Condenado duas vezes por ser homossexual, ficou preso durante 32 meses no campo de concentração de Buchenwald, até sua libertação, ocorrida em 11 de abril de 1945. O livro “Triângulo Rosa”, lançado no Brasil pela Mescla Editorial, conta detalhes dessa história.
Faleceu na quarta-feira de madrugada, dia 3 de agosto, aos 98 anos, Rudolf Brazda, o último sobrevivente conhecido dos quase dez mil homossexuais que estiveram nos campos de concentração nazista. Morando num abrigo para idosos em Mulhouse, na França, morreu enquanto dormia “calma e pacificamente”, segundo Jean-Luc Schwab, seu amigo e co-autor do livro Triângulo rosa – Um homossexual
no campo de concentração nazista, lançado no Brasil recentemente pela Mescla Editorial. O sepultamento deve acontecer na segunda-feira em Mulhouse, na França.
A obra conta história do sobrevivente, um relato ímpar, sustentado por um rigoroso trabalho de pesquisa histórica e marcado pela dor e pela esperança. Identificados como “triângulos-rosa”, milhares de gays foram caçados pelo regime de Hitler, Rudolf foi condenado duas vezes por ser homossexual e depois deportado para Buchenwald, onde ficou preso no campo de concentração durante 32 meses, até sua libertação, ocorrida em 11 de abril de 1945.
Quando foi libertado, Rudolf decidiu fixar residência na França. Foi só em 2008, aos 95 anos, que ele decidiu sair do anonimato. Após a inauguração de um monumento às vítimas homossexuais do nazismo em Berlim, na Alemanha, ele pôs fim a longos anos de silêncio. Surgia, então, aos olhos do mundo, o último sobrevivente homossexual conhecido dos campos de concentração nazista. Com a matrícula 7952, ele sobreviveu aos horrores do nazismo.
No dia 28 de abril de 2011, Rudolf recebeu a medalha da Ordem Nacional da Legião de Honra, mais alta condecoração da França. A distinção foi entregue por Marie-José de Chombart Lauwe, sobrevivente de Ravensbrück e presidente da Fundação para a memória da deportação.
Triângulo rosa
Nascido de pais tchecos no vilarejo de Brossen em 1913, perto Leipzig, na Alemanha, tinha apenas 20 anos quando os nazistas tomaram o poder. Definida a sua orientação sexual, ele viveu tranquilo nos primeiros anos de 1930. Em 1935, no entanto, o novo regime endureceu a lesgislação contra os homossexuais, reforçando os termos do parágrafo 175 do código penal. Começava, assim, o cadastramento de gays na Central do Reich. O objetivo: reprimir a homossexualidade. De acordo com as estimativas da época, em torno de cem mil pessoas foram fichadas, entre elas Rudolf e seus amigos.
Com a ascensão do nazismo, o período de relativa tolerância para com os homossexuais chegou ao fim. As investigações se multiplicavam para encontrar conhecidos ou presumidos. Rapidamente chegaram a Rudolf, que foi preso em 1937 sob a acusação de “luxúria antinatural”. Depois de seis meses de detenção, acabou expulso do território alemão e decidiu ir para a Tchecoslováquia – que, do ponto de vista do direito, ainda era a sua pátria. Em Karlsbad, Rudolf esperava retomar a vida. Porém, em 1938, o regime de Hitler atravessou o seu caminho mais uma vez. Com a anexação da província dos Sudetos – onde fica Karlsbad -pelos nazistas, as leis alemãs passaram a ser aplicadas com rigor. Em pouco tempo, Rudolf foi preso novamente e condenado a 14 meses de prisão.
A pena foi cumprida integralmente, mas Rudolf não chegou a ser libertado. No auge do regime de Hitler, os campos de concentração se propagaram para abrigar prisioneiros de guerra, comunistas, social-democratas, judeus, testemunhas de jeová, ciganos e… homossexuais. Em 8 de agosto de 1942, ele foi mandado para Buchenwald. Durante três anos, num lento processo de desumanização, viveu e presenciou todo tipo de atrocidade. Certa vez, escondido sob o telhado, deitado de bruços sob o forro, ele e Fernand, um companheiro de prisão, presenciaram a execução de soldados soviéticos. “Acabamos nos habituando à ideia de morrer a qualquer instante. Não tínhamos medo de morrer e, se fôssemos pegos, poderia ter sido fatal. Ver gente morrendo nos deixava quase indiferentes, pois isso era constante no cotidiano. Hoje, choro toda vez que me lembro desses instantes terríveis, mas na época eu endureci para sobreviver… como os outros”.
A história de Rudolf Brazda é única sob vários aspectos. Além de constituir a face de uma verdade pouco documentada – a deportação por homossexualidade -, conta a vida de um grande otimista, cujo otimismo permaneceu intacto. “Suas várias gargalhadas e seu entusiasmo indefectível não podem ser separados de sua surpreendente longevidade. Uma distância e tanto das agruras do passado”, afirma o biógrafo Jean-Luc Schwab.
Para recompor a trajetória de Rudolf da maneira o mais exata possível, Schwab recorreu a várias centenas de horas de entrevistas com diferentes fontes. Também buscou auxílio nos documentos de época ainda sob a posse de Rudolf, no testemunho de pessoas que conviveram com ele ou com seus conhecidos e nas numerosas pesquisas pessoais em arquivos alemães, tchecos e franceses. A esse material, ele acrescentou diversas viagens aos antigos lugares ligados à vida e ao confinamento do biografado, entre as quais duas em companhia dele, em março e novembro de 2009.
“Trajetória atípica a de Rudolf, iniciada na Alemanha, passando pela Tchecoslováquia, depois pelo campo de concentração de Buchenwald, para enfim terminar na França. Em seu caminho, encontros com pessoas cuja vida mal se conhece, mas não menos marcantes. Para muitos, o percurso de Rudolf resultou da repressão de sua sexualidade pelos nazistas. Mas isso não o impediu de ter vida plena, com vários amigos e camaradas”, comenta Schwab. Alguns anos depois da libertação, em 1950, ele conheceu Edi, seu companheiro por quase meio século, que morreu em 2003, aos 73 anos. Rudolf, fiel até o fim, estava ao lado dele.
Quando lhe perguntam como vê a vida, do alto dos seus 97 anos, Rudolf declara com prazer: “Atingi uma idade avançada e vivi mais tempo do que meus irmãos e irmãs, assim como mais do que meus amigos e companheiros de deportação. Passei quase 50 anos com meu querido Edi e hoje ainda consigo sempre satisfazer as minhas vontades sozinhos: faço a comida, as compras, lavo a roupa e arrumo a casa. Se Deus existe, ele foi particularmente bom comigo, porque tive uma vida feliz e plena. E, se eu tivesse de refazer tudo, não mudaria nada, nem mesmo Buchenwald”.
Triângulo rosa – Um homossexual no campo de concentração nazista
Autores: Jean-Luc Schwab e Rudolf Brazda
Tradução: Angela Cristina Salgueiro Marques
Editora: Mescla Editorial – Preço: R$ 48,90
Páginas: 184 – ISBN: 978-85-88641-13-6
Site: www.mescla.com.br



























