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Os microapartamentos ganham espaço no mercado e dialogam com tendências modernas de estilo e comportamento

por Andre Kamkhaji – Mesmo no período mais agudo da crise, quando o mercado imobiliário amargou queda vertiginosa nos números de vendas e lançamentos, pelo menos um produto permaneceu em alta: estou falando dos microaparamentos, também apelidados de “apartamentos-cápsula”.

Esses imóveis, que em alguns casos exibem a modesta área de 10 m², têm como diferenciais a praticidade – muito importante para quem trabalha muitas horas por dia e usa a própria casa basicamente para dormir – e, em geral, a localização. Em 2017, por exemplo, um empreendimento nesses moldes foi lançado na região central de São Paulo e chegou a ter fila de espera por suas 72 unidades, vendidas a R$ 100 mil e com uma taxa de condomínio de R$ 250.

O perfil do comprador/locatário de um imóvel com área igual ou inferior a 45 m² – a definição “oficial” de microapartamento determina que ele tenha, no máximo, essa metragem – é, basicamente, o de um homem jovem, solteiro, sem filhos, que morou em flats e decidiu investir num apartamento mais adequado às suas necessidades. Também há muitos executivos que passam a semana em São Paulo e retornam para casa, que pode ser em outro Estado ou município, apenas no fim de semana.

Ou seja: o morador das “cápsulas” quase sempre tem renda suficiente para buscar um imóvel maior, mas faz uma opção pragmática pela moradia compacta.

Vale ressaltar que muitas comodidades inviáveis dentro de um apartamento tão minúsculo – máquinas de lavar e secar roupas, por exemplo; ou uma sala de jantar – costumam ser oferecidas em moldes coletivos pelo próprio condomínio. Assim, as lavanderias compartilhadas, os espaços de lazer – com mesas, freezer, churrasqueira – e até academias de ginástica e cozinhas de uso comum acrescentam conforto e ajudam a fazer daquele espaço um “lar”.

No interior da moradia, criatividade e tecnologia aliam-se para proporcionar facilidades e fazer o espaço “render”. A mesa, por exemplo, fica dobrada e presa à parede quando está fora de uso; a cama também é dobrável e pode se transformar em sofá; os armários podem ser dotados de rodas, de modo que possam ser deslocados conforme a necessidade. Racks presos às paredes e prateleiras e gavetas suspensas completam a mobília.

Mas, além da praticidade, existe também um fator cultural, de tendência e comportamento, que ajuda a entender o “encanto” exercido pelos microapartamentos. No Brasil e no mundo, a opção pela moradia “aconchegante” dialoga com outras tendências contemporâneas. Dentre elas, o estilo de vida “hygge” (em dinamarquês, a palavra significa “aconchego, bem-estar”), que preconiza um dia a dia mais simples, com mais contato humano e menos apego ao acúmulo de bens e objetos. Neste sentido, casais jovens e sem filhos também começam a olhar com mais interesse para os imóveis compactos, que, em tese, favoreceriam a proximidade.

Ainda na linha das tendências que se entrelaçam, muitos condomínios focados em apartamentos cápsulas também disponibilizam espaços dedicados ao coworking, que são espaços de trabalho compartilhados. Em São Paulo, existe pelo menos um exemplo de empreendimento com essa característica. A solução é sob medida para profissionais que, eventualmente, queiram fazer home office ou realizar reuniões de trabalho “em casa”, mas não teriam a menor condição de tentar acomodar a todos dentro da minúscula moradia.

Uma coisa é certa: os apartamentos cápsula vieram para ficar, e constituem excelente opção de investimento desde que sua localização seja privilegiada e o condomínio tenha sido planejado com a excelência necessária.

Andre Kamkhaji é especialista em investimentos imobiliários e sócio da assessoria financeira Union National.

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