Mi Buenos Aires Querido: Mercosul Judaico – por Israel Blajberg

“Mi Buenos Aires querido… Hoy la suerte quiere que te vuelva a ver”

1967. Um rapazinho magro e de cabelos pretos esvoaçantes chega a Buenos Aires em viagem de estudos da faculdade. No bolso um papelzinho com a letra cuidadosamente desenhada do pai e o pedido para visitar o landsman (conterrâneo)… Jacobo Klos… Lacroze 254. Quarenta anos haviam transcorrido desde que Abram Blajberg deixara Ostrowiec, Polônia. Na estação do trem, seu pai Szlama (Salomão) lhe disse ao partir:

“Meu filho… algo me diz que nunca mais vou te ver…
lembra sempre, que te deixo um nome, um nome a zelar…”

O amigo de infância Klos também seguira o mesmo caminho, continuando mais a frente ate o Rio da Prata, onde já se encontravam seus irmãos. Consta que teria chegado em janeiro de 1930, vindo no mesmo navio de Abram, que desembarcou no Rio em dezembro de 1929. Já existia o Mercosul – judaico…

Outros 40 anos se passaram e o rapazinho agora avô e de poucos e brancos cabelos retorna a Buenos Aires. As lembranças de 1967 se esfumaram com o tempo, o haviam levado a tantas casas diferentes de landsman de seu pai até que os nomes e locais se perderam nos buracos negros da memória. Naquela época não lhe interessavam muito as recordações do shtetale (cidadezinha) distante, mas sim namorar e jogar bola…

Desço ao hall de entrada do Hotel Tritone, Maipu entre Tucuman e Viamonte, a musica de fundo trazendo os versos melodiosos da ’ciudad porteña de mi unico querer”. Carlos Gardel está cantando cada vez melhor…

Lazaro, filho de Regina, uma dos 8 Klos me aguarda. Mas nem preciso perguntar quem é. Nunca o havia visto, mas imediatamente associo automaticamente sua figura a uma das poucas imagens que me ficaram na memória, do landsman Jacobo Klos. São idênticos, o mesmo rosto redondo, o corpo levemente atarracado, os ombros largos.

Sentados a mesa do bar do hotel, Lazaro recorda os nomes e venturas da sua grande família, com o legitimo sotaque porteño da língua de Cervantes, idioma que encanta o ouvinte pela beleza e elegância.

Tendo deixado seus afazeres por cerca de uma hora, cada minuto daquela conversa me é precioso. Anoto os nomes montando o rascunho de uma arvore genealógica. Dos 8 irmãos Klos 5 se salvaram, quatro vindo para Argentina e Ite para Santiago do Chile, via Bolívia e Arica. Uma historia fantástica, muito parecida com a dos 8 irmãos Blajberg, dos quais 6 se salvaram, sendo 4 para a então Palestina, um para San Diego e um para o Brasil, meu saudoso pai Abram Blajberg, que aos 19 anos desembarcou em 1929 na Ilha das Flores no Rio de Janeiro, com o coração cheio de esperança, os bolsos vazios.

Nunca mais teria de encarar a face horrenda do anti-semitismo, o epíteto pejorativo: “Zsiyd” (judeu), ao contrario da Polônia gelada e triste, da qual jamais se arrependeu de te-la trocado por esta terra abençoada.

Lazaro deve retornar ao trabalho, mas deixa informações valiosas. Conta-nos sobre um livro, lançado em 2009 – PIRIAPOLSKI, a historia da família e do seu Hotel Argentino no balneário uruguayo de Piriapolis. E um vídeo, especialmente filmado pelo primo Marcos Zylberberg de Santiago, por ocasião da Marcha da Vida de 2005. Marcos é filho de Ite Klos, viúva de Icek Zilkberberg, a quem cheguei a conhecer brevemente em 2004 aos 92 anos no Chile. Pouco antes de ir-se, toca o celular. Ninguém menos que Tilly Zilberberg, irmã de Marcos, com quem também estive em Santiago, lhe desejando felicidades pelos seus 56 anos cumpridos hoje.

Lazaro se vai mas a velocidade do celular e da Internet nunca sonhada em 1967 me colocam em contacto imediato com outros descendentes daqueles bravos pioneiros.

A noite nos reserva uma fantástica surpresa. Eu e minha esposa Marlene, ela também por incrível descendente de gente de Ostrowiec, por parte de mãe e de pai: os Rubinsztajn e Rubinstein. Vamos ao encontro de Mariela Klos, a neta de Jacobo.

O encontro marcado as 20h no Freddo da Galeria Pacifico nos traz a vista uma menina encantadora, uma Klos de segunda geração argentina, descendente daqueles piedosos judeus tementes ao Eterno que povoavam com suas vestes hassidicas o Rynek e as apertadas ruelas do shtetale, tal como Sholem Aleichem os imortalizou em sua Anatevka, que Holywood trouxe as telas em Fiddler in the Roof.

Mas quem a visse caminhando elegantemente pela Calle Florida jamais imaginaria que seus avós vieram de tão longe, belíssima moça, tão argentina como qualquer outra. Seu porte de princesa hebréia nos faz recordar um retrato em nossa sala: Chana Frejda Kelleru Mintz Blajberg, minha avó que jamais conheci, e sua filha Brandla Mindla, cujo nome demos a nossa filha Silvia. As quatro guardam entre si uma semelhança notável de biótipos e traços. Ou seria apenas a nossa imaginação?

Contemplando Mariela Klos, o marido Jerônimo e seu pai Horacio, parece que os conhecemos há décadas. Algo nos aproxima, como se fosse aquele telegrafo invisível que une os corações judaicos de que escrevia Yitzik Feffer, o genial poeta que Stalin mandou fuzilar.

Horacio é filho de Jacobo Klos, que conhecemos em 1967. Deles recebemos dois presentes valiosos, Piriapolski, o livro que ilumina nossa memória com as respostas a indagações ostrowianas e dos primórdios argentinos dos Klos, e o vídeo Zylberberg – Um Viaje por la Vida, rodado na Marcha de Vida de 2005.

Como poderia imaginar? Agora sabemos que entre os milhares de marchandos de todo mundo em 2005 na Polônia da qual participei, estavam também os chilenos Myriam Serman, Marcos, Alejandro, David e Joyce Zylberberg.

Poderíamos ficar a noite toda conversando. Agora sabemos que nossas famílias tem um elo em comum. Chana Guitla Klos, avó de Horacio, e Chana Frejda Blajberg, minha avó eram Mintz de solteiras. Seriam irmãs? Primas? Só o Santificado sabe. E se nem o nosso Grande Patriarca Moises conseguiu respostas, também nos simples mortais ficaremos sem elas.

Em vida, jamais perguntei nada a meu pai sobre o passado. Um psiquiatra, também ele um landsman (Dr Jacob Pinheiro Goldberg) me explicou o motivo: os filhos acreditam que os pais nunca partirão, assim deixam sempre para perguntar amanhã … até que um dia é tarde demais…

A noite de Buenos Aires se torna mais fria. Levamos os visitantes à porta do Hotel Tritone. Temos que dizer adeus. O vento que vem do Rio de La Plata trás baixinho de longe a melodia de um tango triste. A rua deserta nos evoca uma sensação estranha.

Irmãos do MERCOSUL, não podemos deixar de lembrar aqueles antigos imigrantes, como travaram suas lutas pelas ruas como essa, como tanto trabalharam para honrar a memória paterna …

“… meu filho… nada te posso mais dar, apenas um nome a honrar…”

(Buenos Aires – 25 a 31 out 2009)

Leia também