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Passei poucos dias em São Paulo e escrevo no vôo para casa. Confesso sair chocado, tocado, indignado. Mas primeiro a alegria.

Fui a São Paulo para o Bat Mitzva de minha neta Júlia (maioridade religiosa). Festa linda, alegria contagiante, ambiente espetacular e comida deliciosa. Hospedei-me na casa de meu primogênito, recebido muito bem, convivendo com nora, netos e filhos. Impagável!

São Paulo é a cidade que me “adotou” e o destino me levou a deixá-la há alguns anos, quando mudei-me para o exterior.

Cheguei a São Paulo aos 11 anos de idade e nela vivi 55 lindos anos. Foi nesta cidade que cresci, me formei, conheci minha “cara-metade” e me casei, tive e eduquei meus filhos, vi meus netos nascerem. Aqui me realizei profissionalmente e a ela devo meu bem-estar.

Porém – porém…

Nestes pouquíssimos dias andei bastante pela cidade e constatei o imenso fosso existente entre minha vida no exterior e a vida de meus filhos e netos, meus familiares e amigos. A primeira surpresa é a profunda insegurança.

Eu vivo em Israel, lugar ultra seguro. Chega a dar vontade de rir quando as pessoas me falam que “têm medo de viajar para Israel”. Meu D’us, se você vive em SP, pode viajar até para o Afeganistão ou a Síria e talvez até se sentirá mais seguro. O medo aqui permeia em toda a sociedade. Carros de vidros fechados, muitos deles blindados. Edifícios que são verdadeiras fortalezas, cercados com grades, com “gaiolas” na entrada onde uma porta se abre apenas quando a outra fecha, segurança particular nas ruas, ninguém usa o celular na rua sem ficar observando o seu entorno, medo de qualquer ciclista ou motociclista que venha em sua direção em baixa velocidade. Tirar dinheiro no caixa automático? Treme-se de medo.

Me disseram que na Av. Paulista há carregadores de celular em toda a rua. Basta você tirar o celular do bolso, que vem um pivete e carrega…

Passei num cartão postal da cidade – a linda e fantástica Sala São Paulo. A seu redor, cenas da série Walking Dead. Centenas (ou milhares?) de zumbis, mortos-vivos, esquálidos, caminhando sem rumo, sentados ou deitados no chão numa promiscuidade, sujeira e abandono que cortam o coração do mais insensível ser humano. Seu alimento é o crack, seus olhos no infinito, sua dignidade na lama.

Nos baixos dos viadutos – praticamente todos os que passei, um horror. Marechal Deodoro, Av. Paulista, Amaral Gurgel, Berrini etc são a residência de centenas de famintos, sujos, abandonados à própria sorte, famintos, seres inumanos, sem perspectivas. Nas avenidas em que vivem passam as peruas SUV, os carros blindados, as motos possantes, os carros de luxo e parece que ninguém os vê, ninguém empatiza com seu sofrimento, ninguém sente dor de ver a desgraça alheia. Mas eles não estão só nas avenidas. Também os vi nas ruas de Santa Cecília, nas travessas de Higienópolis, nas vias públicas de Moema, Ibirapuera. Meu D’us, como se pode viver vendo isto? Onde foi parar a solidariedade que eu vi durante 55 anos? Quem a matou e porquê?

Ou talvez a apatia já existisse quando eu vivi aqui e eu também era insensível? Não canso de me perguntar e não creio que conseguirei responder a esta dúvida.

E como entender os políticos e a política? Há dinheiro, MUITO, para o Carnaval. Há MUITO dinheiro para a Fórmula 1, para a Parada Gay, para shows nestas mesmas ruas onde reinam a desgraça, a desesperança e a tristeza. Ruas esburacadas ou remendadas, irregulares e nunca lisas ou bem cuidadas. Calçadas onde um cadeirante não consegue se movimentar – buracos, degraus, desníveis. Cegos então, coitados, nem dá para comentar.

Você, leitor, poderá pensar que escrevo para criticar. Lendo engano. Minha meta é tentar despertar a humanidade em seu coração. Minha meta é levá-lo a agir, fazendo algo – ainda que pequeno.

Mas não se limitar a ajudar a estes desvalidos. Escrever a jornais e revistas, ligar para estações de rádio e TV, enviar mensagens a jornalistas e formadores de opinião. Exigir dos governantes. Clamar sem parar. Convencer seu vizinho, seu primo, seu médico, seu dentista a fazer o mesmo. A força do povo é irresistível, desde que não se disperse, não desista ao primeiro não, não se renda quando uma porta não se abre.

Lutar, conversar, exigir, não calar. Porque a insensibilidade ao sofrimento do outro foi o que matou 6.000.000 de Judeus e milhões de outros desvalidos como ciganos, deficientes mentais e prisioneiros de guerra há apenas 70 anos. Não vamos deixar nosso espírito se tornar insensível, nossos corações gelados e nossa indignação calada.

Estou saindo com profunda dor no coração. Espero voltar num futuro próximo e encontrar uma realidade menos chocante.

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