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Difícil ultrapassar o branco da página. O coração em carne viva. O vermelho do sangue mistura-se no vocabulário. A mão atinge a mesa. Bate com uma força que tem pouca força física. A força vem cá de dentro. Tem o mundo.

Depois, outra mão escreve as biografias das vítimas, os seus nomes e idades, idades com o tempo da Shoah, com o tempo de todo o tempo. Vítimas sem vida num lugar de vida. Mortos. Assassinados. Tiros, muitos, e muitas balas no peito de quem apenas rezava.

Um monstro com um fuzil semiautomático e três pistolas. Era Shabat e um bebé entrara na Aliança. Carregado de pólvora de ódio irrompe a tefilat. A voz do mal, uma voz que nos quer muito mal, quer-nos no cemitério, é uma garganta que está sozinha no acto e acompanhada à distância com os aplausos dos compadres.

Abriu a goela para dizer que nós, os judeus, não merecemos viver. Podem nos matar que viveremos sempre. Viveremos além da vida. Os nossos mortos são os nossos epitáfios.

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Miriam Assor
Miriam Assor, jornalista e escritora, nasceu em Lisboa em 13 de Junho de 1966, no seio de uma família judaica ortodoxa. Uma visita aos campos de concentração nazis, em 1985, fá-la trocar o curso de Psicologia Aplicada e a cidade pela vida comunitária dos kibbutz e pelo voluntariado, em Israel. É autora de vários livros e colabora em diversas mídias.