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O Sr. Hilel está entre os primeiros a chegar para o serviço da manhã, dificilmente depois da terceira ou da quarta pessoa.

Um tradicionalista nos seus quase oitenta anos, têm seus trejeitos. Magro, balança um pouco ao caminhar, possível fruto de uma rigidez que vem com o passar do tempo.

Entra na pequena sinagoga ainda de madrugada antes que a grande maioria, e tem seu ritual. Busca um livro de reza, arruma os moveis e os arredores da bagunça dos “shiurim” da noite anterior.

– Pessoal sem cabeça…

Indignado deixa escapar alto um rancoroso – “Tzadikim de araque”.

Coloca a “coracha” frente ao lugar onde costuma sentar-se e rapidamente se levanta. Irrequieto antes das cinco da manhã vai de lá para cá, saí e entra várias vezes do recinto.

Suponho que ainda esteja ativo profissionalmente. Vez ou outra desaparece por uns tempos, quando segundo entendo, vai para o oriente em busca de novos fornecedores. Compra sua mercadoria diretamente de fabricas de alimentos. Podemos escutar seus relatos aos amigos contando que estivera na Turquia visitando um fabricante de salgadinhos, e demostra sua intimidade com o país mercantilista utilizando expressões da língua local, em especial com os dois frequentadores dessa procedência.

Quando volta de suas aventuras traz lembranças que comprovam que estivera fora. Um “sidur” muito bom por somente uns dólares alardeia para cada amigo que entra a sala demonstrando seu tino comercial. Um perfume de limão por uns centavos que conseguira num “shuk”, uma verdadeira pechincha.

Querendo ou não sempre acabamos nos informando de seus movimentos.

Qualquer cidadão do “minian do netz” assim que entra no recinto é abordado para escutar a última notícia ou bem ser interrogado pelo Sr. Hilel.

Dificilmente passa um incólume.

– Onde vai com essa roupa diferente?
– Cadê a gravata hoje?
– Chegando tarde, “ein”?
– Que aconteceu que despertou tão cedo? a senhora lhe tirou da cama?
– Oh! você aqui, vai viajar?

Se levanta do seu posto e chega junto ao alvo para bombardeá-lo com uma novidade querendo arrancar alguma informação pessoal da vítima. Por meio dele indiretamente, com a antena ligada, acabamos tomando conhecimento das notícias frescas e do que está acontecendo na comunidade.

Confesso que alguma vezes quando foco do seu interesse procuro fugir o mais rápido possível do interrogatório através do silencio, ou de uma resposta vaga, mas o incomodo de estar na berlinda, apanhado de calças curtas, com todos os olhos voltados, causa bastante incomodo.

Alguns frequentadores mais hábeis tiram de letra a situação e facilmente se livram do curioso, outros elegantemente respondem as perguntas sem constrangimento.

O Sr. Hilel se veste corretamente, asseado, sem nenhuma classe de excesso, porém sem desleixo. Por vezes aparece em trajes especiais, roupa de festa, normalmente numa segunda-feira ou numa quinta-feira quando o filho ou neto de algum parente é chamado por primeira vez a “Torá”. Nesses dias vem de paletó, engravatado, com os cabelos bem penteados, a barba bem-feita e a cara brilhando. Parece então um menino vestido por uma mãe cuidadosa. De família tradicional Síria radicada no Panamá por quase um século suas relações com os outros clãs se ampliara numa conexão prospera.

Parte especial de sua atenção e de sua crítica feroz é dedicada aos “shlichim” que vem coletar fundos para suas causas.

Os trajes escuros que vestem incomodam o Sr. Hilel sobremaneira e basta que entrem a sinagoga para imediatamente escutarmos o resmungar do nosso velho conhecido.

– “Shwartzes”

Essa expressão “iidisch” entre outras aprendeu em New York durante os anos de sua juventude quando frequentou a “yeshiva”.

Na sua época as famílias “halabies” tradicionais com suficiente condição financeira eventualmente enviavam seus filhos para “yeshivot ashkenazim” nos Estados Unidos para completar a educação religiosa ortodoxa. Durante os anos que passavam fora inevitavelmente acabavam aprendendo algo de “iidisch” junto ao estudo do “Talmud”.

A comunidade “sefaradi” do Panamá, na sua maioria é formada por famílias sírias oriundas da cidade de Alepo, conhecidos mundialmente por sua generosidade sem exceção as causas ortodoxas judaicas. Dessa maneira religiosos tanto de origem “sefaradi” e “ashkenazi” visitam o país durante todo o ano em busca das doações que completam os apertados orçamentos dos centros de estudo, sinagogas, centros comunitários, ou em procura de “tzedaka” para irmãos em necessidade.

Esses “shlichim” normalmente são judeus ortodoxos que tem a vocação para esta árdua tarefa de pedir caridade sem constrangimento.

O Sr. Hilel não perdoa quase nenhum, em sua idade se sente no direito de falar o que quer, da forma e para quem lhe parecer melhor.

Para completar, o destino fez com que esteja no lugar preciso, justamente na mesa do fundo junto a entrada da pequena sinagoga, onde ocorre o “shacharit”, nesse horário especial ao nascer do dia. Os religiosos “vestidos de preto” invariavelmente se acercam ao senhorzinho de cabelo branco e de cara pacata para perguntar delicadamente em tom baixo onde podem sentar-se.

Justamente para o Sr. Hilel, quem sempre tem uma frase pronta para aniquilar o pobre coitado que de surpresa recebe a acida resposta:

– Em “Yerushalaim”
– No “holam haba”

Nesse momento os coletores gelam, querendo desparecer. Mas o Sr. Hilel não dá trégua e continua…

– “Schorim, schwartzes”
– “Por que se vestem de negro?”, indaga em voz alta num perfeito “hivrit”
– “Onde está escrito que vocês têm de se vestir de preto?” segue bombardeando o pobre coitado que trata de fugir da atenção e da fúria do Sr. Hilel.

Nesse momento alguém socorre o visitante indicando rapidamente um lugar para sentar-se.

– Até quando? ele continua e pergunta olhando aos céus.
– Até quando este “kaptzoinim” seguirão chegando aqui? e regressa indignado as suas “tefilot”.

Numa manhã o Sr. Hilel trouxe uma gravura enquadrada de um salmo pintado à mão. Provavelmente fruto de um presente que recebera.

Segurava o quadro numa mão e na outra uma sacolinha. Conforme foi esvaziando o conteúdo pude ver que se tratava de uma fita dupla face, uma garrafinha de álcool e um pano de limpeza, todo o necessário para fixar a arte.

Encontrou um local ideal da parede da pequena sala e sem perguntar nada pendurou o quadro.

Orgulhoso com sua contribuição chamava a atenção dos convivas conforme entravam no recinto.

– Ganhei isso do rabino de tal, que me deu esse fino presente

O público tradicionalista não dava muita atenção, qualquer mudança da rotina afetava a paz almejada.

O quadro não durou sequer um dia na parede. Sony, o patrocinador da nossa pequena sinagoga, imediatamente mandou tirar a decoração, e sem direito a reclamação deixaram a obra sobre uma estante esperando que o dono a levasse de volta.

Nos últimos tempos venho notando alterações no comportamento do nosso amigo. Já não aborda tanto os frequentadores. Já não implica tanto com os “shlichim” vestidos de negro.

Segue inquieto indo para cá e para lá.

– Ei brasileiro, como vai a Dilma? – “Drek” e dá uma cuspida de desgosto.

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