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Pouco antes de falecer, Stalin acometido de paranoia antissemita mandou sacrificar na prisão de Lubyanka os intelectuais judeus Peretz Markish, Itzik Fefer, Leib Kwitko e outros dez membros do extinto Comitê Judaico Antifascista.

Comunistas ferrenhos, negavam a religião e a conexão espiritual do judaísmo com a Terra de Israel, tendo fundado o Comitê Judaico Anti-Fascista, cujo Secretário Solomon Michailovitch Michoels já havia falecido em consequência de um “acidente de trânsito” em Minsk.

Os infelizes intelectuais judeus foram acusados de alta traição, burgueses cosmopolitas, conspiradores anti soviéticos, pró-americanos, etc. ainda que alguns fossem colaboradores da NKVD e delatores de correligionários. Não tiveram advogado de defesa e nem adiantaria, pois a sentença já era conhecida antes mesmo do julgamento.

Os comunistas judeus espalhados pelo mundo custaram a acreditar. Mas lamentavelmente era verdade. Com a morte de Stalin a farsa foi desmontada, bem como o chamado complô dos médicos. Nikita Kruschev concedeu um perdão post-mortem, com base em “flagrantes violações da lei”.

Embora tivesse desempenhado importante papel em 1948 quando da criação do Estado de Israel (por razões geopolíticas), Stalin sempre teve atitudes antissemitas. Logo após a revolução de 1917 criou a Yev Sektzia de triste memória, o braço judaico do PC, incumbido de suprimir a religião, o ensino do hebraico, o sionismo, eliminando as entidades judaicas ditas imperialistas, em favor da pátria-mãe socialista.

Na verdade, as massas judaicas jamais aceitaram essa postura. Isso ficou bem claro quando 50 mil judeus se reuniram em torno da Grande Sinagoga no Yom Kippur para ver Golda Meir, a primeira embaixadora. Finalmente, algumas décadas depois, as portas da URSS se abriram para o grande êxodo judaico, libertando os Prisioneiros de Sion dos gulags siberianos, até que em nossos dias Bibi Netanyahu ao lado de Putin na Praça Vermelha, assistiu o Desfile da Vitória na Grande Guerra Patriótica do 9 de maio, simbolizando os novos tempos.

Itzik Feffer, poeta e escritor brilhante, tinha uma vida dupla, era também informante e delator de seus irmãos, ao mesmo tempo autor do poema épico Der Shotns fun Varshever Geto (As Sombras do gueto de Varsóvia) e de Ych bin a Yid (Sou Judeu), onde louva heróis e vultos famosos como Sansão, Bar Kochba, o Profeta Isaias, Yehuda Maccabi, Yehuda Halevi e Baruch Spinoza, ainda que incluísse também… Stalin.

A cada 12 de agosto, alguns imigrantes russos, parentes e cultores do idish ainda se reúnem em uma pequena praça de Jerusalém, diante do modesto memorial onde estão inscritos nomes judaicos dos intelectuais mortos em 1952. Ironicamente, no país que rejeitaram, sua memória é perpetuada… eles que combateram a visão de um Estado judeu, o renascimento do hebraico, a Santidade da Torá…

O culto a Stalin foi profundamente abalada, depois que a visão profética da revolução socialista se fundiu com a negra realidade do presente, a esperança dos lutadores sociais por uma nova sociedade utópica com a dor, a canção do futuro com as lágrimas vertidas, ainda que paradoxalmente o próprio Yitzik Feffer já houvesse profetizado nos versos imortais de seu tocante poema Ych bin a Yid que o comunismo jamais poderia arrancar a fé milenar das almas judaicas:

“… estamos unidos …
por um telégrafo invisível…
que interliga os corações judaicos …
ainda dançaremos sobre os túmulos dos nossos inimigos … ”

Pagaram com a própria vida pelos seus erros. Mas essa história não pode nem deve ser esquecida, pelo conteúdo didático extremamente útil, como um alerta para aqueles que nos dias de hoje, ainda emulam sob outras bandeiras as mesmas atitudes negacionistas dos infelizes intelectuais judeus russos.

Alquebrados pelas torturas, depois de assinar falsas confissões, caminharam para a frente do pelotão de fuzilamento sem saber porquê nem de quê eram acusados. Talvez naquele momento tivessem tentado recordar alguma oração da infância distante, quem sabe algumas palavras do Shemá Israel (*), mas já era tarde demais…

(*) Hebraico – Ouve ó Israel, palavras iniciais da oração basilar do judaísmo, que afirma a existência de um único deus.

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