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por Paulo Rosenbaum – Como podemos avançar na compreensão do crescente fenômeno mundial do terrorismo? Não será possível sem a recuperação do significado que move os combatentes nessa saga por sangue infiel. Esses grupos e mesmo aquele que aparentemente agem individualmente como as recentes bombas de panela, esfaqueamentos e degolas — suposição equivocada, sempre há alguém que ofereceu respaldo, microestrutura e abrigo — são motivados por ódio indiscriminado. Possivelmente, não tem nada a ver com o que a religião original preconizaria aos adeptos.

Sem mergulhar na cultura do oriente médio não será possível escapar de uma análise precária. A mais pueril delas, quando se aponta para o terror como “fruto exclusivo da miséria extrema na qual vivem as massas árabes”. Isso pode ter sido verdade. Hoje abundam exemplos de terroristas super adaptados às sociedades de países ocidentais, bem sucedidos financeiramente, com amplos círculos sociais inclusive com laços geracionais já estabelecidos sob o green card. O que os seduz? Serão só tentados pelo proselitismo de gente perturbada? Pouco provável.

Terror é um termo amplo e controvertido, mas torna-se fato corriqueiro com tendência à cronificação. Basta acusar alguém de terrorista e está justificada a violação de direitos civis, liberdade de expressão, sigilo bancário e fiscal. Para os Estados totalitários é um senhor álibi para fazer crescer os sonhos de autoritarismo, incluindo permanência no poder e controle opressivo sobre a sociedade.

Já para os Estados e instituições com tradição de respeito democrático aos direitos humanos a ameaça parece atender bem à decadência. Pois essa batalha o terror já levou. Como resposta, testemunha-se ondas de violência e xenofobia atravessando a Europa em declínio. A velha direita encontra folego para tentar ostentar uma promessa que jamais pode ou poderá cumprir. Por sua vez, a esquerda não fez muito melhor, e, quando leva, afunda-se na inépcia administrativa. Na política externa ressalva para Hollande, o único com coragem de enfrentar a ameaça de que Mali virasse um campo recreativo para a Al Qaeda. De outro lado, pode-se sentir o recrudescimento reativo de comunidades que, por se sentirem discriminadas, intensificam e ecoam o que os milicianos sem causa berram.

A instrumentalização das religiões por grupos, estados e pessoas reduziu a sabedoria espiritual a uma agenda fanática, sem currículo político, onde o que vale é elencar inimigos como agentes externos. Grosso modo caçar o mal externo impede reconhecermos o nosso. Se sempre foi assim, a situação se agravou com o arregimentação maciça de combatentes que estão dispostos a dar suas vidas – e imolar tantas outras – por uma causa que não chegam a compreender. O mal estar difuso da nossa cultura é inominável e o inominável costuma ser fantasmagórico.

E é aqui que o terror como protesto têm se expandido horizontalmente. Enxergar outro povo ou etnia como alvo é ter perdido toda sutileza psicológica. Mas é nessa interpretação desastrosa que temos desaguado. Tribos, de torcidas organizadas aos partidos políticos lutam à morte. Também acontece, com menor intensidade, dentro dos fundamentalismos laicos contemporâneos. Alguns identificados: machismo, posse, ambição, poder, corrupção e consumo. Desses deuses substitutos emana o micro-terror – menos visado mas com efeitos muito similares: se a vida for dessignificada, o outro já pode ser eliminado como objeto.

Isso não é tudo, pois no meio do caminho ainda temos o capitalismo acionário em fase tentacular tirando suas casquinhas e usando o medo das populações para se beneficiar com abusos econômicos.

Se repararmos bem, não há a menor consistência na política do terror. Falta-lhe exatamente o aspecto constitutivo dos valores civilizatórios contemporâneos: capacidade de ceder aos argumentos, suportar o contraditório, tolerância, premência da paz. Talvez devêssemos recuperar a ingenuidade junto com as ideias hippies e as do Mahatma Gandhi. Resistência pacífica e protestos desconcertantes talvez funcionem melhor que incendiar pessoas e cidades.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

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