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A clássica discussão sobre a “irracionalidade” e o estatuto da inteligência dos animais se arrasta desde Aristóteles, Plínio, Plutarco e Sexto Empírico.

Pois o que mais seria necessário para convencer os céticos? Não basta que saibam chamar socorro sem ser instruídos, reconhecer assassinos de seus donos, escolher caminhos para capturar presas sem usar o faro quando as pegadas somem, elaborar planos e estratégias complexas, reconhecer plantas medicinais, procurar lugares e às vezes se enterrar parcialmente para aumentar a temperatura corporal como forma de combater processos infecciosos, aprender significado de até 100 palavras e poder até usar instrumentos humanos. Reconhecendo a depressão de um visitante cães pedem aos seus adestradores para exibir suas habilidades. Visariam alegrar o melancólico? Um cão pode ter uma vida significativa? É licito supor alguma teleologia para seu conhecido companheirismo?

Não é tarefa simples estabelecer para os animais a fronteira entre instinto, raciocínio e pensamento lógico. Se o instinto é uma possibilidade, no caso dos cães parece haver bem mais do que isso. Por motivos empíricos, hoje fui forçado a enfocar outros aspectos da questão e me obriguei a pensar um pouco além do inegável logos canino.

Esta é a introdução para uma história contemporânea que acabo de vivenciar.

Pois houve um famoso cão que habitava uma torre, destas modernas, que atendia pelo nome de Tov. Ele poderia ser definido apenas, como “bom” tal qual a etimologia do nome hebraico “Tov”. Como a maior parte dos proprietários orgulhosos não fugiria ao hábito de inflacionar as características positivas deste pet.

Este mini yorkshire, de coloração cinza dourada pesava não mais do que tres kilogramos de peso, parcialmente adestrado, porém dotado de um timing preciso. Como todo obcessivo, um ritualista, à exceção de quando se tratava da oferta de alimentos, ao pedir alimentos fora da hora e de sua elegante recusa diante das medidas dosadas de ração.

Para além das meras projeções antropomórficas que as pessoas fazem com seus animais — assumia posição de esfinge e fixava o olho ávido em qualquer humano que se alimentava em sua frente. A pressão era sobrehumana e, apesar dos consensos de evitar comida oridinária, eficaz. Além disso, Tov padecia de uma incurável antropofilia: o suficiente para faze-lo disparar correndo em exultação pela “carne fesca”: pessoas que ele tivera quase nenhum contato o levavam a euforia. Como contraste quanto mais espontâneo era sua afeição indiscriminada mais desenvolvia uma aversão raivosa por quase todos os seus pares caninos. Tov foi um genuíno miscanino.

Muitos que o observavam de perto juravam identificar “olhos humanos”. Claro que sempre tivemos que lidar com a hipótese da metempsicosis. A reencarnação sempre fora uma possibilidade para tentar transferir a transcendência para os cachorros.

Porém, sua principal idiossincrasia não estava em nenhuma destas características anteriores.

Tov sorria.

Ora, muitos cães e animais possuem esta característica. Como bons pais adotivos orgulhosos, os nossos são sempre mais especiais que os demais. Apenas para corroborar, buscamos opiniões da ciência à filosofia. Amigos veterinários se dividiam na análise :

— Deve ser… um sorriso instintivo, mecânico.

— Não há garantia científica de que se trata de uma manifestação de alegria.

— Isso é incomum, muito curioso. Posso fotografar?

— Aqui na clínica o conhecemos como o cachorro que ri.

Foi a vez dos filósofos emitirem sua opinião:

— Ao vê-lo pela primeira vez lembrei da discussão do “O nome da Rosa”de Umberto Eco.

— Terá ele lembranças? Evocar a memória que deseja? Compreende o que está acontecendo?

–Eu identifiquei. Em meu sistema de notação nenhum sorriso é involuntário.

— Minha opinião? Já vi de tudo. Prefiro ficar com o mistério.

Foi num dia como hoje que este pequeno animal parou de respirar aos 8 anos de idade (numa precária equivalência; 50 dos anos humanos). Curiosamente morreu dormindo, e nada me convence de que não havia em sua boca e dentes uma inclinação suspeita: um sorriso.

Certa vez ouvi de uma criança:

— Cachorros também vão ao paraíso?

Ao recordar minha perplexidade para lidar com a pergunta, desta vez eu fui o autor da especulação. O último sorriso do Tov não terá sido mais do que um discreto deboche da morte?

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