Eu escrevi para você na primavera, profundamente preocupado com a visita agendada pelo Presidente Mahmoud Ahmadinejad a Brasília em 6 de Maio de 2009. Estamos gratos que essa visita não tenha acontecido. Lamentavelmente, agora está marcada para acontecer no próximo mês. Senhor Presidente, por favor, reconsidere o caso.
O Senhor é um líder político admirado amplamente. Brasil, sob a sua guia, tem emergido rapidamente no palco mundial, para citar você, como um “cidadão de primeira categoria” na comunidade internacional. Porque você iria querer conferir seu considerável prestígio a Ahmadinejad, que anseia ele, mas com certeza não o merece? E porque o Brasil iria, hoje um bastião muito elevado dos valores democráticos, buscar vínculos mais próximos com Irã, seu oposto polar?
Senhor Presidente, o Senhor falou apaixonadamente nas Nações Unidas algumas semanas trás sobre o tipo de mundo que o Senhor procura construir. O Senhor chamou à preservação e à expansão dos direitos humanos. Sob o regime atual, porem, Irã tem pisoteado os direitos humanos, flagrantemente, brutalmente, repetidamente.
O Senhor expressou apoio ao desarmamento e a não proliferação. Sob o regime atual, porém, Irã está se armando rapidamente e violando resoluções mandatórias do Conselho de Segurança das Nações Unidas e diretrizes da Agência Internacional de Energia Atômica sobre proliferação nuclear.
O Senhor apelou para a confrontação com o terrorismo “sem estigmatizar grupos étnicos e religiões”. Sob o regime atual, porem, Irã promove ativamente e doa fundos para o terrorismo e tem apontado a religiões e grupos étnicos específicos, incluindo a comunidade judaica no seu quintal, América do Sul.
E o Senhor articulou a visão de uma solução de dois Estados, um Estado Palestino vivendo lado a lado com Israel. Sob o regime atual, Irã procura um mundo sem Israel, pura e simplesmente. Em outras palavras, Senhor Presidente, Irão não apenas não compartilha seus valores precípuos, mas se opõe ativamente a eles.
O Senhor talvez afirme que o diálogo entre nações pode mudar as mentes. Às vezes, sim, absolutamente. Mas muitos têm tentado já este tipo de diálogo com Irã, cada um clamando que podia encontrar a chave para introduzir a promessa de uma nova era com o Irã.
Os resultados provam o contrário. Os líderes iranianos somente têm endurecido sua posição ao longo dos anos, enquanto que tentam explorar as oportunidades comerciais e diplomáticas que têm recebido em visitas de capitais desde Ancara até Moscou, desde Kuala Lumpur até Nova Déli.
Agora, como o Senhor sabe, há um novo diálogo com o Irã, mas este pretende ser diferente. No início deste mês, representantes de seis nações, os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, se encontraram com oficiais iranianos que a paciência esta rapidamente se esgotando com o muito familiar padrão de desmentidos e enganações do Teerã em relação ao seu programa nuclear.
Até agora, ao menos, estas conversações estão sendo a melhor esperança para desviar o Irã do seu perigoso curso. Porque a necessidade de receber o Presidente Ahmadinejad, quando o efeito, mesmo que não intencional, poderia ser o de complicar ainda mais as negociações?
Senhor Presidente, na primavera passada quando escrevi para o Senhor, o caso contra o Irã de Ahmadinejad já era notório. Nos meses seguintes, tem aumentado ainda mais. Considere as eleições de 12 de Junho em Irã. Esta claro que houve falsificação maciça e manipulação de votos. Ou o dia seguinte. Quantos iranianos que foram às ruas protestar têm sido arrestados, golpeados, torturados e assassinados? Lembre a morte de Neda Agha-Soltan, que veio simbolizar a violência do regime contra o seu próprio povo.
Considere o destino de sete líderes Bahai, membros de uma comunidade perseguida longamente, que foram acusados com falsas imputações e enfrentam a pena de morte. O julgamento está agendado para este mês, tendo sido posposto de Agosto, devido ao que seu advogado foi preso depois das eleições. Considere o discurso de ódio de Ahmadinejad no dia de Al-quds, 18 de setembro. Outra vez ele chamou o Holocausto de uma fabricação.
Considere suas falas nas Nações Unidas alguns dias mais tarde, no qual ele acusava os judeus de toda variedade de nefastos crimes, provocando a saída da Assembléia das Nações Unidas de muitas delegações latino-americanas e européias, mas, lastimavelmente, Senhor Presidente, não a do Senhor. Considere o alardeado lançamento dos mísseis Shabab-3 e Sejil-2 no mesmo mês. São esses símbolos do compromisso de Irã de coexistência pacífica com seus vizinhos?
E então, claro, houve a instalação nuclear de Qum. Apesar do esforço de Irã de “distorcer” a historia desta facilidade não declarada para enriquecimento, está claro que o Irã foi pegue com as mãos em uma grande decepção. Quantas outras facilidades não declaradas deve haver no Irã? E qual é o seu propósito se não avançar a busca do Irã de capacidade de ter armas nucleares?
Senhor Presidente, faça a coisa certa. Pela salvação de seu compromisso com os direitos humanos e os valores democráticos, faça a coisa certa.
Pela salvação dos corajosos iranianos que tem arriscado suas vidas, em alguns casos pagaram com suas vidas, o desafio do abuso de poder do regime, faça a coisa certa. Pela salvação de todos aqueles no Brasil e além ultrajados pelo tratamento do Irã com as mulheres, gays, minorias religiosas, jornalistas independentes, ativistas estudantis e organizadores sindicais, faça a coisa certa. Pela salvação da consciência do Brasil e de seu exemplo ao mundo, faça a coisa certa.
Ou, no mês próximo será o tapete vermelho, a mão estendida, o sorriso cativante, o abraço caloroso, os tratados assinados, e a promessa de ligações mais próximas com Irã?
Senhor Presidente, enquanto ainda há tempo, eu peço urgentemente ao Senhor reconsiderar, faça a coisa certa.
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David A. Harris é Diretor Executivo do American Jewish Committee
Tradução livre: Alberto Milkewitz