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Um texto do livro de Berl Katzenelson
REVOLUÇÃO E TRADIÇÃO (1934)

Katzenelson foi um líder sionista socialista trabalhista, um dos criadores do Poalei Tzion – Mapai, criador e dirigente da Histadrut – a poderosa Confederação dos Trabalhadores de Israel, um dos dirigentes de Partido Trabalhista de Israel, companheiro de Ben Gurion e Itzhak Ben Tzvi, dos primeiros dirigentes para a criação de Israel, mas falecido em 1944. Do seu livro de 1934, extrai-se um pequeno trecho útil e mesmo atual.

“Gostamos de nos chamar de rebeldes – mas permitam-me perguntar, ‘Contra o que nos rebelamos? É somente contra a tradição de nossos pais?’ …Muitos dos nossos predecessores fizeram exatamente isso. Nossa rebelião é também a revolta contra muitas rebeliões que nos precederam. Nós nos rebelamos contra a adoração dos diplomas entre a nossa intelligentsia. Nos rebelamos contra os desenraizados, os comerciantes e atacadistas, e não somente na forma em que surgiram no velho modo de vida judaica; nos rebelamos, também, contra a sua versão moderna, contra os comerciantes e desenraizados intelectuais judeus, nacionalistas e internacionalistas, que achávamos mais perniciosos do que as primeiras manifestações dessa doença.

Nos rebelamos contra a utopia assimilacionista da velha intelligentsia socialista judaica. Nos rebelamos contra a subserviência e pobreza cultural do Bund. Ainda estamos com a tarefa de treinar nossa juventude a se rebelar contra a ‘subserviência dentro da revolução’ em todas as suas formas – começando com aqueles judeus que eram tão escravos da Revolução Russa, que até mesmo fizeram proclamações de pogroms em nome da revolução, incluindo o Partido Comunista Palestino de nossos dias, que age em aliança com os pogromistas de Hebron e Safed. (referindo-se aos massacres de Hebron e Safed de 1929. Lembramos que o livro é de 1934. NT).

Existem muitos que pensam sobre a nossa revolução de maneira mais simples e primitiva. Vamos destruir o velho mundo completamente, vamos queimar todos os tesouros que ele, (o velho mundo), acumulou através dos anos. E vamos começar um novo – como bebês recém-nascidos! Há uma ousadia e força de protesto nesta abordagem. De fato, houve, realmente, muitos revolucionários que assim retrataram os dias do Messias. Mas é duvidoso se esta concepção, que procede em total inocência para renunciar a herança dos anos passados e propõe começar a construir um novo mundo do chão para cima, seja realmente revolucionária e progressista, ou se está implícito, com ela, uma profunda e sinistra força revolucionária. A história nos fala de mais de um velho mundo que foi destruído, mas os que surgiram sobre suas ruínas não foram mundos melhores, mas absoluto barbarismo…

As pessoas são dotadas com duas faculdades – memória e esquecimento. Não podemos viver sem ambas. Se só existisse memória, ficaríamos esmagados sob seu peso. Tornar-nos-íamos escravos para com as nossas memórias, para com nossos ancestrais. Nossa fisiognomia seria, então, mera cópia das gerações precedentes. E, se fossemos governados inteiramente pelo esquecimento, que lugar se teria para a cultura, ciência, autoconsciência, vida espiritual? O arquiconservadorismo procura nos privar de nossa faculdade de esquecimento, e o pseudorevolucionarismo considera cada lembrança do passado como um ‘inimigo’. Mas, se a humanidade não preservasse a memória de suas grandes conquistas, nobres aspirações, períodos de florescimento, esforços heroicos e sonhos por liberdade, então nenhum movimento revolucionário seria possível. A raça humana teria estagnado em eterna pobreza, ignorância e escravidão.

O movimento revolucionário primitivo, que acredita que a destruição impiedosa é a cura perfeita para todos os males sociais, nos lembra de uma das muitas manifestações de uma criança em crescimento, que demonstra sua superioridade sobre as coisas e curiosidade sobre a sua estrutura, quebrando seus brinquedos. Uma geração nova e criativa não joga no lixo a herança cultural de anos. Ela examina e escrutina, aceita e rejeita. Algumas vezes pode manter e acrescentar uma tradição aceitável. Algumas vezes ela desce nas grutas para escavar e remover as terras que as cobriram de esquecimento, para ressuscitar velhas tradições que têm o poder de estimular o espírito da geração de renovação. Se a pessoa possui algo velho e profundamente interessante, que pode educar o homem e prepara-lo para suas tarefas futuras, será realmente revolucionário desprezá-lo e ficar alheio a tudo isso? …..

(…) O Ano Judaico inclui dias que possuem profundos significados, sem paralelos noutros povos. Seria vantajoso – seria um objetivo – para o movimento trabalhista judaico jogar fora o valor potencial neles existentes? Os assimilacionistas fogem de nossos feriados como obstáculos no seu caminho para submergir entre a maioria, porque têm vergonha de tudo que poderia identifica-los como um grupo distinto – mas porque devemos embarcar nessa tradição? Os burgueses assimilacionistas e o Iluminismo, e até mesmo o socialismo judaico que seguiu nesse despertar, não descartaram muitos valiosos elementos da doutrina social contida na nossa tradição? Se somos, de fato, sionistas socialistas, não somos autorizados a proceder como tolos animais a acompanhar cada estúpida tradição, só porque ela chama a si mesma de ‘moderna’ e não é consagrada pelos tempos. Devemos determinar o valor do presente e do passado com nossos próprios olhos e do ponto de vista de nossas necessidades vitais e do ponto de vista do progresso de nosso próprio futuro.

Tomemos alguns exemplos: Pessach, a páscoa judaica. Uma nação tem, por milhares de anos, comemorado o dia do seu êxodo da casa do cativeiro. Através de todas as dores da escravização e despotismo, da inquisição, conversões forçadas e massacres, o povo judeu carregou no seu coração o anseio pela liberdade e deu a essa ânsia uma expressão do povo que inclui cada alma em Israel, cada único oprimido e cada alma pauperizada!

… Não conheço nenhuma criação literária que possa produzir maior ódio à escravidão do que a história do cativeiro e do êxodo do Egito. Não conheço outra fonte de lembrança do passado que possa significar tão completo símbolo de nosso presente e futuro como a ‘memória do êxodo do Egito.’

E Tishá be Av. Muitas nações se acham escravizadas e muitas até tiveram a experiência do exílio… Israel sabe como preservar o dia de fazer velar, chorar, a data de não deixar a perda da liberdade cair no esquecimento…Nossa memória nacional foi capaz, dentro desse muito simples entendimento, fazer cada alma judaica, em todo o mundo, sentir a tristeza de velar, no mesmo dia e na mesma hora…

Enquanto Israel estiver disperso e vítima de perseguições e ódios, para desprezar e enfrentar conversões forçadas como no Iêmen, na Ásia, Argélia, na África e Alemanha, na Europa – ou mesmo gozando da emancipação comprada por meio da assimilação na França capitalista e na Rússia comunista – eu nunca esquecerei, eu nunca poderei esquecer o mais trágico dia de nosso destino – o dia de nossa destruição. …

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