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Herança de meu pai escritor, que via poesia nos personagens da vida, faz algum tempo observo com curiosidade o publico que frequenta minha sinagoga.

Uma figura que chama atenção é o Seu Elias. Bom vendedor de seguros, este senhor que segundo meus cálculos beira os oitenta anos, ataca a todos sem distinção.

Já tratou de vender-me uma apólice de saúde plantando uma duvida na reputação da empresa que sou freguês.

Evito maiores contatos visuais com medo de ser presa novamente da ladainha de corretor de seguros, perdoem-me os colegas de profissão.

Octogenário, sua falta de memoria o libera para insistir varias vezes como se fossemos novas ovelhas a serem salvas.

Porem o mais interessante do Seu Elias, Cohen religioso, que não falta às rezas faça chuva ou faça sol, acontece justamente no shacharit, reza da manhã.

Bom madrugador chega à sinagoga entre os dez primeiros sempre emitindo uma curiosa mescla de respiração forte, sopros ritmados, donde se distingue um assobio.

No principio pensava que o bizarro ruído fosse um problema no sistema de ar condicionado, mas depois de alguns meses buscando identificar a origem do silvado me dei conta que era o tal do Seu Elias.

Durante quinze a vinte minutos se escuta claramente um assobio sem melodia, simplesmente sopros misturados com um silvado.

Conforme a sinagoga vai se enchendo o ruído do publico esconde o assobio.

Numa dessas manhãs um dos Cohen antigos reclamou ao Seu Elias que estava assobiando muito forte, mas o atrevido foi logo calado por outro frequentador importante que soltou um “deixe-o assobiar em paz”.

Confesso que faz tempo que me seguro, mas hoje, num domingo discreto tive a oportunidade que aguardava.

Enquanto tomava meu expresso depois do shacharit se acercou Seu Elias, e como não havia ninguém próximo, perguntei se podia saber algo pessoal caso não se ofendesse.

Como bom vendedor ele me mandou seguir sem temores, na esperança de poder vender-me um seguro, mas para sua surpresa, indaguei delicadamente sobre seu assobio da reza da manhã.

Sorrindo contou-me uma historia.

Sabe, fui um dos pioneiros da Zona Livre no Panamá, ainda não tinha ninguém por lá. Na época, em 1948, vendia rádios transistores, e era como um rei na América Central, todos queriam saber de mim.

Os donos da empresa que trabalhava me deram cinco países para cuidar, e escolhi El Salvador para morar, já que os judeus que lá viviam eram da melhor estirpe, gente fina da Alsacia-Lorena.

Não éramos tantos como os judeus da Guatemala, que eram muitos, mas misturados, de outra categoria. Em El Salvador éramos poucos, finos, inclusive veio um rabino francês, ainda com as marcas do holocausto no braço.

Acontece que lá eles não rezavam de manha, fiquei 40 anos fazendo shacharit sozinho.

Ainda me lembro na época do bar-mitzva do meu filho de ir ao rabino reclamar. A comunidade me fuzilou perguntando se por colocar tefilin me considerava melhor que os outros.

Eles já tinham se esquecido de como cumprir esta mitzvah. Depois não aguentei mais e regressei ao Panamá.

Com medo que o Seu Elias tivesse começando uma historia inesgotável se desviando do tema inicial, insisti delicadamente em saber qual a relação com o fato do silvado.

Deu uma risada e me disse, sabe, eu não percebo que assobio, inclusive já me disseram que eu assobio, risos, mas não percebo não, acho que foi porque passei 40 anos colocando tefilin sozinho que ganhei essa mania.

Não me restou outra senão tranquiliza-lo, Seu Elias, o seu assobio sobe direto para o céu.

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