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A pobreza era grande entre os judeus na Praça XI. Moravam em casas de vila, cortiços. Muito pouco restou de tijolos e cimento, mas ficou a valiosa contribuição daquele punhado de imigrantes para o desenvolvimento do Brasil.

No tempo dos bondes, uma pujante comunidade judaica floresceu nas proximidades da Rua de Sant’Anna, estendendo-se desde os arredores do local hoje conhecido como Saara (Sociedade dos Amigos da Rua da Alfandega e Adjacencias), até o entôrno da Rua Joaquim Palhares na Praça da Bandeira, às margens da Av. Presidente Vargas.

Era relativamente em muito similar a um shtetale, as pequenas aldeias da Europa Judaica que não existem mais, e que o genial escritor Sholem Aleichem com o nome de Anatevka criou e o cinema aproveitou, consagrando sua obra sob o titulo Um Violinista no Telhado. Na Praça XI havia sinagogas, bibliotecas, clubes, acougues kasher, galinheiros com abate ritual, a venda idish (Frigele), botequins e restaurantes judaicos, até mendigos judeus.

Hoje, em um dia calorento do inicio de 2019, retornamos a antiga Rua Julio do Carmo, atual Clementino Fraga Filho. Já não há mais bondes, nem fileiras de antigos sobrados, em meio a prédios daquela época – Light, Ministério da Guerra, Central do Brasil, Bombeiros. Testemunhas do passado em que alegrias e tristezas se misturaram. Lembrança de tempos duros, da face horrenda do anti-semitismo oficial.

A Julio do Carmo se estendia desde a General Caldwell até a antiga zona do baixo meretricio, demolida nos anos 70, onde hoje existe a Cidade Nova, com a sede da Prefeitura, cujo alcunha recorda aqueles tempos (Piranhao), e inúmeros edificios de alta tecnologia nem sonhados no tempo daqueles piedosos judeus que ali residiam.

Hoje muitos nem gostam de lembrar onde moravam … afinal talvez não fique muito bem a ilustres magistrados dizerem que seus pais e avós moravam às portas da zona … nem a prestigiados cirurgioes, empresarios, intelectuais de todos os matizes… pois tantos deles andaram por ali de pés descalços, chutando bolas de meia pela rua…

As extensas demolições nao permitem mais que hoje possamos recordar o antigo casario. Viadutos foram construidos, ruas cortadas ao meio, quarteiroes inteiros despareceram, a enorme garagem dos bondes da Machado de Assis, se nem a propria rua existe mais, endereço que foi de tantas familias de cujo seio sairam famosos profissionais, medicos, engenheiros, cujos nomes por vezes complicados, povoados de multiplas consoantes, adornam portas de escritorios em predios ditos “nobres” de Ipanema e Leblon. Aonde chegaram aquelas crianças…

O fenômeno ocorreu em todo o mundo. De Toronto a São Paulo, de Buenos Aires a Nilópolis, Nova Iorque. Os antigos bairros judeus tem agora novos inquilinos. As sinagogas viraram igrejas, prédios públicos, ou simplesmente desapareceram. Já não se ouve mais o yiddish nas ruas, nas lojas.

Não mais as reuniões das manhãs de domingo na pracinha diante da Igreja de Sant’Anna. O Metrô se encarregou de destruir novamente o pouco que restou das ruas que já tinham sido destruidas para dar lugar à Av Pres VArgas. O Centro de Manutenção e a Estação Central sepultaram definitivamente a historia da Praça XI Judaica, e as sinagogas que por ali existiram.

A Passarela do Samba tambem liquidou mais um pouco da memoria judaica, o predio dos Correios, do Arquivo da Cidade, o Centro de Operações, enfim, uma profunda renovação urbana. As cidades são como amebas, que lançam seus tentaculos por toda parte, em uma agitação infernal.

E foi com esse quadro em mente, que me dirigi ao modernissimo predio de O GLOBO, na Rua Marques de Pombal, para uma entrevista. Terminada a atividade, à saida nao resisti. Intuitivamente, meus passos me levaram à procura da Yiddishe Avenide. Demorei um pouco a localiza-la. Tudo estava tão mudado… mais um pouco e localizei a famosa Vila Alberto Sequeira, o nome do engenheiro que a construiu, com suas 70 casas.

Estático diante da vila, nao pude deixar de me emocionar, ali onde meu saudoso genitor, Avraham Avigdor haLevy, Z”L, havia sido trazido pelas maos de uma familia de Ostrowiec, seus landsman, procedente da Ilha das Flores e do Relief na Joaquim Palhares, em cuja casa já apertada foi acolhido como mais um. Daquela familia sairam destacados nomes hoje muito badalados…

O jovem Abram, de apenas 19 anos, chegou sozinho no vapor Asturias, tendo se perdido pela entao bela alameda ao longo de bucólico canal ladeado de palmeiras, hoje de águas negras de tão poluido, atual Av Pres. Vargas. Era dezembro de 1929. Sua avó dizia que Avrumtchik havia partido levando a sorte embora, eis que acabava de ocorrer o crack da Bolsa, arrastando com ela as fortunas da familia, na Polonia sofrida e gelada.

Segundo meu pai, de noite as camas ali andavam sozinhas, tamanha era a quantidade de percevejos… Em cada quarto dormiam 4, 5 pessoas, em vagas alugadas, e de manhan, uma fileira de clientelktchiks saia da vila em direção aos suburbios, para trabalhar klientele. Tinham que ir de terno, para poder andar na primeira classe dos bondes … o calor e a alimentaçao precaria, as vezes apenas algumas bananas, traziam as doenças, que levavam alguns ainda jovens, como se pode ver nas lápides daquela época em Vila Rosaly.

Enquanto isso, aquela que viria a ser minha mãe, Perla Langier, Za”L, desembarcava em 1933 com seus pais e irmaos, indo morar ali perto, na Rua do Senado, em um sobrado com quintal, de onde anos depois eu criança me maravilhava observando as torres do Grande Templo por cima do telhado da CIPAN, hoje KIA Veiculos. Algumas vezes ia com minha avó Sura Rajzla pagar o aluguel, e quem recebia … nada menos que afamada Madame, em sua mansão de Botafogo, familia que era dona de muita coisa importante na cidade.

A vila já não é mais aberta, só se tem acesso mediante identificação pelo interfone. Fico por ali contemplando o portão. Um antigo morador chega e me pergunta se eu morei ali. De vez em quando aparecem antigos moradores para uma visita saudosa, diz ele. Solícito, me conduz pelas alamedas, identificando quem morou em cada uma daquelas casinhas. Nesta morou um rabino, diz. Na escavação de uma obra, acharam algo que poderia ter sido uma mesa funebre, segundo pensa. Naquela outra mora a filha do ultimo judeu que residia na vila.

No passado, a vila me parecia imponente. Na decada de 70 ainda havia alguns judeus morando ali. A rua era animada, movimentada. Hoje a vila parece pequena, as casinhas minusculas, os arredores deteriorados, com uma delegacia, a 6ª. DP, um pequeno quartel da PM, um borracheiro, carros estacionados tomam toda a rua, que agora nao tem mais saida, com os fundos da Escola Calouste Gulbenkian escurecendo e enfeiando ainda mais o ambiente.

Todos eram pobres. A fraternidade, a tolerância que os imigrantes aqui encontraram pavimentou seu caminho para um futuro melhor. Como teria sido bom se tivessem desparecido as desigualdades, com oportunidades para todos. Mas foi assim apenas para alguns.

Ao deixar a vila, desponta a esquina da movimentada Rua Marques de Pombal. Parece que acabei de sair de um outro mundo. E é isso mesmo, de um mundo que acabou, mas cuja historia não deve ser esquecida pelas novas gerações.

Diante de nós, os predios modernosos do O GLOBO dominam a paisagem. Perdido em meus pensamentos, com um nó na garganta e muitas saudades, caminho sem destino pelas ruas onde um dia efervesceu a vida judaica no Rio de Janeiro…

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Israel Blajberg
Há 10 séculos seus antepassados paternos saíram de Bleiberg, na Carinthia (Áustria), firmes como o chumbo (Blei) e imponentes como a montanha (Berg), entrando na Polônia sob o Grande Rei Kazimierz. Teve a honra de ser o primeiro Blajberg nascido no Brasil (Rio de Janeiro, 1945), estando hoje a família na terceira geração verde-e-amarela. Professor da UFRJ e UFF e Engenheiro do BNDES, aposentado em 2015. Palestrante e Autor de livros e artigos sobre Historia do Brasil, Militar, Judaica, Genealogia e Viagens. Membro das Ordens do Mérito da Defesa, Naval, Militar e Aeronáutico, e Medalha Pro-Memoria da Republica da Polônia.