma data e escrito sobre o que ocorreu naquele dia no campo. As passagens foram tiradas do Diário de Dave Koker, que até ser enviado para Auschwitz, registrou a vida naquele lugar.

A primeira sala, tem utensílios de cozinha, roupas dos “prisioneiros”, uma espécie de “lambe-lambe”, onde se vê fotos destes prisioneiros (Após duas fotos, eu não tive coragem em continuar, seja pelo meu medo oriundo do temor registrado nos olhos e nas feições de cada uma das vítimas, seja pela vergonha de saber que um dia o ser humano foi capaz de tanta crueldade.

Não olhei mais), sapatos, malas das vítimas, as quais são decoradas com fotos e documentos das vítimas; brinquedos das crianças. E nesta parte, não consegui mais segurar as lágrimas.

Segui para uma imensa porta, onde se pode acessar a administração do campo, o refeitório, dormitório e o memorial das crianças.

Lá estavam a sala de laboratório, o crematório com seus fornos enormes, que pareciam querer nos sugar a todos. Lugar apavorante, gélido… Passei pelos fornos com os passos rápidos, queria sair o mais rápido dali. E segui para o “Asputten”, onde há uma cruz e uma estrela de Davi. Ali estão as cinzas das 750 vítimas. Depositei a “matseva”, e pedi a D´us para que elevasse a alma de todas as vítimas e nos protegesse de todo o mal, a todos nós.

Segui para o Monumento das Crianças. Um local silencioso. A brisa soprava singela. Sentei e quis não pensar em nada. Mas se você for um pouco sensível, fechar os seus olhos, naquele silêncio, você ouve o choro, o desespero, o lamento das crianças e dos adultos. E mesmo que eu não quisesse chorar, pois muitas pessoas olhavam para mim e eu já estava envergonhada, as lágrimas insistiam em rolar pelos meus olhos. Mais um “matseva’’.

De todos os lugares do campo, o que eu menos quis conhecer foi o dormitório. As beliches com seus “colchões” – sacos de juta forrados com capim. Lugar cujo silêncio dói na alma. Eu tive medo de entrar pela sensação que senti. Minha mente só pensava na mãe desesperada pedindo, em voz baixinha, para que seu filho não chorasse, o marido e a esposa que entre olhares pediam perdão por alguma falta e dizia o quanto amava um ao outro, o choro contido, a dor no corpo pelo frio, pela exaustão, as rezas, os pedidos a D´us para que aquele tormento acabasse, o olhar de medo de cada um… E toda essa dor ficou ali, registrada nas paredes, nos colchões, no piso. Será que alguma das pessoas que ali estiveram sorriu por se recordar de alguma lembrança, de alguma bobagem?

Sai dali atordoada. Queria que acabasse logo aquela visita. Há uma grande parede, onde os visitantes podem registrar suas impressões e/ou registrar um pensamento. Eu não tinha nada na minha mente. Só consegui pensar que isso nunca mais se repetisse e que chegasse o dia em que todos nós pudéssemos viver em paz e respeitar as diferenças, pois a beleza do mundo está nas diferenças de cultura, pois raça, só há uma: a humana!
A penúltima sala onde estive, era interessante, pois mostrava o tipo de alimento que se consumia tanto no campo quanto em toda a Holanda, durante a segunda guerra mundial. Há livros de receitas antigo, utensílios de cozinhas, propagandas de comida da época.

Por fim, o corredor que dá acesso ao final do passeio, estampado com fotos de sobreviventes daquele campo, com sorriso no rosto, mas o olhar é longe. Sentei no café, bebi a minha água e agradeci a D´us.

Agradecia D´us por ter tido a oportunidade de ter conhecido aquele lugar, e entender o valor da vida, que por mais difícil que nossa vida possa ser, há aqueles que são felizes mesmo não tendo nada. E nós devemos ser gratos por tudo, mesmo nas dificuldade.

Agradeci a D´us por ter acabado a guerra e os nazistas terem sido derrotados, e que hoje temos a consciência de que o radicalismo, o ódio, a discriminação, o separatismo, não nos levam a bons caminhos.

Sai de Vught com a certeza de que se todas as vítimas (crianças, homens, mulheres, idosos) foram suficientemente fortes para suportar a dor, a humilhação, o sofrimento, a perda, a incerteza, a fome, o frio, e todas as situações inimagináveis, nós DEVEMOS ser fortes e corajosos para enfrentarmos a vida com a cabeça erguida e o coração cheio de mel, por nós e por eles!

Shoá nunca mais!

Informações:

*”Stolpersteine” – placa de metal onde é inscrito o nome e a data de nascimento e falecimento das vítimas do extermínio e perseguição nazista. É colocada na residência ou local de trabalho da vítima. Este projeto é do artista alemão Gunter Demnig. Iniciou em 1992, e até o ano de 2017, já havia de 56 mil “stolpersten” na Europa.

O Campo de Vught era local de trânsito para Auschwitz ou Alemanha, foi construído em 1.942. Cerca de 12.000 (doze mil) judeus passaram por ali entre Janeiro/1943 a Junho/1944. Durante a estadia em Vught, os prisioneiros trabalharam para fábricas e outras empresas, sendo a mais conhecida a Philips.
Dos 500 judeus da cidade de ´s – Hertogenbosch, apenas 200 sobreviveram. A sinagoga – durante a segunda guerra, embora não tenha sido destruída, foi saqueada.

Não há sinagoga na cidade, então caso você queira celebrar o shabbat, deve ir até a cidade de Tilburg, que fica cerca de 20/30min – de ônibus, de ´s-Hertogenbosch.

Para chegar a Vught, desça na estação de ´s-Hertogenbosch e pegue o ônibus 207 que vai direto para o monumento. Antes de ir, certifique-se de que o museu está funcionando, pois – ao contrário do que consta no site, há dias que não abre, ou o horário de funcionamento é alterado.

Importante informar que os ônibus na cidade não aceitam pagamento da passagem em dinheiro, então é recomendável que se compre o “dagkaart” (se você vem de trem ou ônibus de outra cidade utilize o “dagkaart” pois você viaja o dia inteiro e não paga muito) ou pague a passagem no débito no ônibus mesmo. Da estação de trem até o museu em Vught são 18 minutos.
A entrada do museu é 7,50 euro, mas a depender do dia, pode ser mais caro – 10,00 euro.

Na loja de souvenirs há muitos livros e dvd´s, mas em holandês, inglês, alemão e francês.

Site do museu: www.nmkampvught.nl

Ana Azevedo, advogada, residente em são Paulo, apaixonada pelo Judaísmo e História.

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