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Em varias ocasiões especiais a sinagoga que frequento ganha ares festivos graças ao extravagante costume “sefaradí” de lançar perfume.

Comemorações por “Brit Milá”, “Bar Mitzvá” e vésperas de casamentos são pretextos mais que perfeitos para que crianças da alegre família percorram o salão e borrifem perfumes deliciosos nas mãos dos frequentadores do serviço matinal do “Shabat”.

Belo símbolo da idiossincrasia oriental, mescla de uma fartura generosa com a mística religiosa, esse opulento costume faz com que todos os convivas desfrutem de um magico ambiente. E embalados por delicadas melodias arabescas cantam juntos os milenares textos sagrados Hebreus.

É uma fácil oportunidade para cumprir mais uma “mitzvá”, ao sentir o agradável odor de especiarias e recitar a correspondente “brachá”.

A fria sensação da evaporação do álcool gera um arrepio na pele completando o festival de sentidos.

De longe se podem sentir lufadas perfumadas que emanam da sinagoga.

Inebriados com odores de flores de laranjeira, melodias orientais nos transportam a jardins imaginários, elevando ainda mais nossas almas nesse dia sagrado.

Crianças de famílias abastadas, ainda sem a malícia da vida, são encarregadas de perfumar o publico. Mas pouco tempo depois já entediadas acabam distraindo-se, fascinadas por um chocolate ou por uma brincadeira, esquecendo displicentemente o rico frasco em um canto qualquer do salão.

Sobram então garrafinhas sem dono em diversos cantos.

Dom Isaac, membro proeminente da comunidade, atual patriarcas de uma família tradicional, também já bancou rodadas de perfume quando um neto cumpria seus 13 anos. Mas, apesar de endinheirado, assim que finalizou a ronda, de olho no movimento, logo chamou o netinho para guardar o que restava. Colocou o vidro em uma reentrância da parede junto ao seu assento, para uso pessoal.

Ao passar do ano, vez ou outra, gentilmente vai oferecendo uma “espreiada” aos amigos vizinhos, perfumando nosso setor da sinagoga.

Poucas semanas atrás na ocasião de mais um “Bar Mitzvá”, do netinho de um grande empresário, a rodada foi em grande estilo.

Garotos empunhando frascos nas mãos flanavam por entre os assentos como “cowboys” disparando jatos cheirosos em todos que estiravam as mãos, uma festa para os sentidos e alegria geral da nação.

No final da manha notei que uma garrafinha praticamente cheia havia sido esquecida na cestinha do espaldar de uma das poltronas. Curioso, acompanhei atento seu destino.

Varias pessoas que a percebiam se refrescavam com a agua de colônia sem dono, mas voltavam a deixar o vidro em seu lugar.

No final da tarde, na hora do “minchá”, já havia sido incorporado aos pertences de um membro da comunidade, umas fileiras a minha frente.

Há tempo noto que este senhor mantém um estoque pessoal do liquido cheiroso para refrescar-se durante os serviços, quando de repente sentimos o característico odor cítrico que adocica o ambiente.

Imediatamente comparei a pequena garrafinha do Sr. Isaac já em seu ultimo quarto, e a nova grande garrafa, praticamente intacta, e tive um sentimento de injustiça.

A imaginação do moleque justiceiro que ainda vive dentro de mim começou a buscar solução inofensiva para corrigir o que não me cheirava bem.

Enquanto a maioria das pessoas ainda disfrutava a merecida “siesta” depois do almoço de “shabat”, delicia que só quem já viveu pode descrever, foi que surgiu a oportunidade, quando cheguei mais cedo à aula de “Mishná”.

A chance esperada estava em meu alcance.

Não havia testemunhas para estragar meu plano, somente o “Moré”, professor de “Mishná”, mas contava com seu bom humor.

Disse ao “Moré” para observar a travessura, e numa rápida manobra troquei os perfumes, a garrafinha velha no lugar onde estava o frasco novo, e a nova no lugar da velha garrafinha do Sr. Isaac.

No meio do movimento ainda deu tempo para borrifar no rabino que estendeu sua mão pensando que esta seria a minha travessura e fizemos a “brachá”.

Assim que percebeu a troca imediatamente me repreendeu tentando impedir-me de completar a travessura justiceira.

Orientou não tocar na propriedade dos outros, mas expliquei que o vidro cheio não pertencia à pessoa.

O outro frasco sim era do Seu Isaac, mas estava seguro que ele não ficaria chateado em perceber o suposto milagre da multiplicação.

Ele não se deu por vencido e tentou citar a “halachá”, mas o “Robin Hood” já tinha feito a sua e começaram a chegar os outros estudantes.

Confesso ter ficado com a consciência pesada depois da reprimenda, mas continuei atento ao desfecho da molecagem.

Estava curioso para ver a reação quando chegasse o nosso amigo que gostava de perfumar-se e notasse a magica transformação do seu novo grande envase por uma garrafinha já nas ultimas.

Minha surpresa e alivio vieram ao final do serviço, quando antes de encaminhar-se para a “seudá shlishit” ele buscou a garrafinha e sem se importar com nada, deu varias borrifadas generosas nas mãos, aspirou extasiado o delicioso perfume e disse a “brachá” correspondente.

Refrescou sua cara com as mãos molhadas do precioso liquido e seu semblante demostrava todo o prazer da sensação de renovação que as especiarias trazem.

Feliz encaminhou-se pronto para degustar a terceira refeição de “shabat” que lhe esperava, sem dar bola a minha travessura de moleque.

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