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Professor de Relações Internacionais do Mackenzie também alerta que medida intermediária contraria consenso internacional e posição histórica do Brasil

por Mauricio Fronzaglia – Em visita a Israel nesta segunda-feira (01), o presidente Jair Bolsonaro estabeleceu um escritório em Jerusalém para a promoção do comércio, investimento, tecnologia e inovação, uma célula que já existe na embaixada brasileira em Tel Aviv. A embaixada, no entanto, será mantida na cidade, contrariando a proposta inicial de mudar toda a representação brasileira para Jerusalém, o que significaria reconhecer a soberania de Israel sobre a cidade internacional.

Ainda que o recuo tenha desapontado o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o governo brasileiro ainda não descartou consumar a mudança total da embaixada. No entanto, a medida gera crítica.

Desde que a hipótese veio à tona, ainda durante a fase transitória da equipe de governo, a Liga Árabe demonstrou repúdio à nova posição brasileira, o que pode interferir no comércio entre Brasil e países do Oriente Médio. Em 2018, a balança comercial dessa relação rendeu US$ 3,9 bilhões, enquanto as trocas com Israel apresentaram um déficit de US$ 848 milhões.

De acordo com Mauricio Fronzaglia, professor de Relações Internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a ação intermediária feita pelo governo brasileiro desagrada as duas partes: “Ao abrir só um escritório de representação comercial, o presidente consegue desagradar os dois lados; a base eleitoral brasileira [que demonstra apoio à mudança da embaixada], a comunidade judaica e também os árabes que veem nisso uma ofensa”.

Além de possíveis retaliações vindas de países árabes, segundo o especialista, a decisão também contraria a posição histórica do Brasil – pela presença do diplomata brasileiro Osvaldo Aranha, que presidiu a Assembleia de 1947 – que “sempre defendeu a coexistência pacífica e nunca defendeu um lado só”.

“Pela resolução, Jerusalém seria uma cidade internacional e não administrada por nenhum dos dois”, completa Fronzaglia.

Mauricio Fronzaglia é especialista em Política e Relações Internacionais e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Está disponível para entrevistas.

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