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por Rabino Dr. Ruben Sternschein – Embora uniões geralmente sejam vistas como fortalecedoras de vínculos e das partes envolvidas em si, e as separações geralmente insinuam conflitos, e enfraquecimentos, nem sempre elas são exatamente assim.

Associações comerciais, políticas, até familiares e conjugais mostram uma e outra vez que em muitos casos acontece o contrário. Sócios que se separam às vezes acabam se fortalecendo individualmente e melhorando também o vínculo na distancia, que impede o atrito constante.

Na bíblia tem o famoso caso de José e seus irmãos, que encontraram a paz e o entendimento apenas quando se reencontraram após o distanciamento de anos, bem como o pai deles , Jacó, e com seu irmão, Esaú, que apenas no reencontro, vinte anos após a quase luta a morte, se abraçaram, se beijaram e choraram, enquanto que cada um insiste em dar ao outro, parte da fortuna e do poder adquiridos, pelos quais lutavam no passado.

Na parashá da semana, acontece algo parecido.

Abrahão e seu sobrinho Lot, cresceram muito em poder e bens, os pastores de um brigaram com os do outro pelo espaço. Abrahão propôs uma separação geográfica dizendo: “por que haveria uma briga entre nós que somos seres irmãos”. Assim, Lot foi com seu poder a Sodoma e Abrahão fica em Beersheva. O vinculo se salva, tanto que Avrahão mais tarde arrisca tudo, discute com Deus e participa em guerras, para salvar seu sobrinho.

O Brasil vive um momento de extrema polarização. A disputa política se afasta mais e mais de uma rivalidade, para se tornar uma adversidade total e existencial. O outro é demonizado, visto com roupas monstruosas e diabólicas, como um inimigo tão perigoso que deve ser destruído.

Uma sociedade com o tamanho e a diversidade brasileira não pode nem pensar em querer separações que só seriam marginalizações e perseguições. A base do convívio entre diferentes se encontra além da tolerância, no pluralismo. Na premissa de que existem realidades complexas para as quais mais de uma resposta pode ser verdadeira e boa, inclusive respostas e modelos opostos.

O judaísmo, ao menos na sua leitura liberal, sustentou sempre a bandeira desse pluralismo capturado na frase talmúdica elu veelu divrei Elohim chaim “umas como outras são as palavras do Deus vivente”, isto é, para que se trate de uma divindade viva, as palavras precisam ser diversas, a verdade plural.

É claro, isto tudo é possível se realmente ambas as partes e todos os representados acreditam sinceramente nos direitos do outro, a uma vida digna e a um pensamento livre. Se valorizam a diversidade. Se a democracia e as liberdades de todos são uma premissa indispensável.

Durante, e especialmente após, o segundo turno, estes conceitos serão a base que determinará grande parte da qualidade de nossa vida e identidade no Brasil.

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