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Estamos em uma Pátria passional. Por isso, talvez, ninguém costuma acertar os prognósticos.

No País da gangorra emocional prevalece — parafraseando David Laing — fingir não ver o jogo que eles fingem não jogar. Cujas regras sabemos que eles não respeitam. O sobressalto pode vir durante um gol, em plena tristeza da eliminação da seleção na Copa, ou numa manhã melancólica de domingo sob a caneta de um magistrado de plantão.

Pedir intervenção militar, suspiros por ditadores autocratas, glamourização da truculência, tudo isso é anacrônico e ridiculo. Mas muito mais perigoso e perturbador tem sido a irresponsabilidade das instituições. Ao contrário do que boa parte da midia tenta nos fazer crer, a opinião pública não está dividida. Inexiste, na prática, o “nós e eles”. A disputa em curso tem feito aproximações sucessivas para colocar sobre a mesa o risco de ruptura institucional.

O ônus está nas costas do Poder cada vez mais isolado contra a esmagadora maioria da sociedade. A esquação seria algebricamente evidente, mas será preciso explicita-la: se e o condenado ex-presidente está detido ninguém está imune à justiça, se ele fica em liberdade — com o aval concedido a quem praticou tantos crimes contra a Nação — todos se tornam invulneráveis. É automático e linear.

É básico ter isso em mente. Luis Ignacio é o termostato absoluto do reino da impunidade. E não é bem que a lava-jato tenha sido canonizada (o que seria sempre negativo), é que a premencia geral tem sido optar por exorcismos extremos contra aqueles que escarnecem da opinião pública, e porque não dizer, da própria jurisprudência por eles gerada.

Tivemos tanto trabalho para nos livrar da ditadura e do arbitrio para cair de monocratas ilegitimos que tratam de expulsar toda racionalidade do recinto dos colegiados para preenche-lo por paixões partidárias despropositadas? Se era para cair nisso que tal voltarmos ao absolutismo esclarecido? Quem sabe do déspota esclarecido poderiamos esperar um pensador do Estado, alguém ilustrado que recolocasse na política algum sentido de coletividade e solidariedade. Sem duvida, melhor do que tribunais servicais e um parlamento movido a chantagens e comandado pelo medo dos dossies.

Vale lembrar que as jovens democracias não costumam sucumbir por morte subita. Elas vão sendo defenestradas pelo desgaste. Vão sendo humilhadas por uma lenta e permamente indução voluntária de microcaos diário. Pelo envenenamento social regado a discursos com antidotos vencidos. Estamos testemunhando a história se desenrolar sobre as nossas cabeças e onde é que ficamos? Com quem contaremos a não ser com nós mesmos?

Fala-se mal das redes e da propagação das falsas notícias, mas quem está se preocupando com as fake news oficiais? Aquelas que emergem dos institutos de pesquisa que insistem em naturalizar a presença de gente inelegível. E daqueles que propagam estes resultados sem questiona-los. A falsificação intelectual emitida por candidados e analistas políticos também merecem atenção, aliás elas são potencialmente mais lesivas do que as falsas notícias.

Na sombra cinzenta entre o licito e o legal convém perguntar se a decisão dos monocratas de plantão, do Planalto ao Chuí, não visaria, ao fim e ao cabo, desmoralizar todo sistema juridico? A desqualificação indiscriminada viria a calhar para quem quer apenas usar os recursos postergacionistas para tumultuar e criar a cortina de fumaça necessária para vilipendiar a democracia.

O jurista Modesto Carvalhosa tem divulgado que a apuração secreta do pleito não é constitucional, muito menos democrática. Vale dizer, não basta que as urnas eletrônicas sejam confiáveis, elas precisam parecer fiéis guardiãs do pleito. O voto tem para uma democracia, a sacralidade que determinados objetos e rituais tem para a religião.

A ideia generica de que toda teoria que contesta as decisões que tem sido tomadas contra os interesses da sociedade é conspiratória serve apenas para desqualificar as denúncias. Maseis que o dia de hoje acaba de produzir incontestáveis evidências: existe sim conspirações e elas estão em curso. E quem é que está patrocinando e dando aval para a anomia? Desta vez o atingido não é uma pessoa, um segmento social, um grupo, partido ou minoria.

Desta vez o alvo é o País. A mira é clara e a arma, posicionada. O risco é acertarem na mosca.

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