Benhur se prepara para fechar sua loja de roupas, na cidade de Esfahan. É fim de tarde de sexta-feira e o shabat se aproxima. Seus amigos muçulmanos se despedem e Benhur segue para a sinagoga, na Meidan-e-Felestin, ou Praça Palestina, em farsi. Houve um período, durante o século 19, em que os judeus dessa cidade eram identificados nas ruas por roupas amarelas, ou por calçarem sapatos com cores diferentes para o pé direito e para o pé esquerdo, conforme determinações legais, que impunham uma série de restrições aos não-seguidores do Islã. Mas hoje Benhur não esconde de ninguém que é judeu, nem que está a caminho da sinagoga. À porta de sua loja, uma mezuzá, ainda que um pouco escondida, revela que o estabelecimento pertence a um judeu. Revela, mas não denuncia.
Na semana seguinte estou em Teerã, capital persa. Escurece cedo no inverno e ameaça nevar. Mas o frio não impede que os judeus caminhem em direção à Meidan-e-Felestin, a Praça Palestina de sua cidade, onde fica a Sinagoga Abrishami, para dar início às celebrações do shabat. Será uma simples coincidência que depois da Revolução Islâmica de 1979 as praças diante de sinagogas em duas cidades diferentes tenham recebido esse mesmo nome? Hoje vivem em Teerã cerca de doze mil judeus, ou seja, aproximadamente a metade da comunidade judaica do país. Em sua maioria, seguem os preceitos da religião. A sinagoga está lotada com mais de duzentas pessoas. O ritual sefardi e o ashkenazi ocorrem simultaneamente, de tão grande que é o salão. As pessoas me observam com preocupação, e parecem estar se perguntando quem seria aquele estranho, nunca visto na sinagoga antes. Logo sou levado a uma sala pelos responsáveis pela segurança no local e, depois de uma conversa agradável, sou convidado a participar da cerimônia religiosa.
“Judeus no Brasil?”, se perguntam espantados diversos jovens e velhos, que vêm conversar comigo ao término das rezas. “Mas aquilo ali é uma floresta!” Nós, aqui no Brasil, ficamos espantados ao nos depararmos com os judeus no Irã. “Existem? Quantos? Vinte e cinco mil?”. Sim, vinte e cinco mil judeus vivendo na república dos aiatolás. Mas isso não deveria nos causar espanto. Afinal, há judeus vivendo no Irã há muitos séculos.
O ano de 1979 marcaria a realidade política do Oriente Médio para sempre, e as conseqüências da Revolução Islâmica são assunto de discussões infindáveis e causa de tensões políticas que, nos dias atuais, vêm se acirrando em decorrência da retórica agressiva do presidente Ahmadinejad. A revolução teve como estopim a insatisfação generalizada da população iraniana com seu Xá, Reza Pahlevi, visto por muitos como corrupto e submisso aos interesses norte-americanos. O território do Irã, próximo ao da União Soviética, era disputado pelos dois lados rivais da Guerra Fria e, na onda de insatisfação popular com o regime do Xá, prenunciava-se sua entrada na esfera de influência de Moscou. Para muitos observadores, havia no ar um desejo de implantar o comunismo no país. Mas o que se viu após a revolução foi a tomada do poder por clérigos xiitas, e a imposição da Sharia sobre os cidadãos do país, isto é, o código de conduta religioso do Islã, que passou a organizar uma sociedade muçulmana de tendência fundamentalista.
Poucos meses depois da revolução, o modus operandi da sociedade iraniana havia se transformado completamente. As mulheres, que antes se vestiam à moda ocidental, agora passavam a cobrir os cabelos, ocultando-se sob o pudico shador. Mesmo as que não eram religiosas foram obrigadas a se submeter às novas práticas, e qualquer tipo de desobediência passou a ser punida severamente, nas formas prescritas pelo código de Maomé.
A situação dos judeus iranianos evidentemente se transformou, também, de maneira radical depois de 1979. Antes da revolução, viviam no Irã mais de cem mil judeus, dos quais cerca de 75 por cento emigraram, principalmente para os Estados Unidos e para Israel. Os que ficaram no país vivem, em sua grande maioria, em Teerã e Shiraz, cidade ao sul do país. Uma das conseqüências da revolução sobre a vida dos judeus iranianos é o fato de que a comunidade se tornou mais religiosa, freqüentando com maior assiduidade as sinagogas e dando maior atenção aos preceitos religiosos e às datas mais importantes do calendário litúrgico. Hoje, vemos cerca de duzentos judeus se espremendo na entrada de uma das sinagogas da Teerã, numa noite de shabat – uma cena que seria impensável durante os anos 70, quando o país foi tomado por uma onda de secularismo à moda ocidental sem precedentes.
Os judeus, e a sociedade iraniana como um todo, se tornaram mais religiosos e, no limite, há aqueles entre os judeus que agradecem por viver num país de religião oficial islâmica, já que assim podem praticar um judaísmo de acordo com a ortodoxia. Isso porque há diversas semelhanças entre as ortodoxias judaica e islâmica – como a obrigatoriedade do uso do véu para cobrir os cabelos das mulheres. Em outras palavras, o setor mais religioso da comunidade judaica é o que melhor se adaptou aos novos tempos no Irã, enquanto os judeus modernizados e ocidentalizados, vendo-se tolhidos nas liberdades às quais haviam se acostumado sob o reino do Xá, optaram,em sua maioria, pela emigração.
O Irã conheceu poucos períodos de secularismo em sua história. Talvez o primeiro deles tenha se iniciado com os invasores mongóis de Hulegu, que chegaram à antiga Pérsia no século 13, ainda antes de os persas adotarem a fé islâmica. Certamente, o mais recente desses períodos seculares foi imposto pela dinastia dos Pahlevi. O soldado Reza Shah deu um golpe de Estado e derrubou a já cambaleante dinastia Qajar, que vinha governando o país, logo após a 1ª Guerra Mundial, em 1925. Naquela mesma década, Kemal Ataturk fazia uma revolução na Turquia, abolindo o alfabeto árabe e adotando o secularismo, em busca da modernização do país. Reza Shah queria fazer o mesmo com o Irã – e estava conseguindo, criando universidades e, no limite, proibindo o uso do shador. Para os judeus, a modernização representou, entre outras coisas, a criação de escolas de ensino da língua hebraica e a inauguração das escolas judaicas laicas da Alliance Israelite Universelle (AIU).
Os judeus também passaram a gozar dos mesmos direitos e obrigações de todos os cidadãos iranianos, deixando para trás o status de dhimmi, ou “protegidos”, termo utilizado para designar as minorias judaica e cristã no mundo islâmico, desde o Pacto de Omar, no século 7. Se na teoria os dhimmi são protegidos, já que a lei islâmica não os obriga a se converterem ao Islã – ao contrário do que acontece com os seguidores de outras religiões que desejem viver entre os muçulmanos – na prática seu status é inferior ao dos seguidores do Islã, e os dhimmi ficam sujeitos a uma série de restrições, destinadas a enfatizar este seu status inferior. Cristãos e judeus têm liberdade para praticar suas liturgias, porém ficam obrigados a pagar um imposto especial, a jizya; não podem ocupar determinados cargos, devem subserviência aos muçulmanos, não têm direito de andar sobre camelos, apenas sobre jumentos, e assim por diante.
Durante a 2ª Guerra Mundial, Reza Shah mostrou-se simpático ao regime nazista, e a comunidade judaica, que via com bons olhos os ventos da modernização, passou por um período tenso, vivendo sob constante vigilância do governo e sob ameaças. Uma frente soviético-britânica derrubou Reza e colocou no poder seu filho, Mohamed Reza Pahlevi, como novo Xá, em 1941. Os temores dos judeus foram afastados, e eles voltaram a gozar de um período frutífero, desfrutando de igualdade ante a lei e de liberdade econômica semelhante à da maioria da população. Os judeus iranianos contavam com o apoio do Xá para a causa sionista e muitos deles aproveitaram a criação do Estado de Israel, em 1948, para se mudar para lá. Entretanto, a maioria permaneceu no país, vivendo em paz com seus vizinhos.
A revolução mudou uma parte dessa história. O Aiatolá Khomeini foi, desde o princípio, abertamente hostil ao Estado de Israel, pregando sua destruição, como de resto o faz Ahmadinejad em nossos dias. No entanto, Khomeini afirmava, também, que os judeus iranianos eram uma minoria que deveria ser protegida, e os judeus têm um representante no senado. Khomeinei traçou, também, uma clara distinção, que vale até hoje, entre o sionismo e o judaísmo. Fora da esfera das decisões oficiais, a relação entre judeus e seus vizinhos permaneceu inalterada. Os elos entre os judeus iranianos e seus familiares que migraram para Israel foram cortados nos primeiros anos da Revolução Islâmica, e até os dias atuais a comunicação é feita a um custo elevado. E há uma série de problemas legais para os judeus do Irã, como o fato de que, segundo as leis do país, se um membro qualquer de uma família judia se converte ao Islã, automaticamente adquire direitos sobre as heranças de todos os demais membros; como o fato de que judeus não podem se tornar oficiais do exército; ou o fato de os diretores das escolas judaicas de Teerã serem muçulmanos, embora não exista nenhuma lei islâmica que determine isso.
No dia 24 de abril de 2003, os últimos cinco judeus de um grupo inicial de dez notáveis da comunidade judaica, aprisionados sob a alegação de que estariam praticando espionagem para Israel, foram libertados após cumprirem alguns anos de sentença na prisão de Shiraz, ao sul do país. Seu julgamento se deu numa sessão fechada da Corte Islâmica, em julho de 2000. Os advogados de defesa alegavam que os judeus haviam simplesmente telefonado para Israel. Apenas o pedido formal de perdão por parte dos condenados ao Aiatolá Ali Khamenei foi suficiente para reduzir a pena que, num primeiro julgamento, chegava a treze anos de prisão.
Nos anos oitenta, uma guerra assolou o país. Bombas eram lançadas em Teerã diariamente e os judeus, assim como seus vizinhos, sofreram perdas enormes, pagando inclusive com a vida. Em seu recém-lançado livro Persépolis, a iraniana Marjane Satrapi, conta como uma bomba caiu na casa de seu vizinho judeu, matando toda a família. Quando estive no cemitério da Rua Khavaran, em Teerã, fiquei surpreso ao ver, bem ao fundo, perto do muro, o túmulo de dois soldados judeus mortos na guerra. Quando poderia imaginar um judeu lutando e perdendo sua vida para defender o regime do aiatolá? Durante essa guerra, muitos jovens judeus saíram do Irã para não servir ao exército e isso se tornou um problema para as moças judias em idade de casar.
Os anos noventa foram de relativa calmaria no Oriente Médio. Bem relativa. Israel e palestinos assinavam os Acordos de Oslo, o Líbano saía de uma guerra civil, Irã e Iraque selaram a paz e apenas Saddam Hussein, na contramão, invadia o Kuwait. Em 1997, o Irã elegeu como presidente o aiatolá Mohamed Khatami, que era considerado um reformista. Nas ruas de Teerã, as meninas mais modernas já deixavam à mostra uma parte dos cabelos ou do tornozelo, e ousavam na maquiagem.
O status dos judeus não se modificou muito nos anos pós-revolução, qualquer que fosse o presidente do país; afinal de contas, quem efetivamente governa o país é o aiatolá, o Líder dos Guardiães da revolução. Embora os clérigos iranianos demonizem Israel, os judeus iranianos não sofrem restrições, ou melhor, estão oficialmente proibidos de viajar a Israel, mas não sofrem restrições quanto à liberdade de culto e até quanto ao ensino de hebraico para uso nas rezas, conquanto o hebraico seja a língua oficial de Israel. E, segundo consta, apesar da proibição oficial, as viagens de judeus iranianos a Israel, via Turquia ou via Chipre, têm sido toleradas nos últimos anos, não obstante a retórica agressiva do presidente iraniano. No limite, os judeus têm até mais liberdade que os xiitas, já que podem ter clubes onde jovens de ambos os sexos se encontram, por exemplo.
Há uma evidente confusão de idéias e ações por parte do governo iraniano. Essa confusão é passada diretamente aos judeus iranianos, que não se declaram oficialmente sionistas, embora muitos deles tenham familiares vivendo em Tel Aviv. Ato contínuo, a confusão atravessa a fronteira do Irã e chega à Europa e Estados Unidos, onde grupos de Direitos Humanos vigiam as ações dos governantes em Teerã com relação aos judeus. Por fim, a confusão chega às comunidades judaicas fora do Irã e aos judeus iranianos que moram fora do país e que conheceram os ventos da liberdade de expressão. Para esse último grupo, os judeus são oprimidos no Irã, pois não têm liberdades. Mas eles não levam em conta o fato de que também os muçulmanos do Irã vivem uma série de restrições, por conta da Sharia. Isso é fundamental para não caracterizar uma clara política anti-semita por parte dos governantes iranianos.
Quando Ahmadinejad prega a destruição de Israel do mapa, ele nada mais faz do que manter a política vigente no país desde a revolução de 1979, ou seja, uma política anti-sionista e pró-Palestina. Mas quando ele nega a existência do Holocausto, talvez esteja ultrapassando a tênue linha divisória entre anti-sionismo e anti-semitismo, e transmitindo um sinal de alerta à comunidade judaica iraniana.
Fonte: Revista 18 / FIRS