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Duas Ruas Anônimas – por Marcos Wasserman

Tenho um bom amigo aqui em Israel, e nos conhecemos há vários anos. Trata-se de Yaacov Keinan, que foi Embaixador de Israel no Brasil e até recentemente Presidente Honorário do Centro Cultural Israel-Brasil. Costumamos nos encontrar com certa frequência e, como todos bons israelenses, temos uma fartura de temas para conversar e a eles me referirei depois. Desta vez, tivemos um encontro exploratório da cidade de Tel Aviv. Fui levado por ele a conhecer um local muito pitoresco, localizado numa das ruas centrais de Tel Aviv. Para quem conhece, duas travessas da Rehov King George. Na verdade, trata-se de duas pequenas vielas.

Seus nomes, numa tradução para o português do hebraico: Rua Fulano e Rua Beltrano (“Simtah Plonit” e “Simtah Almonit”). Trata-se de duas ruazinhas construídas em 1922 num estilo eclético e que, nos últimos anos, passaram a ser muito movimentadas, onde existem algumas boutiques, uma galeria de arte, um par de bares-restaurantes-livrarias muito boêmios, que dão um especial colorido àquelas ruas. No extremo da Viela Fulano, ressalta-se uma belíssima estátua representando um leão de um escultor também anônimo. A estátua foi encomendada pelo fundador daquelas ruas, um tal de Meir Getzel Shapira, um judeu rico da cidade de Detroit, nos Estados Unidos, e isto ele o fez num gesto romântico para reconquistar a sua esposa Sonia, que o teria abandonado.

Ocorre que, o famoso Meir Dizengoff, que era, então prefeito de Tel Aviv – e, em seu nome, há uma importante artéria, que corta a cidade -, opôs-se à iniciativa daquele Sr. Shapira, que não tinha o direito de dar nome às ruas de moto próprio, o que seria prerrogativa da municipalidade. A briga entre ambos resultou que o departamento municipal responsável pelos nomes das ruas resolveu, a título provisório, chamá-las de Rua Fulano e Rua Beltrano. Como sói acontecer, o provisório acabou virando definitivo, e esses são os nomes das duas referidas vielas. Para comprovar o histórico, o amigo Yaacov Keinan, me enviou um e-mail com artigo retirado da Wikipedia, onde se vê a lindíssima casa construída pelo Sr. Shapira e o referido leão. Aliás, o Sr. Shapira, que não logrou se perpetuar nas ruas por ele criadas e construídas, em compensação, teve todo um bairro, no sul da cidade de Tel Aviv, nomeado em sua homenagem.

Prometi acima, e me refiro aos temas que costumamos abordar, o Embaixador e eu, na busca de lugares pitorescos, onde nos encontramos para bater papo. Nossas conversas não são em nada diferentes daquilo que é o “pão de cada dia” israelense, da imprensa, do rádio e da televisão. Nas sextas-feiras, à noite, os israelenses se encontram para falar, de tudo e de todos. Quais os temas? Começamos com o problema do soldado israelense raptado pelos terroristas do Hamás, Gilad Shalit. Qual será o preço pago por ele, pela sua libertação? Quantas centenas de terroristas e assassinos, que se encontram nas prisões israelenses, seja por tentativas ou por terem atacado “alvos estratégicos”, matando civis inocentes, e outros “crimes menores”. Haverá um acordo próximo?

E o Irã, com o seu vociferante presidente, ameaçando varrer Israel do mapa, e afirmando altissonante e desafiando o mundo que vai construir usinas atômicas “amigáveis”. E como é que fica? Será por ordem de Obama, que apesar de ter ganho o Prêmio Nobel da Paz, já declarou que sua paciência está se esgotando? Será Israel (e que Deus não o permita)? Ou haverá outra revolução interna no Irã? E como é que fica com os palestinos, divididos entre Abu Mazem, de um lado na Cisjordânia e o Hamás em Gaza, apoiado pelo Irã? E essa Palestina, vai acabar sendo criada? Onde e como?

E o Primeiro-Ministro Netanyahu, que decidiu congelar as construções na Cisjordânia, vai ter a coragem de imitar o General Sharon, que mandou evacuar Gaza, unilateralmente? Será que os colonos irão recrusceder os seus protestos, de momento apenas verbais? E a Turquia? Vai reassumir seu papel de conciliador entre as Síria e Israel? E, milagre dos milagres, haverá paz entre esses dois países? Qual será a reação dos judeus religiosos haredim e dos árabes cristãos e muçulmanos israelenses, face a um projeto, que pode acontecer seja encaminhado, no sentido de obrigar os jovens dos dois referidos setores populacionais, que não servem o exército, e obrigá-los a, pelo menos, prestar serviços civis, de natureza social, em hospitais, escolas, etc.?

Não pretendo ser profeta, nem tenho a pretensão de ser analista de problemas internacionais, onde Israel está imiscuído e, como muitos israelenses, fazemos as perguntas e não temos respostas. Também ninguém sabe como combater as ondas de anti-semitismo que recrudescem na grande parte do globo terrestre, desde a proclamação do Estado de Israel, com alguns pequenos intervalos de simpatia, quando da Guerra dos Seis Dias.

O mundo, ora o mundo, se regozijou quando caíram as muralhas e a cidade de Berlim foi unificada. Este mesmo mundo, ora o mundo, pretende se regozijar dividindo Jerusalém, a capital eterna de Israel. Contradições? Hipocrisia? Quando chegará o dia em que Israel deixará de ser o foco de tensões e preconceitos e poderá viver tranquilamente no anonimato como Ruas Fulano e Beltrano?

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Marcos Wasserman é advogado em Israel, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. E-mail: mlwadvog@netvision.net.il

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Um pouco de bom senso no Egito e na Arábia Saudita – por Daniel Pipes

Convidados recentemente pelo novo Pechter Middle East Polls a formular três perguntas a 1000 representantes egípcios e a 1000 sauditas urbanos, o Middle East Forum focou no Irã e em Israel, países estes que mais polarizam a região. Os resultados são esclarecedores. Leia…

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Shabat em Teerã – por Michael Gordon

Benhur se prepara para fechar sua loja de roupas, na cidade de Esfahan. É fim de tarde de sexta-feira e o shabat se aproxima. Seus amigos muçulmanos se despedem e Benhur segue para a sinagoga, na Meidan-e-Felestin, ou Praça Palestina, em farsi. Houve um período, durante o século 19, em que os judeus dessa cidade eram identificados nas ruas por roupas amarelas, ou por calçarem sapatos com cores diferentes para o pé direito e para o pé esquerdo, conforme determinações legais, que impunham uma série de restrições aos não-seguidores do Islã. Mas hoje Benhur não esconde de ninguém que é judeu, nem que está a caminho da sinagoga. À porta de sua loja, uma mezuzá, ainda que um pouco escondida, revela que o estabelecimento pertence a um judeu. Revela, mas não denuncia.

Na semana seguinte estou em Teerã, capital persa. Escurece cedo no inverno e ameaça nevar. Mas o frio não impede que os judeus caminhem em direção à Meidan-e-Felestin, a Praça Palestina de sua cidade, onde fica a Sinagoga Abrishami, para dar início às celebrações do shabat. Será uma simples coincidência que depois da Revolução Islâmica de 1979 as praças diante de sinagogas em duas cidades diferentes tenham recebido esse mesmo nome? Hoje vivem em Teerã cerca de doze mil judeus, ou seja, aproximadamente a metade da comunidade judaica do país. Em sua maioria, seguem os preceitos da religião. A sinagoga está lotada com mais de duzentas pessoas. O ritual sefardi e o ashkenazi ocorrem simultaneamente, de tão grande que é o salão. As pessoas me observam com preocupação, e parecem estar se perguntando quem seria aquele estranho, nunca visto na sinagoga antes. Logo sou levado a uma sala pelos responsáveis pela segurança no local e, depois de uma conversa agradável, sou convidado a participar da cerimônia religiosa.

“Judeus no Brasil?”, se perguntam espantados diversos jovens e velhos, que vêm conversar comigo ao término das rezas. “Mas aquilo ali é uma floresta!” Nós, aqui no Brasil, ficamos espantados ao nos depararmos com os judeus no Irã. “Existem? Quantos? Vinte e cinco mil?”. Sim, vinte e cinco mil judeus vivendo na república dos aiatolás. Mas isso não deveria nos causar espanto. Afinal, há judeus vivendo no Irã há muitos séculos.

O ano de 1979 marcaria a realidade política do Oriente Médio para sempre, e as conseqüências da Revolução Islâmica são assunto de discussões infindáveis e causa de tensões políticas que, nos dias atuais, vêm se acirrando em decorrência da retórica agressiva do presidente Ahmadinejad. A revolução teve como estopim a insatisfação generalizada da população iraniana com seu Xá, Reza Pahlevi, visto por muitos como corrupto e submisso aos interesses norte-americanos. O território do Irã, próximo ao da União Soviética, era disputado pelos dois lados rivais da Guerra Fria e, na onda de insatisfação popular com o regime do Xá, prenunciava-se sua entrada na esfera de influência de Moscou. Para muitos observadores, havia no ar um desejo de implantar o comunismo no país. Mas o que se viu após a revolução foi a tomada do poder por clérigos xiitas, e a imposição da Sharia sobre os cidadãos do país, isto é, o código de conduta religioso do Islã, que passou a organizar uma sociedade muçulmana de tendência fundamentalista.

Poucos meses depois da revolução, o modus operandi da sociedade iraniana havia se transformado completamente. As mulheres, que antes se vestiam à moda ocidental, agora passavam a cobrir os cabelos, ocultando-se sob o pudico shador. Mesmo as que não eram religiosas foram obrigadas a se submeter às novas práticas, e qualquer tipo de desobediência passou a ser punida severamente, nas formas prescritas pelo código de Maomé.

A situação dos judeus iranianos evidentemente se transformou, também, de maneira radical depois de 1979. Antes da revolução, viviam no Irã mais de cem mil judeus, dos quais cerca de 75 por cento emigraram, principalmente para os Estados Unidos e para Israel. Os que ficaram no país vivem, em sua grande maioria, em Teerã e Shiraz, cidade ao sul do país. Uma das conseqüências da revolução sobre a vida dos judeus iranianos é o fato de que a comunidade se tornou mais religiosa, freqüentando com maior assiduidade as sinagogas e dando maior atenção aos preceitos religiosos e às datas mais importantes do calendário litúrgico. Hoje, vemos cerca de duzentos judeus se espremendo na entrada de uma das sinagogas da Teerã, numa noite de shabat – uma cena que seria impensável durante os anos 70, quando o país foi tomado por uma onda de secularismo à moda ocidental sem precedentes.

Os judeus, e a sociedade iraniana como um todo, se tornaram mais religiosos e, no limite, há aqueles entre os judeus que agradecem por viver num país de religião oficial islâmica, já que assim podem praticar um judaísmo de acordo com a ortodoxia. Isso porque há diversas semelhanças entre as ortodoxias judaica e islâmica – como a obrigatoriedade do uso do véu para cobrir os cabelos das mulheres. Em outras palavras, o setor mais religioso da comunidade judaica é o que melhor se adaptou aos novos tempos no Irã, enquanto os judeus modernizados e ocidentalizados, vendo-se tolhidos nas liberdades às quais haviam se acostumado sob o reino do Xá, optaram,em sua maioria, pela emigração.

O Irã conheceu poucos períodos de secularismo em sua história. Talvez o primeiro deles tenha se iniciado com os invasores mongóis de Hulegu, que chegaram à antiga Pérsia no século 13, ainda antes de os persas adotarem a fé islâmica. Certamente, o mais recente desses períodos seculares foi imposto pela dinastia dos Pahlevi. O soldado Reza Shah deu um golpe de Estado e derrubou a já cambaleante dinastia Qajar, que vinha governando o país, logo após a 1ª Guerra Mundial, em 1925. Naquela mesma década, Kemal Ataturk fazia uma revolução na Turquia, abolindo o alfabeto árabe e adotando o secularismo, em busca da modernização do país. Reza Shah queria fazer o mesmo com o Irã – e estava conseguindo, criando universidades e, no limite, proibindo o uso do shador. Para os judeus, a modernização representou, entre outras coisas, a criação de escolas de ensino da língua hebraica e a inauguração das escolas judaicas laicas da Alliance Israelite Universelle (AIU).

Os judeus também passaram a gozar dos mesmos direitos e obrigações de todos os cidadãos iranianos, deixando para trás o status de dhimmi, ou “protegidos”, termo utilizado para designar as minorias judaica e cristã no mundo islâmico, desde o Pacto de Omar, no século 7. Se na teoria os dhimmi são protegidos, já que a lei islâmica não os obriga a se converterem ao Islã – ao contrário do que acontece com os seguidores de outras religiões que desejem viver entre os muçulmanos – na prática seu status é inferior ao dos seguidores do Islã, e os dhimmi ficam sujeitos a uma série de restrições, destinadas a enfatizar este seu status inferior. Cristãos e judeus têm liberdade para praticar suas liturgias, porém ficam obrigados a pagar um imposto especial, a jizya; não podem ocupar determinados cargos, devem subserviência aos muçulmanos, não têm direito de andar sobre camelos, apenas sobre jumentos, e assim por diante.

Durante a 2ª Guerra Mundial, Reza Shah mostrou-se simpático ao regime nazista, e a comunidade judaica, que via com bons olhos os ventos da modernização, passou por um período tenso, vivendo sob constante vigilância do governo e sob ameaças. Uma frente soviético-britânica derrubou Reza e colocou no poder seu filho, Mohamed Reza Pahlevi, como novo Xá, em 1941. Os temores dos judeus foram afastados, e eles voltaram a gozar de um período frutífero, desfrutando de igualdade ante a lei e de liberdade econômica semelhante à da maioria da população. Os judeus iranianos contavam com o apoio do Xá para a causa sionista e muitos deles aproveitaram a criação do Estado de Israel, em 1948, para se mudar para lá. Entretanto, a maioria permaneceu no país, vivendo em paz com seus vizinhos.

A revolução mudou uma parte dessa história. O Aiatolá Khomeini foi, desde o princípio, abertamente hostil ao Estado de Israel, pregando sua destruição, como de resto o faz Ahmadinejad em nossos dias. No entanto, Khomeini afirmava, também, que os judeus iranianos eram uma minoria que deveria ser protegida, e os judeus têm um representante no senado. Khomeinei traçou, também, uma clara distinção, que vale até hoje, entre o sionismo e o judaísmo. Fora da esfera das decisões oficiais, a relação entre judeus e seus vizinhos permaneceu inalterada. Os elos entre os judeus iranianos e seus familiares que migraram para Israel foram cortados nos primeiros anos da Revolução Islâmica, e até os dias atuais a comunicação é feita a um custo elevado. E há uma série de problemas legais para os judeus do Irã, como o fato de que, segundo as leis do país, se um membro qualquer de uma família judia se converte ao Islã, automaticamente adquire direitos sobre as heranças de todos os demais membros; como o fato de que judeus não podem se tornar oficiais do exército; ou o fato de os diretores das escolas judaicas de Teerã serem muçulmanos, embora não exista nenhuma lei islâmica que determine isso.

No dia 24 de abril de 2003, os últimos cinco judeus de um grupo inicial de dez notáveis da comunidade judaica, aprisionados sob a alegação de que estariam praticando espionagem para Israel, foram libertados após cumprirem alguns anos de sentença na prisão de Shiraz, ao sul do país. Seu julgamento se deu numa sessão fechada da Corte Islâmica, em julho de 2000. Os advogados de defesa alegavam que os judeus haviam simplesmente telefonado para Israel. Apenas o pedido formal de perdão por parte dos condenados ao Aiatolá Ali Khamenei foi suficiente para reduzir a pena que, num primeiro julgamento, chegava a treze anos de prisão.

Nos anos oitenta, uma guerra assolou o país. Bombas eram lançadas em Teerã diariamente e os judeus, assim como seus vizinhos, sofreram perdas enormes, pagando inclusive com a vida. Em seu recém-lançado livro Persépolis, a iraniana Marjane Satrapi, conta como uma bomba caiu na casa de seu vizinho judeu, matando toda a família. Quando estive no cemitério da Rua Khavaran, em Teerã, fiquei surpreso ao ver, bem ao fundo, perto do muro, o túmulo de dois soldados judeus mortos na guerra. Quando poderia imaginar um judeu lutando e perdendo sua vida para defender o regime do aiatolá? Durante essa guerra, muitos jovens judeus saíram do Irã para não servir ao exército e isso se tornou um problema para as moças judias em idade de casar.

Os anos noventa foram de relativa calmaria no Oriente Médio. Bem relativa. Israel e palestinos assinavam os Acordos de Oslo, o Líbano saía de uma guerra civil, Irã e Iraque selaram a paz e apenas Saddam Hussein, na contramão, invadia o Kuwait. Em 1997, o Irã elegeu como presidente o aiatolá Mohamed Khatami, que era considerado um reformista. Nas ruas de Teerã, as meninas mais modernas já deixavam à mostra uma parte dos cabelos ou do tornozelo, e ousavam na maquiagem.

O status dos judeus não se modificou muito nos anos pós-revolução, qualquer que fosse o presidente do país; afinal de contas, quem efetivamente governa o país é o aiatolá, o Líder dos Guardiães da revolução. Embora os clérigos iranianos demonizem Israel, os judeus iranianos não sofrem restrições, ou melhor, estão oficialmente proibidos de viajar a Israel, mas não sofrem restrições quanto à liberdade de culto e até quanto ao ensino de hebraico para uso nas rezas, conquanto o hebraico seja a língua oficial de Israel. E, segundo consta, apesar da proibição oficial, as viagens de judeus iranianos a Israel, via Turquia ou via Chipre, têm sido toleradas nos últimos anos, não obstante a retórica agressiva do presidente iraniano. No limite, os judeus têm até mais liberdade que os xiitas, já que podem ter clubes onde jovens de ambos os sexos se encontram, por exemplo.

Há uma evidente confusão de idéias e ações por parte do governo iraniano. Essa confusão é passada diretamente aos judeus iranianos, que não se declaram oficialmente sionistas, embora muitos deles tenham familiares vivendo em Tel Aviv. Ato contínuo, a confusão atravessa a fronteira do Irã e chega à Europa e Estados Unidos, onde grupos de Direitos Humanos vigiam as ações dos governantes em Teerã com relação aos judeus. Por fim, a confusão chega às comunidades judaicas fora do Irã e aos judeus iranianos que moram fora do país e que conheceram os ventos da liberdade de expressão. Para esse último grupo, os judeus são oprimidos no Irã, pois não têm liberdades. Mas eles não levam em conta o fato de que também os muçulmanos do Irã vivem uma série de restrições, por conta da Sharia. Isso é fundamental para não caracterizar uma clara política anti-semita por parte dos governantes iranianos.

Quando Ahmadinejad prega a destruição de Israel do mapa, ele nada mais faz do que manter a política vigente no país desde a revolução de 1979, ou seja, uma política anti-sionista e pró-Palestina. Mas quando ele nega a existência do Holocausto, talvez esteja ultrapassando a tênue linha divisória entre anti-sionismo e anti-semitismo, e transmitindo um sinal de alerta à comunidade judaica iraniana.

Fonte: Revista 18 / FIRS

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Destruam o Irã!

Sobreviventes do Holocausto pedem a destruição dos locais atômicos do Irã. Holocausto nunca mais!

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Holocausto: a máquina mortífera da intolerância – por Adão Villaverde

(fonte: FIRS) A negação ou mesmo a minimização do holocausto é absolutamente inaceitável, sobretudo do ponto de vista da defesa dos direitos humanos e da necessidade de interrupção do crescente processo de barbárie, com que convive nosso tempo. Ele foi, sem sombra de dúvidas, o ápice do processo de intolerância da era moderna. Entretanto, mesmo assim, sua negação aparece de forma sistemática e recorrente, revelando sempre facetas de sócios da cumplicidade com algo que até hoje envergonha a humanidade.

A presença no país do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, recebido pelo governo brasileiro, recoloca na ordem do dia a tese já superada historicamente, de que temos que ficar indiferentes, ou até mesmo negar, o brutal extermínio de judeus na década de 40. Isto não é aceitável e deve nos remeter necessariamente a uma reflexão séria e desapaixonada.

Na contramão desta visão e compreensão, estiveram recentemente visitando nosso país, o presidente de Israel, Shimon Perez e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, dando mostras de um lado, de o quanto o diálogo, as relações diplomáticas e a questão da paz são fundamentais e de outro, revelando o papel que o Brasil passou a ocupar não só do ponto de vista econômico, mas também das relações em sociedade, no novo concerto das nações. O pedido de Obama a Lula, traduz muito bem isto: “use sua influência, presidente, para convencer o Irã a recuar no seu programa nuclear”.

Dialeticamente, situações complexas exigem respostas complexas e a capacidade que adquirimos de influenciar e incidir nas relações mundializadas, não nos condiciona mais a um simples ou mero peão do tabuleiro do imperialismo. Mas, sim, a uma torre ou bispo deste novo processo. E isto exige que nos movemos com uma dualidade e uma percepção fina, que não pode ser simplificada, muito menos de tentar ser resolvida como se fosse uma mera conta matemática.

A primeira, é que devemos refutar todo e qualquer compadrio, ou mesmo flerte, com a tese da indiferença ou cumplicidade diante do extermínio de judeus realizado pelo nazismo. Que foram mortos de forma racional e metodicamente pensada, porque tinham esta origem e não porque eram soldados que enfrentavam a Alemanha, o Japão ou a Itália.

A outra, é que do ponto de vista da eficácia da política internacional, o Brasil foi alçado, gostem alguns ou não, a um papel para além de mero espectador. Sentando hoje à mesa das grandes decisões, sendo ponte de mediações de conflitos e, sobretudo, de construção de consensos supranacionais.

Por isto não devemos renunciar à função protagônica que estamos assumindo no novo concerto das nações em nível mundial, mas isto não pode nem deve nos impedir, e muito menos nos desautorizar, de termos posições firmes e claras: somos contra toda e qualquer máquina mortífera produto da intolerância. Portanto, holocausto nunca mais!

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Adão Villaverde é professor, engenheiro e dep. estadual PT/R
Publicado no jornal O Sul em 01.12.2009

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E eu com isto? – por Marcos Wasserman

Assim me pergunta um prezadíssimo leitor, referindo-se à minha última crônica intitulada “Diáspora Jurídica”. Como toda pessoa que se dedica a escrever, aprecio muito receber impressões de meus leitores. Algumas altamente sugestivas e elogiosas, e, outras, extremamente críticas. Não costumo responder de público a correspondências que me são enviadas em caráter pessoal. Mas vejo-me aqui obrigado a fazer algumas considerações, sem mencionar nomes de remetentes.

Na crítica que me é feita, o leitor não poupa epítetos. E aí, ele me inquire: “O que é que eu tenho com isso, e por quê o senhor fica escrevendo coisas positivas sobre o Brasil quando, segundo o noticiário, o Presidente Lula vai receber de braços abertos o Presidente do Irã? O senhor deveria escrever uma crônica contra a visita programada”.

Eu poderia, simplesmente, responder ao leitor com um mero levantar de ombros, e dizer a mesma coisa que ele disse para mim. Afinal, ainda que brasileiro, sou também israelense, vivo em Israel e: em que me toca a visita daquele tipo ao Brasil? Isto, eu não o faria, porque, sim, tenho algo a ver com assunto, assim como o leitor, que também é de origem brasileira, tem algo a ver com a história por mim narrada na minha última crônica.

Antes de mais nada, respondo: uma coisa não tem nada a ver com a outra. São dois assuntos completamente diferentes e que em nada se combinam. A minha vivência no Brasil, nos dois congressos a que me referi, valem como menção de algo que considero altamente positivo e importante para ser divulgado.

Trocando idéias a respeito com alguns amigos, face à iniciativa do Governo Brasileiro quanto aos emigrantes, pensei na posição de Israel em relação aos seus súditos que vivem no exterior. Parece-me que aqui existe um sério problema. Se, de um lado, Israel reconhece e procura fortalecer os seus laços com os judeus da Galut (se preferirem, Diáspora ou Dispersão), há uma posição negativa com relação aos seus emigrantes.

O falecido Primeiro-ministro de Israel Itzchak Rabin fez um pronunciamento, em certa oportunidade, manifestando de público seu desprezo pelos israelenses que foram embora. São os chamados “iordim”, palavra que significa “os que descem”, ao contrário daqueles que fazem “aliá” – e que sobem. Traduzindo, significa: aquele que vem viver em Israel sobe de categoria, enquanto que aquele que vai embora, cai. Inclusive no desprezo de uns e outros.

Não é aqui o lugar para começar uma campanha para que o Governo de Israel mude de atitude. Talvez, sim, deveria haver alguma iniciativa positiva por parte dos iordim espalhados pelo mundo, com presença majoritária nos Estados Unidos, em paralelo com a emigração brasileira, senão em número, pelo menos, em proporção.

A política do Governo de Israel, há dezenas e dezenas de anos, tem sido a de manifestar uma indiferença quanto aqueles referidos cidadãos enquanto continuam residindo fora, a não ser em casos muito excepcionais.

Por outro lado, há uma política quase que constante para atrair os emigrados, que, chegando a Israel, passam a ter o status de “toshav chozer” (residente que retorna), e, aí então, sim, lhes são concedidas facilidades para readaptarem suas vidas ao país, tais como a isenção de pagamento de certos impostos e outros tipos de facilidades, para que o cidadão comece a sentir que, realmente, voltou para sua casa.

Se não me falha a memória, alguém aqui em Israel saiu com uma idéia de outorgar ao emigrante israelense o direito de voto, enquanto vive no exterior. A idéia foi imediatamente rechaçada e considerada mais uma manobra política de um ou outro partido, na expectativa de contar com o apoio eleitoral dos emigrados.

É pouco provável, portanto, que qualquer iniciativa de estender algum privilégio aos israelenses que vivem no exterior poderá partir de Israel, que ignora existirem muitos países no mundo que, estes sim, outorgam o direito de voto ao seus cidadãos, como por exemplo os Estados Unidos e o Brasil.

Na Itália, por exemplo, no último pleito eleitoral parlamentar, foi eleito um cidadão ítalo-brasileiro, residente em São Paulo, como representante dos emigrantes italianos, e que foi tomar posse de seu cargo em Roma.

A palavra globalização é vista por muitos como algo altamente negativo: teria sido uma invenção dos países ricos. Seja como for, ela é uma realidade do mundo em que vivemos e tem seus lados positivos. Assim, por exemplo, estamos muito longe da ilusão de um mundo sem fronteiras; mas, na realidade, a tecnologia diminuiu as distâncias, aproximou as pessoas e o mundo diminuiu.

Não existe, praticamente, nos dias de hoje, nenhum rincão nesse nosso planeta conturbado que alguém o ignore. Graças à internet, todo mundo sabe o que acontece em todo o mundo.

Atualmente, nada mais certo do que dito de que, ao bater suas asas, uma borboleta pode provocar uma tempestade a milhares de quilômetros de distância. E, se além do mais, esta borboleta tiver uma bomba atômica em mente, não adianta dizer: “E eu com isto?”.

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Marcos Wasserman é advogado em Israel, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv.
E-mail: mlwadvog@netvision.net.il

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A visita do inominável – por Josef Barat

Ofende, sobretudo, o grande diferencial que destaca o Brasil no concerto das nações, qual seja o da tolerância da diversidade e valorização da expressão das minorias.

A propósito da visita do indivíduo que governa o Irã, cabe chamar a atenção para o que ela contém de múltiplas ofensas ao senso comum. Ofende, antes de tudo, as Forças Armadas brasileiras, que pagaram pesado tributo em preciosas vidas no confronto entre civilização e barbárie nos campos de batalha europeus. Os militares brasileiros foram testemunhas das atrocidades cometidas pela máquina de guerra nazi-fascista. Ofende a tradição de moderação e equilíbrio que pautou a nossa diplomacia, consolidada a partir da sabedoria do Barão do Rio Branco. Ofende os valores democráticos e de justiça recuperados, de forma sofrida, pela sociedade brasileira. Ofende, sobretudo, o grande diferencial que destaca o Brasil no concerto das nações, qual seja o da tolerância da diversidade e valorização da expressão das minorias.

Recepcionar com distinção o inominável ofende, em suma, os valores, tanto da Civilização, no seu sentido mais amplo, quanto dos indivíduos que sobreviveram às atrocidades da guerra e daqueles que nela perderam seus entes queridos. Mas por que a insistência em recebê-lo? Simplesmente porque faz parte de uma lógica que, ainda pouco percebida, começa a se revelar para os mais lúcidos: a lógica do fascínio pelo totalitarismo. Lógica que segue inexoravelmente os mesmos passos de um passado não muito distante. De início, há a necessidade de “reescrever” a História, como se nada de prestável pudesse ter ocorrido antes do advento de uma “Nova Era”. É a insistente repetição de que tudo de bom foi criado pelo Partido ou facção, o que, de início, é julgado ingenuamente por muitos como pitoresco.

A seguir vem o culto exacerbado à personalidade do líder, que é elevado à condição de “Grande Guia”. Apesar de usualmente ter instrução formal deficiente, o Guia é apontado para o povo como alguém dotado de um repertório de sabedoria e intuição para governar. Inevitável, depois, é a sistemática desqualificação e a tentativa de desmoralização dos “inimigos”, ou seja, daqueles que simplesmente discordam dos atos do governo, ou preservam teimosamente a sua independência. Da desqualificação à intimidação e desta à repressão é um fluir de atitudes e ações que o tempo se encarrega de tornar perceptível.

Não pode deixar de ocorrer, por certo, a desestabilização das organizações de Estado (Forças Armadas, Diplomacia, Fisco, Polícia, Tribunais, Agências, entre outras) com o objetivo de subordiná-las aos interesses do Partido e do governo. O estimulo aos conflitos e à desmoralização continua do Legislativo e do Judiciário fazem parte da desestabilização. Obviamente não está ausente da lógica totalitária a escolha de um “bode expiatório” para explicar crises econômicas ou insatisfações sociais: os judeus, os que têm olhos azuis, ou mesmo os ciclistas. Enfim, aqueles que são minoria no país, aos quais são atribuídos poderes diabólicos de dominação, mesmo que em grande parte sejam na verdade pobres ou remediados.

Os aspectos e interesses econômicos predominam sobre quaisquer considerações de ordem moral, resultando, assim, a exaltação continua dos feitos econômicos sobre as carências, desigualdades e criticas às posturas do governo. O importante é exaltar as “realizações”, ou o que modernamente se convenciona chamar de “obras”. Por fim – mas não menos importante – é o estimulo à atuação de tropas de choque, que se formam como poder paralelo (muitas vezes armado) com o objetivo de desconstruir os conceitos de segurança jurídica e dos direitos assegurados pela Constituição.

Os totalitarismos e os reinados do Terror sempre exerceram um grande fascínio sobre as pessoas – inclusive as que se consideram bem pensantes – uma vez que as isenta da penosa tarefa de pensar por si mesmas. Ao desdobrar a sua lógica, evidentemente tomamos como referência alguns países com que o Brasil busca aproximação, uma vez que a diplomacia brasileira atualmente privilegia a astúcia para negócios, em detrimento da paz e dos valores civilizadores. Neste sentido, não nos tem faltado inúmeras más companhias no cenário internacional. Mas como o Brasil deseja apresentar-se ao mundo como um país que preza os valores democráticos, a visita do inominável, apesar de ofensiva e indesejável, deverá servir, afinal, para um esforço de reflexão mais profunda sobre os destinos da sempre tenra Democracia brasileira.

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Josef Barat, economista, consultor, foi diretor da Anac, é presidente do Conselho de Desenvolvimento das Cidades da Federação do Comércio do Estado de São Paulo.

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O pária entre nós – por Sérgio Malbergier

Meu bisavô, inquieto com o antissemitismo e a pobreza, deixou sua pequena cidade do sul da Polônia rumo à América no início do século passado. Como muitos outros patrícios, arrumou um emprego em Nova York, numa fábrica de roupas. Judeu religioso, porém, não aceitou trabalhar aos sábados, dia de descanso do judaísmo, e voltou para a Polônia. “Voltou pra Hitler matar”, repetia sempre minha avó Pessel (Paulina), no jardim da casa de Niterói, onde contava e recontava essa história dezenas de vezes numa tristeza sem fim.

sergiom251109

Meu bisavô é o barbudo da foto nesta página, minha avó, a menor das duas meninas de pé. Tirando as duas, a irmã no colo e o filho, que tiveram a sorte de fugir da Europa antes da barbárie nazista, os outros retratados foram mortos nos campos de extermínio alemães durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45). Dói imaginar o que minha avó (se estivesse viva) sentiria se visse o país que lhe deu abrigo e onde criou com a alegria que lhe restou filhos, netos e bisnetos estender o tapete vermelho ao ditador iraniano Mahmoud Ahmadinejad, pária internacional que nega e promove a negação do Holocausto (o extermínio de 6 milhões de judeus indefesos pela Alemanha nazista), uma negação da própria história da humanidade e, numa escala próxima, da minha avó e de seu imenso sofrimento.

Dela, meu, de dezenas de milhares de brasileiros judeus e de milhões de brasileiros de outras religiões que se compadecem com as atrocidades nazistas e também com as atrocidades da teocracia islâmica iraniana contra seus próprios cidadãos. O presidente Lula e sua diplomacia são no mínimo ingênuos ao argumentar que a visita de Ahmadinejad elevará a projeção da diplomacia brasileira. O pária de Teerã é barrado nas capitais ocidentais onde se pratica política externa responsável dada a sua extensa ficha criminal: tortura e morte de centenas de opositores do regime; vencedor de eleições contestadas (provavelmente roubadas), cujos protestos oposicionistas, reprimidos a balas, Lula chamou irresponsavelmente de briga de torcidas; promoção do terrorismo internacional; opressão sangrenta a minorias religiosas; perseguição de homossexuais (executados em praça pública) e de partidos políticos, especialmente os de esquerda.

Mas o governo Lula, mal aconselhado pela banda cada vez mais aloprada que comanda sua política externa, argumenta que dar honras de Estado e palanque a esse opressor, apoiador de terroristas e negador do mal absoluto promovido pelos nazistas, pode fazer com que Ahmadinejad modere sua posição. Primeiro, os aloprados externos de Lula mentiram ao dizer que Washington apoiava sua intermediação com o Irã para tentar fazer com que o país abandone seu programa nuclear clandestino e ilegal. Os EUA, na verdade, e as outras potências ocidentais legitimamente preocupadas com a perspectiva de o beligerante regime iraniano (que ameaça destruir Israel e busca os meios, nucleares, para esse novo Holocausto) obter a bomba atômica, consideram a visita apenas uma ação legitimadora do regime iraniano.

E o apelo de Lula para que o mundo negocie com o Irã na verdade já está sendo praticado desde que Obama assumiu a Casa Branca. As negociações, conduzidas com EUA, China, Reino Unido, Rússia, França e Alemanha, não vão a lugar nenhum justamente porque Teerã quer a bomba atômica, e só Lula e o Itamaraty fingem não perceber. No Ocidente, Ahmadinejad só é recebido pelo neocaudilho Hugo Chávez e seus regimes satélites. Barrado alhures, busca alianças na América do Sul e onde o recebam. O que Ahmadinejad tem a ganhar com a visita ao Brasil está claro para todos: 1) Legitimidade de uma potência emergente que ainda não sabe direito o que fazer desse novo poder internacional conquistado, sobretudo, por sua economia pujante e também pela liderança e o carisma do próprio Lula. 2) Um palanque precioso para discorrer livre e cinicamente sobre suas intenções “pacíficas” e “humanitárias”, que na verdade são exatamente o contrário. E ainda bater em aliados históricos do Brasil, como os EUA.

Já o Brasil só tem a perder na formação de sua imagem global de país tolerante, defensor dos direitos humanos e da democracia. Minha avó hoje não é só uma fotografia amarelada como a que acompanha este texto. É uma parte grande em mim, que chora de tristeza ao ver o país que a abrigou e me pariu estender o tapete vermelho a um ditador que nega o maior sofrimento da vida dela e de milhões de pessoas e a maior iniquidade cometida pela humanidade. Lula manchou o Brasil ao receber Ahmadinejad e me deixa com vergonha de ser brasileiro.

E ainda tem o pior

E se já não bastasse o apoio deslavado ao iraniano, o governo brasileiro ainda viu necessidade de retaliar a liderança judaica brasileira que, corajosamente, protestou em público contra a visita do déspota, deixando de convidá-la a almoço com o presidente de Israel, Shimon Peres, durante sua recente visita ao Brasil. Para o governo Lula e seus assessores, a comunidade judaica deveria ficar calada enquanto se tripudia sobre sua memória. O que não é nada democrático.

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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, “A Árvore” (1986) e “Carô no Inferno” (1987). Artigo publicado originalmente na Folha Online. E-mail do autor: smalberg@uol.com.br

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A visita do presidente do Irã exige reflexão moral – por Adriana Dias

(fonte: BB Press) Se você pudesse decidir os laços comerciais do Brasil com a Alemanha de Hitler, você teria aceitado de braços cruzados? Seis milhões de judeus foram exterminados pelo regime hitlerista. Você aceitaria laços comerciais com a Alemanha nazista, para comprar pólvora, produzida pelos judeus escravizados nos campos de concentração, ou para vender produtos brasileiros a este regime, porque seu país precisa de pólvora ou de superávit comercial?

Milhares de gays foram perseguidos e mortos pelos nazistas. Cerca de 50 mil gays foram classificados como “criminosos” e “degenerados” pelo Terceiro Reich, e de 10 mil a 15 mil deles foram enviados a campos de concentração. Você aceitaria laços comerciais com a Alemanha nazista, se soubesse disto? Você acha que Hitler abriria mão do que desejava (exterminar judeus, homossexuais, Testemunhas de Jeová, ciganos, dominar o mundo) se alguém tentasse convencê-lo?

Ditadores não são convencidos. É preciso que a liberdade e a democracia denuncie todas as ditaduras. Que preço moral estamos dispostos a pagar pelo laço comercial com o Irã? Podemos, como seres humanos aceitar a repressão e o fuzilamento de mulheres, gays, baha’is, como problemas internos iranianos? Seriam os campos de concentração nazista problemas internos da Alemanha? Podemos apertar a mão do presidente do Irã sem banharmos estas mesmas mãos no sangue das crianças executadas pelo regime totalitário iraniano?

Receber Ahmadinejad não é uma decisão apenas de “caráter pragmático”: é uma decisão que implica, sim, em reflexão moral: fornecer alimentos, máquinas, ou o que quer que seja, implica na espécie de aliança que está se construindo. O silêncio do mundo permitiu milhares de mortos nos regimes nazi-facista. Resta a pergunta: vamos nos calar novamente? Não há desculpas: Silêncio é aceitação. O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons, afirmou Martin Luther King.

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Adriana Dias – antropóloga, doutoranda da Unicamp.Site da Pesquisa: http://etnografianovirtual.blogspot.com

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A falta de democracia e as eleições iranianas de 2009 – por Dina Lida Kinoshita

(fonte: BB Press) Há exatas três décadas o povo iraniano saudou a Revolução dos Ayatolás que derrubou o regime despótico do Xá Reza Pahlevi. No entanto, numa região que nunca primou pela democracia, este processo não produziu nenhum avanço no que diz respeito aos preceitos básicos definidores de um regime democrático, respeitador dos Direitos Humanos. Ao contrário, houve um retrocesso.

Os três poderes definidos por Montesquieu, a saber, Executivo, Legislativo e Judiciário constituem uma verdadeira farsa no Irã e quem efetivamente comanda o país de regime teocrático é o Conselho dos Guardiões da Revolução. Este Conselho foi criado por Khomeini para consolidar o seu poder logo após a Revolução, num processo de elaboração de uma nova Constituição aprovada por referendum. Este Conselho dos Guardiões da Revolução, com grande maioria de clérigos islâmicos tem o controle absoluto dos serviços militares e de segurança bem como o poder de indicar os vários dirigentes executivos e judiciais do governo.

Nos primeiros anos do novo poder instalado houve uma escalada do autoritarismo e mesmo grupos que apoiaram inicialmente a Revolução Islâmica, foram sendo banidos da política, e grupos de Direitos Humanos também passaram a atuar praticamente na clandestinidade. Khomeini proibiu o uso da palavra “democracia” que cheirava a um ocidentalismo e os jornais foram proibidos de circular.

O regime instaurado teve inicialmente um grande apoio popular por ter melhorado os índices econômicos e educacionais dos pobres. A guerra Irã-Iraque teve como resultado uma grande coesão do povo iraniano em torno do seu governo. Este, ambicionando ser uma potência regional de contraposição aos países aliados aos EEUU, buscou um modelo prussiano de desenvolvimento com grandes projetos, entre eles um projeto nuclear embora sua economia continue fortemente atrelada à exportação de petróleo.

Nesses trinta anos, como em todos os países autoritários, surgiram dentro do sistema forças conservadoras e reformistas. Em alguns momentos os reformistas eram mais fortes e tinha-se uma esperança de mudanças paulatinas. Destaque-se que os reformadores também fazem parte de setores consentidos pelo regime.

A eleição de Mahmoud Ahmadinejad em 2005 acabou com todas as ilusões. De família pobre, Ahmadinejad conseguiu formar-se engenheiro civil e doutorar-se na Universidade de Ciência e Tecnologia do Irã e, ao mesmo tempo já era militante de movimentos islâmicos fiéis à Revolução. Fez uma carreira meteórica na política, por ser considerado bom administrador municipal, principalmente pelos mais pobres. Foi prefeito de duas cidades provinciais e, posteriormente em Teerã. Também ganhou reputação e popularidade como linha dura uma vez que é ultranacionalista, ultrareligioso, anti-reformista e anti-ocidental até a medula. E foi guindado à presidência como o primeiro mandatário não clérigo em 24 anos, a fim de obstruir as reformas, ainda que incipientes, iniciadas por Khatami.

Durante seu primeiro mandato foi denunciado o aumento das violações de Direitos Humanos contra os curdos, perseguiu os seguidores de religiões não oficiais, mulheres e grupos GLBT entre outras minorias.

Mas o que causou profunda comoção internacional foram suas declarações que colocam em dúvida as reais dimensões do Holocausto e sua pregação pela extinção do Estado de Israel. Tem financiado vários grupos guerrilheiros islâmicos que vem utilizando métodos terroristas, sobretudo no Oriente Médio, mas, em outras partes do mundo também. Não se pode esquecer do envolvimento, comprovado pela Interpol, do regime iraniano, ainda nos anos 90, no ataque à Embaixada de Israel e à AMIA, em Buenos Aires que causaram dezenas de vítimas fatais. Enquanto o campo da paz israelense e palestino vem dialogando por uma negociação justa e duradoura, para criar o Estado Palestino ao lado do Estado de Israel, as ações promovidas por Ahmadinejad têm fortalecido o campo da guerra.

Por outro lado o atual presidente iraniano tem adquirido um enorme protagonismo no contexto internacional graças a um projeto nuclear contestado por vários países e grupos pacifista. Ahmadinejad recusou-se por muito tempo a submeter este projeto a inspeções da AIEA. Numa recente tentativa de acordo ficou acertado que o urânio enriquecido no Irã seria depositado na Rússia mas até agora isto não vem sendo cumprido.

No início de 2009 houve eleição presidencial no Irã. Embora tenham se apresentado quase 500 candidatos, o Conselho dos Guardiões vetou praticamente todas as candidaturas, inclusive todas as cerca de 50 femininas. O motivo da recusa foi terem sido consideradas pouco confiáveis para os desígnios do regime. Ao final restaram duas candidaturas expressivas: a de Ahmadinejad que se apresentou para a reeleição e a de um reformador, Hossein Mousavi. O presidente ainda tem muitos seguidores no interior do país, entre parte da população mais carente, mais sujeita a políticas populistas e clientelistas. Não obstante a oposição política e entidades de Direitos Humanas terem denunciado centenas de fraudes eleitorais no interior e na capital do país e, apesar do Conselho dos Guardiões da Revolução ter assumido num determinado momento que houvesse fraudes, pouco se fez para apurá-las.

A oposição realizou milhares de protestos tentando mostrar as fraudes. Porém o governo, para abafar as suspeitas, sufocou as manifestações com prisões e mortes. Há milhares de pessoas presas por delitos de opinião e a pena de morte atinge centenas. Os correspondentes estrangeiros foram proibidos de acompanhar os acontecimentos e o que foi comunicado foi graças aos novos meios de comunicação, principalmente por intermédio da internet. E foi neste clima que o regime anunciou a vitória de Ahmadinejad com 62% dos votos, ainda no primeiro turno. Mousavi pediu formalmente a anulação do pleito mas num país teocrático ninguém lhe deu ouvidos.

E é o Sr. Mahmoud Ahmadinejad, com este currículo anti-humanista que virá ao Brasil nos próximos dias representando um dos regimes mais autoritários e belicistas do planeta.

O Brasil, por sua importância regional e despontando como um dos BRIC`s em âmbito internacional, além de ter presidido a Assembléia Geral da ONU que aprovou a partilha da Palestina em 1947, passo importante para a criação do Estado de Israel em 1948, poderia exercer um papel importante de mediador nos conflitos do Oriente Médio. Mas apesar de continuidades muito fortes na política do Itamaraty, no governo Geisel, o Brasil chegou a declarar que “sionismo é racismo”. Felizmente este conceito foi abandonado mas a política do atual governo no que tange a questões externas é muito errática. Será que Lula terá a capacidade de modificar o pensamento político iraniano que tem raízes profundas na história daquele país? A oportunidade, o Presidente Lula criou.

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Dina Lida Kinoshita é Professora Doutora, membro do Conselho da Cátedra UNESCO de Educação para a Paz, Direitos Humano, Democracia e Tolerância, junto ao Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, e secretária de relações internacionias do PPS.

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Por que o senhor faz isso?

Artigo escrito por Manoel Knopfholz, Ester Proveller, Leon Knopfholz e Isaac Cubric – Recentemente desfrutamos de um enorme privilégio. Estar sentados ao lado de nosso amigo, sr. Moysés Jakobson, um sobrevivente do Holocausto em uma palestra que proferiu sobre o tema. Durante uma hora, ouvimos sua história. Uma verdadeira saga de horrores, barbáries e sofrimentos, mas também de sobrevivência, coragem e superação.

Enquanto o palestrante narrava suas tristes e insólitas experiências, observamos atentamente as expressões da plateia, composta, em sua gran­­de maioria, por jovens. Da posição onde nos en­­contrávamos, podíamos olhar diretamente para suas faces. O que vimos foram rostos estupefatos marcados pela revolta, pela indignação e pela surpresa diante de um fato histórico que demarcou o ápice da crueldade do homem para com o homem.

Ao final da exposição, no momento das perguntas, um dos jovens dirigiu-se ao sr. Moysés e perguntou-lhe: por que o senhor faz isso? Por que nos conta esta história tão cheia de dor e sofrimento acontecida há mais de 60 anos?

Por um momento, o palestrante refletiu e depois, olhando ternamente o aluno, respondeu: para que a chama do amor, da fraternidade e do respeito entre os seres humanos permaneça acesa e para que acontecimentos como esses ja­­mais ocorram novamente, seja contra judeus, ci­­ganos, homossexuais, negros, ou quaisquer outros povos sobre a face da Terra.

A máquina de extermínio nazista constituiu-se em um processo de crueldade sem precedentes na história humana. De forma amplamente documentada, suas ações, amparadas pelas leis vigentes à época, de frágeis bases jurídicas, sancionadas no interesse do regime, culminou na eliminação de grupos étnicos minoritários sustentada por precários conceitos de supremacia racial.

Pessoas comuns foram simplesmente arrancadas de suas casas e de suas famílias e levadas a campos de concentração e ou extermínio. À direita a vida. À esquerda a morte. Auschwitz-Birkenau, Belzec, Majdanek, Solibór e Treblinka exterminaram, de forma sistemática, 7,2 milhões de pessoas, das quais 6 milhões eram judeus. Aos sobreviventes, restou a difïcil tarefa de refazer suas vidas após tamanho infortúnio.

Seria de presumir que as pessoas que sobreviveram a tragédias como esta se tornassem rancorosas, revoltadas e nutrissem um ódio intenso. Não é o que acontece. O sr. Moysés é claro e terno em suas palavras e, principalmente, em suas atitudes. Sua vida é dedicada a fazer o bem ao próximo.

Enquanto o assistíamos, pensávamos conosco mesmos que estávamos ao lado de um ser humano real, ali, naquele instante, narrando fatos de sua sofrida juventude e não diante de um livro, documentário ou filme, mas de um homem de carne e osso, testemunha viva do genocídio.

Neste momento não podemos deixar de pensar na visita do sr. Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, ao Brasil. Por um instante, acalentamos a esperança de que esta seria a oportunidade para abordarmos consigo esta questão.

De forma reiterada, Ahmadinejad vem negando a ocorrência do Holocausto e disseminando, tal como Adolf Hitler, um virulento am­­biente antissemita. E, como se isso não bastasse, faz ameaças verbais e constantes questionando a existência de Israel, uma democracia legítima incrustada em meio a teocracias de conceitos medievais, e consolidada mediante a Declaração Balfour, datada de 2 de novembro de 1917, reconhecendo o direito histórico do povo judeu à terra de Israel, e da votação da Assem­­bleia-Geral das Nações Unidas de 29 de novembro de 1947 (presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha), que determinou a partilha da Palestina, ainda sob domínio do império britânico, em dois estados, um judeu e outro árabe. Medida imediatamene acolhida pelos primeiros e rechaçada pelos segundos.

Não podemos imaginar as razões que levam Ahmadinejad a fazer isso. Conhece, com absoluta certeza, a história dos judeus no mundo inteiro e especialmente aqueles de seu país, os judeus da Pérsia, conhecidos como “parsim”. Tem capacidade para avaliar as imensas e inegáveis contribuições judaicas à cultura universal. Por que não se junta a Angela Merkel, chanceler da Alemanha, que admite e procura propagar a verdade?

O que faz o sr. Ahmadinejad é antirreligioso. É com certeza anti-islâmico. Conseguimos facilmente perceber porque o sr. Moysés Jakobson faz o que faz. E o senhor Ahmadinejad, por que faz isso?

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Manoel Knopfholz é presidente da Federação Israelita do Paraná
Ester Proveller é presidente da Comunidade Israelita do Paraná
Leon Knopfholz é presidente da Loja Chaim Weizmann da B’nai B’rith do Paraná.
Isaac Cubric é imeiro-secretário da Loja Chaim Weizmann da B’nai B’rith do Paraná.

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Visita do Presidente do Irã – por Herman Glanz

O assunto do momento é a chegada do presidente do Irã ao Brasil. O comércio e a política se juntam, como é de praxe. Mas a visita do presidente do Irã traz algo mais no seu bojo, já que se trata de um dirigente que promove ações que são questionadas em todo o mundo. Leia mais

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