Pessach para todos os êxodos do mundo

Pessach para todos os êxodos do mundo

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O apego ao território pode ser doloroso. Transitar entre fronteiras nunca foi fácil. Um dia, pode ser preciso deixar tudo. Da tarde para a noite. Se o desterro é involuntário, o abandono pode ser voluntário.

É o momento no qual todas as identidades são julgadas como uma só. Sabe-se da nebulosidade dos dias deixados para trás, da atmosfera que está adiante sem que ninguém possa prever nada.

Renunciar às ancestrais marcas gravadas é deixar um inconfundível rastro de descontinuidade. O sonhos dos imigrantes não é similar aqueles dos nativos. O sonho do imigrante é abrigar-se da insuportável pressão que risca o solo. Quem vai e quem fica?

Sair de uma terra que não é sua é vagar na inconstância, não reconhecer as encostas, estranhar as margens, e num último passo, romper com as barreiras sanguíneas para estranhar as familiaridades. Desconhecer-se em lugares estrangeiros é migrar ao desconforto.

Estranha-se o solo, cambia-se de margem e o mar fixa-se como a miragem ultrapassada. O percurso requer milagres, da natureza, dos outros homens, de um Deus que, mesmo invisível, costuma ser convocado para ações concretas. O primeiro Êxodo, já se intuía, não seria o último.

Vagar, parece, é errar em particularidades, o avesso das estabilidades. E o destino é um nômade sem líder. Aquele que faz extraviar com o sorriso da convicção. Arriscar a sorte é rebelar-se contra o império do senso comum. É passar ao largo das opiniões formais, é destituir a eloquência, que, pasteurizada, muda o tom sem imaginação.

O deserto te parece hostil? A areia te desmancha o passo? Este é o ponto em que se pode aceitar que, talvez, não haja mesmo escolha. É provável que toda trilha de vida contenha ao menos um êxodo.

E a marcha dos milhões deslocados recomeça todos os dias. Ainda que nunca tenha havido uma cronologia para o exílio o que está garantido é a fração de um outro tempo. Quem é expulso precisa de refugio? Encontraremos uma trajetória até que cada um alcance uma Canaã pessoal? A terra prometida do singular? O mundo é um lugar tenso e nunca se sabe bem qual será a rotação das birutas.

Mesmo assim, sob o chicote do tempo inacabado, continuamos na migração possível. Num parque que não nos informará a distância até o fim. Só os escravizados conhecem a opressão. E, mesmo eles, não detectam a tirania ou a mão que costuma redigir e escrever os decretos que revogam a liberdade.

Reféns da guerra autorenovada, estamos sendo substituídos por máquinas programadas para não sentir o tempo. O Oriente recusa-se a aceitar os artifícios de uma era que sonha apagar os pertencimentos. Como se todos os registros pudessem ser obsoletos.

É então que as emancipações são canceladas. Viraríamos, resignados, coleções que jamais comportariam singularidades. A política mudaria para o acaso, e o afirmativo geraria simulacros de tolerância. Ou, a renúncia cansativa pelas derrotas ininterruptas. Por isso e para isso, a evolução nos impôs a memória. Genética ou não, eis a única força com potencial regenerador. Ai poderia estar a importância da mesa posta com lembranças.

O menu histórico é constituído por reais de sujeitos. Histórias com desdobramentos que, se implausíveis, preservariam a beleza do mundo. O convívio. O primeiro Êxodo, o do Egito, depois repetido no Shoah, apreciado de longe, deve funcionar hoje como inspiração para os povos forçados a atravessar desertos inacabados.

Hoje, diante de gerações expostas a mais um ciclo de nebulosidade venenosa, restaria pedir perdão. Nem isso faremos. Estes amanhãs de erros antigos que os não Estadistas nos reservam como herança, podem requerer novas exigências antropológicas. O convívio precisará encontrar um novo significado.

Paradoxalmente, ao enxergar a fumaça que sopra contra a máscara da humanidade, poderemos antever outras conjugações. Desde que contenha o sopro que desloca os vícios da compreensão. Só a criatividade pode rodar a Terra para propor outras formas de vir a ser. Um novíssimo lugar para entender o valor do êxodo, de todos os êxodos do mundo.

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Paulo Rosenbaum
PAULO ROSENBAUM é médico e escritor. Mestre e PhD em ciências, é pós-doutor em medicina preventiva (USP). É autor de "A Verdade Lançada ao Solo" (editora Record). Tem uma coluna semanal em "Coisas de Política", do Jornal do Brasil.