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Durante anos na paisagem da decoração da casa de meus pais havia um objeto que me deixava curioso, uma espécie de ovo metálico negro do qual não fazia a menor ideia para que servisse. Acho que ficava na sala, numa das prateleiras, em cima do Buffet. Parecia um ovo metálico escuro, e tinha um raminho de gosto duvidoso, que estragava um pouco a perfeita forma ovalada.

Na imaginação de criança tomava a esdruxula possibilidade de ser uma representação de ovo de urubu. Depois na adolescência, já mais sofisticado, pensei que podia ser uma imitação mambembe de ovo Fabergê, “porta-objetos” sofisticado. Quando o papai faleceu minha mãe repartiu alguns objetos entre os filhos, e me ofereceu o tal do ovo de urubu.

E pela primeira vez insinuou que era um objeto de caráter religioso, tratava se de um “porta-etrog”, que estava na família Levin fazia muito tempo, mas não tinha certeza de quantas gerações, inclusive existe a hipótese que não sejam tantas assim. Recebi o objeto com orgulho e o trouxe para o Panamá.

No começo até pensei dar-lhe um uso mais ativo ao objeto evitando deixa-lo descansando em algum canto da casa como decoração e tive a brilhante ideia de guardar clips sobre minha mesa de trabalho no escritório. A consciência pesou e tirei a ideia de jerico da cabeça, “ruach shtut”, e o coloquei sobre a mesa de centro na sala.

Durante o ano de luto em honra de meu pai fui à sinagoga nas três rezas diárias, e quando chegou “sukot” pela primeira vez acompanhei todos seus longos e intermináveis dias. Um vizinho de cadeira me emprestou seu kit de sukot, composto pelas quatro espécies. No ano seguinte já mais “expert” no tema, resolvi cumprir a “mitzvah” como se deve e adquiri meu próprio kit, que grosso modo consiste numa espada com as três espécies e a granada, o “etrog”.

Armado, fui orgulhoso à sinagoga participar da batalha com minhas próprias armas. Sexta feira, antes do “Shabat”, trouxe minhas armas para casa já com uma ideia fixa na cabeça. Cheguei à casa do trabalho, a Hannah, minha filha caçula, já estava me esperando, e a chamei para testemunhar a minha arte.

Busquei o tal ovo negro de urubu metálico, tirei o “etrog” da sua caixinha de proteção descartável e o coloquei no seu devido lugar. Ate que enfim o objeto voltava a sua honrosa serventia e novamente se transformava num importante “porta-etrog”, fechando um ciclo que na minha imaginação tem milhares de anos.

Abaixo uma fotos do “porta-etrog” desempenhando sua nobre função.

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