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Formais os judeus sefaradís levam a sério a arte do saludo. Desde a época que nas noites de sexta feira acompanhava meu sogro no Cabalat Shabat ficava intrigado com os salamaleques que os conhecidos trocavam entre si. Uma espécie de senha secreta oriental que os diferenciava e unia. Passe chave para ser aceito no seio do seu reduto.

Aos poucos fui me soltando, provando vários tipos de saudações possíveis, até encontrar uma que tivesse minha personalidade. Mais tarde descobri nuances fundamentais, para um rabino importante se traz a mão mais perto ao coração, uma pessoa querida se leva a mão para cima e se chacoalha algumas vezes, para um conhecido qualquer basta um mero movimento de mão, quase displicente.

Com pratica as técnicas pessoais vão se desenvolvendo e o movimento passa a ser automático, como se não existisse outra forma de saudar a comunidade. Interessante que em ambientes públicos o salamaleque aproxima e garante a irmandade, como se fossemos uma espécie de maçons.

O movimento ganha por vezes ares absurdos, que beira o exagero e provoca situações cômicas e embaraçosas, trazendo de volta as pessoas para uma realidade anterior ao tempo do pomposo salamaleque. O Seu Abraão me olhou e começou a rir. Incrédulo, perguntei se podia ajudar.

Estávamos no intervalo entre o minchá, reza da tarde, e o arvít, reza da noite, e ele me olhando rindo. Lacrimejando de tanto rir me perguntou quem era o homem bem apessoado que estava comigo na sexta feira a noite durante o Cabalat Shabat. Contagiado pelas lagrimas de riso do Seu Abraão expliquei que se tratava do tio da minha esposa que viera do Brasil nos visitar.

Rindo cada vez mais, me dizia que meu tio tinha um ar muito digno, de pessoa importante. Concordei, uma vez que o Sonny realmente possui uma elegância impar.

“Estava no meu lugar, o seu tio se aproximava e fazendo um salamaleque esquisito, olhei para os lados para ver se realmente era comigo, mas fora você não tinha mais ninguém. Como se via uma pessoa importante retribui a saudação. Ao invés de tradicionalmente levantar a mão direita, ele juntava ambas as mãos me mostrando as palmas e as sacudia. Continuou o Seu Abraão, não sou frequentador assíduo, voltei às rezas faz pouco pelo falecimento de minha querida mãe, não conhecia esse novo tipo de saludo, mas percebendo a insistência do desconhecido em saudar-me daquela maneira esquisita, por respeito, imitei gesto. Unia as mãos mostrando as palmas e chacoalhava, repetindo os movimentos do seu tio. A coisa prosseguia, ele fazia o gesto e eu repetia como um infinito salamaleque nipônico. Seu tio foi se acercando e fiquei preocupado, explodindo de rir continuava o Seu Abraão a narrar sua anedota. Quando seu tio chegou próximo, confesso que já estava ficando irritado, mas ele repetiu o cumprimento e perguntou-me onde podia conseguir um livro de reza. Finalmente entendi que o gesto mostrava um livro fictício com as palmas da mão.”

Hoje em dia quando por vezes encontro o Seu Abraão de longe nos cumprimentamos com o nosso salamaleque secreto sempre acompanhado de um sorriso de cumplicidade que seguramente causa uma sensação entre os convivas. É possível que algum dia, sem querer, o nosso gesto secreto seja inadvertidamente adotado e entre em uso pela comunidade como uma variação exótica da arte de se cumprimentar.

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