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por Rabino Dr. Ruben Sternschein (CIP) – No momento de escrever estas linhas, Israel está celebrando mais uma vez sua extrema democracia, escolhendo seu próximo governo. Como aqui, no calor das disputas perdem-se profundidades importantes.

A superficialidade da mensagem rápida e a vontade de deslegitimar o adversário, acaba criando incertezas e enganos. Parece como se ”esquerda” fosse todo o mal e “direita” todo o bem. Embora ambos conceitos guardem um enorme histórico de tragédias e alguns acertos.

Mais uma vez o estilo direto típico da cultura e dos modos israelenses esquenta as campanhas e embora promova clareza nas mensagens, ele esbarra também na invasão e os ataques à vida privada.

Qual o limite entre o “direito do público a conhecer verdades” e o direito dos indivíduos à privacidade e à liberdade para administrar sua reputação?

A parasha da semana detalha o estrato mais antigo das leis para contraentes de uma doença estranha chamada de Tzaraat. Ela atacava pele, roupas e paredes, segundo a descrição bíblica. Os comentaristas a associaram a uma metáfora da “má língua”.

A doença, como o mexerico, começa no interior de alguém e acaba impregnando uma pessoa, uma família e talvez até um grupo, um bairro, um local, uma sociedade, um país. E viceversa. Às vezes uma fala, uma piada popular, uma imagem caricaturizada, uma roupa ou aparência, um imóvel onde alguém habita, acabam penetrando as maiores profundezas das almas dos indivíduos.

Análises rabínicas de épocas diferentes, fazem questão de focar em dois aspectos. Por um lado, a importância de cuidar da privacidade. Adverte-se a responsabilidade de quem procura uma informação sobre outros, de quem a obtem por meios diretos ou não, de quem a divulga, de quem a escuta. Todos são vistos como responsáveis de certa invasão. Pois a reputação poderia influenciar a verdade. Inclusive da essência da vítima. Muitas vezes mudamos de atitude em função do que está sendo ou pode ser visto ou dito de nós, mais do que por própria convicção.

Por outro lado, os comentaristas enfatizam a importância de que a determinação da “infecção” seja externa, isto é, uma instância objetiva, alheia à própria pessoa, e reconhecida como autoridade, é quem irá determinar se ela contraiu a doença e se deve tal ou qual afastamento momentâneo. Ou seja, existe sim uma necessidade de “objetividade” no cuidado com o bem comum, e o indivíduo não pode ser o único parâmetro de tudo.

Em outras palavras, por um lado deve se respeitar a privacidade para garantir a liberdade da pessoa de escolher o que dela se vê e se sabe. Para determinar dentro de si, quem ela é. Por outro lado, existe um interesse legítimo do entorno de conhecer verdades que poderiam repercutir na vida do coletivo. Especialmente em se tratando de figuras públicas que decidem e servem de exemplo.

Entre estes dois lados, acredito que o valor mais sublime encontrar-se-ia na busca livre e digna pelo bem e pelo verdadeiro. Indivíduo e sociedade precisam garantir um entorno que permita procurar o que verdadeiramente acredita cada um como o bem para todos, e não ser forçado pelas aparências.

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