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– “Rebe”, quer escutar o milagre que aconteceu comigo?

Querendo atrair a atenção do “Moré” lancei a pergunta e confiante sentei-me ao seu lado na sinagoga onde ele estava distraído com algum estudo esperando seus alunos no sábado à tarde.

Anualmente durante as sete semanas entre “Pessach” e “Shavuot” com muita dedicação nosso querido “Moré” se preocupa em ministrar aulas de “Pirkei Avot”, a ética dos pais, substituindo temporariamente nosso estudo de “Mishná”. Assim mantem o costume de tentar refinar nossas qualidades da mesma maneira que o povo Hebreu se elevou espiritualmente conforme vagava pelo deserto desde a saída do Egito até chegar ao Monte Sinai para receber a “Torah“.

Olhando-me de soslaio, e abaixando o livro que tinha na mão, me deu permissão para desembuchar o que há dias estava ansioso por compartir como meu guia espiritual.

– Manda Ioel…

Com um sorriso malicioso comecei diminuindo o exagero da manchete e baixei o nível de milagre para uma “Hashgachá Pratit” (divina providencia) que mais uma vez havia tocado minha porta, e comecei a contar-lhe o que há umas poucas semanas vinha estruturando em minha cabeça baseado em fatos reais, mas com uma pitada de tempero adicional, devida licença poética.

– “Moré”, neste ano, o último dia de “Pessach” caiu numa terça-feira, se lembra?

Com o seu consentimento prossegui.

– Com tantos dias de feriado e ainda somado ao “Shabat” de “Chol hamoed” já tinha colocado em dia todas as horas de sono que tinha atrasado e na terça feira depois da “seudá”, o almoço festivo, que por sinal teve direito a uma boa Vodka “kasher le Pessach”, rompi o costume e não fui direto tirar um cochilo.

– Junto com as meninas e a patroa jogamos um pouco de “rumi kubi” e depois da partida fui ler um bom livro.

Não consegui a reação que esperava do “Moré” querendo saber qual seria a literatura que me entretinha…

– Onde esta o tal milagre? Pragmaticamente me apressava o rabino com um olhar de pouca paciência.

– Calma “Moré”, controlava o ritmo da narração, tentando aguçar seu interesse no meu enredo, quando para meu desgosto apareceram os primeiros alunos da aula frustrando a continuação da minha estória.

Tive de aguentar minha ansiedade e passaram-se outras duas semanas até a nova oportunidade para compartir minha experiência mística.

Estrategicamente cheguei mais cedo à aula antes do “minchá de shabat” e novamente pude pegar o rabino disposto, quem sabe sem outra opção senão escutar-me.

Lancei o gancho e perguntei se queria saber o desfecho do milagre que sucedera comigo.

Como não estava certo que ele ainda se lembrava da introdução, e para meu deleite, e abuso da paciência do ouvinte, repeti tudo desde o princípio, aproveitando para melhorar os detalhes e contornos do conto.

… E continuando a estória – Depois de algum tempo de leitura na cama inevitavelmente o sono chegou e tirei uma deliciosa soneca.

– Precisamente às três e meia, perspicaz fiz questão de marcar a hora para dar credibilidade aos fatos, abri os olhos, e vi que ainda tinha bastante tempo. Peguei novamente o livro e voltei a entreter-me com a novela até o final da tarde, hora de ir ao “shil”.

– Me vesti e fui à janela revisar o tempo. O céu estava acinzentado, baixei a vista e o reflexo da piscina confirmava a garoa.

– Já estava vestido, mas a chuva me convidava à preguiça, não queria caminhar tendo que inevitavelmente enfrentar o mal tempo.

– Fui à sala verificar se realmente chovia, com a tola esperança de que talvez por outra perspectiva o tempo firmasse. Lá estava minha esposa junto a sua mãe, curtindo um “dolce far niente” típico de uma tarde chuvosa de final de feriado prolongado.

– Acerquei-me a varanda e o chuvisco realmente era estável. Minha esposa me perguntou se eu estava indo para a sinagoga. Tentando convencer-me respondi que pensava rezar em casa mesmo, afinal estava chovendo, tinha o “sidur de Pessach”…

– Pensei com os meus botões que não seria nenhum grande problema já que durante todos os longos dias festivos fielmente compareci a sinagoga. Estava disposto a me convencer da decisão para tranquilidade da minha consciência.

– Busquei então o “sidur de Pessach” e um livro de “halachá” para refrescar a memória de como fazer a “havdaláh” de final de “yom tov”.

– Sozinho no meu quarto instalado confortavelmente na poltrona, abri o livro e comecei a estudar a lei. Ainda tinha tempo para a hora do “minchá”, mas nem uns minutos se passaram quando de repente a luz se apagou.

– “Moré”, contei os segundos até que o gerador elétrico do prédio entrasse em funcionamento, e pelo barulho realmente o gerador começou a funcionar conforme deveria ser, mas algo estranho aconteceu, pois nem a luz, nem o ar condicionado voltaram a funcionar.

– Moramos nesse apartamento faz mais de nove anos, temos no prédio um tremendo gerador que entra em funcionamento assim que falta luz, o que não é normal. Nunca falhou, e dessa vez também não falhou, somente não entrou a energia elétrica do gerador.

– “Moré”, percebe o milagre? Continuei em meu monólogo.

– Não pensei duas vezes, D´us estava falando direto comigo, a mensagem era clara e direta, vai pra sinagoga meu filho, e palavra de D´us é uma ordem. Em poucos segundos já estava com a capa descartável na mão a caminho da sinagoga para rezar junto à comunidade.

Para minha frustração minha audiência não parecia impressionada. Assim que empolgado ainda tentei mais um recurso para causar alguma impressão adicional e continuei.

– “Rebe”, isso não é tudo… Agora nas manhãs e nas “siestas” de “Shabat” tem um passarinho que fica bicando a janela do meu quarto fazendo “toc toc toc” que me desperta para as horas de ir pra sinagoga como se fosse um despertador, exatamente na hora que deve ser. Não é impressionante?

Esperava que com mais essa, iria derrubar sua fleuma e despertar a mística do sábio.

– Ioel, aqui no “kolel” também tem uns passarinhos que ficam bicando a janela, seus reflexos na janela os deixa intrigados, e investigam o que é com seus bicos, lançou sua explicação fleumática desinflando por completo a meu romantismo com seu racionalismo de quem está acostumado às estórias impressionantes de nossos “Avót”.

– Ioel, “Nú???”, vamos estudar? Pega o livro que não morde.

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