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Coordenado pela Profa. Lyslei Nascimento (UFMG) e Nancy Rozenchan (USP), este simpósio receberá propostas de comunicações que elaborem reflexões teóricas e críticas sobre as mais variadas formas de textualidades judaicas na contemporaneidade.

A tradição judaica, com todas as suas nuances e diversidade, oferece uma importante e múltipla oportunidade de se analisar a literatura, em várias de suas manifestações, na atualidade, bem como as relações da literatura com a tecnologia, com outros textos como o cinema, a fotografia, a cibernética e as artes visuais e gráficas.

Os valores literários, considerados imprescindíveis, que Italo Calvino elencou em Seis propostas para o próximo milênio (1991), a saber: a leveza, a exatidão, a multiplicidade, a rapidez, a visibilidade e a consistência – são alguns dos operadores capazes de delinear, em vários níveis, a inscrição dessa tradição na contemporaneidade, sua incidência e estratégia de enunciação.

Das tábuas da Lei às telas do computador, como apontam Regina Zilberman & Marisa Lajolo (2009), a relação dos judeus com as palavras, é paradigmática. Da materialidade do suporte e da mídia sobre a qual se instala a produção literária, metáforas sempre atualizadas da arqueologia, da genealogia, da tradução, da tradição dos manuscritos e palimpsestos, passando pelo hipertexto e pela invenção de realidades virtuais, a textualidade judaica também põe em cena o escritor e sua representação, nem sempre cordial ou submisso, com o ofício da literatura.

Copistas, cronistas, demiurgos e magos das palavras, esses criadores de textos, autorizados e não autorizados, exibem, em suas peculiaridades, tensões entre a autoria, a cópia, a repetição, a diferença. Em recente publicação, Amós Oz & Fania Oz-Salzberger (2015) distinguem a controvérsia, a ironia, o autoexame, os muitos exílios, as diásporas e a Shoah, além de uma particular relação com a memória, como estratégias discursivas em que a experimentação de estilos, de gêneros, de autorias, configuram uma linhagem de textos, que exibe, em sua diversidade, vozes, lugares e formas de inscrição que põem em relevo uma tradição literária criativa e criadora.

Essas características revelam a interatividade, a escrita hipertextual, a construção de identidades, memórias e realidades virtuais que ressignificam não só a escrita, mas o corpo, o objeto livro, os manuscritos e as telas. Lendas como a do Golem, como um duplo e um espelhamento de criadores e criaturas, a relação do autômato com a monstruosidade, os ciborgues e a tecnologia; ou a de Lilith e as questões de gênero, deixando vislumbrar o estranhamento diante do feminino, por exemplo; a reelaboração de mitos da criação e a relação com a escrita e outros tantos temas caros à reflexão presente na ficção se perpetuam no contexto judaico e migram para outros espaços revelando vitalidade e abrangência.

Os contos em microrrelatos ou em prosa poética; o romance enciclopédico e a estrutura narrativa linear ou em curto-circuito com verbetes e fragmentos; a poesia digital e a dicção bíblica, bem como os gêneros híbridos, o inacabamento, a tradução e o diálogo entre as artes, só para citar algumas dessas manifestações das textualidades judaicas na contemporaneidade, estão presentes numa literatura que trabalha com uma tradição que é, ao mesmo tempo, arcaica – com seus símbolos e metáforas milenares – mas também
contemporânea, na medida em que se inscreve, em suas mais variadas formas, no tempo atual.

O acervo judaico é, nesse sentido, como o Aleph, no conto célebre de Jorge Luis Borges, espaço e tempo de convergências, tensões, duplos e fantasmagorias. Para Ricardo Piglia, a memória é a tradição. No caso da memória judaica, feita de uma proverbial tradição de comentários e interpretações, os textos se configuram como uma pré-história contemporânea, como vestígios de um passado que se filtram no presente a partir de uma concepção de leitura e escrita cada vez mais ampla e difusa. Delineia-se, dessa forma, um noção de arquivo enquanto um conjunto de bens culturais e práticas discursivas que instauram enunciados como acontecimentos continuamente reorganizados, traduzidos e revisados.

O modo de ação do escritor, nesse contexto, lendo e relendo o acervo judaico, um arquivo, portanto, que o antecede, implica estabelecer estratégias para entrar e sair da tradição, para propor ao leitor um jogo de transmissões, de retomadas, de citações. Constituídas por vestígios de cultura, de onde se retiram fragmentos dispersos, essas textualidades podem alcançar desfechos não previstos. Nesse sentido, o que se acessa não é mais uma tradição imaginada como coesa como um todo coeso, mas um rastro, um recorte, vários recortes, que se inscrevem na contemporaneidade pela invenção.

O prazo para inscrição no simpósio Textualidades Judaicas Contemporâneas, que ocorrerá de 19 a 23 de setembro na UERJ, Congresso Abralic, encerra-se, no sábado, dia 04 de junho. Informações: lyslei@ufmg.br e http://www.abralic.org.br

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