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Sábado com frio, delícia ver o empate da Islândia com os argentinos. Tempo de retornar à Torá, na minha versão.

Tem gente, amigos meus, que não entende o meu interesse pela Torá, pelos estudos bíblicos e até, de vez em quando, pelos temas do Talmud.

Seja como for, eu encontro na Torá a maioria dos temas que nos preocupam hoje em dia. Como a luta pelo poder, a proteção entre os iguais, assédios e confortos, inveja.

Korach, um dos primos de Moisés, dá o nome a parashá desta semana. Tem tudo a ver com o que eu disse no paragrafo anterior. Depois da rebeldia do povo descrita pela Torá em Behaalotechá (quando o povo exigiu comer carne) e Shelach Lechá (o episódio dos espiões), esta parashá descreve a rebelião de Korach.

Korach e outras 250 pessoas decidiram rebelar-se contra Moisés. A principal queixa de Korach era o fato de Aarão ter sido designado como Cohen Gadol e seu primo Elitsafan ben Uziel como Nassi (presidente) da família de Kehat.

Está confuso? Vocês ainda não viram nada…Levi*, filho de Jacó, teve três filhos que formaram as famílias de sua tribo: Guershon, Kehat e Merari. Kehat teve quatro filhos: Amram, Yitschar, Chevron e Uziel. Korach alegava que ele deveria ser o nassi da família de Kehat e não Elitsafan, pois o pai de Korach, Yitschar, era o segundo filho mais velho (o primogênito era o pai de Moisés). No entanto, o escolhido para ser nassi foi seu primo Elitsafan, filho do quarto filho e que era o mais moço. Não concordando com esta posição de Moisés, decidiu discordar dele em tudo que se referia à direção do povo. Korach se esqueceu, porém, de que as atitudes de Moisés – até mesmo a designação destes cargos – seriam ordens diretas de Deus, envolvido diretamente nessas questões familiares…

Quando a gente lê essa Parasha, parece-nos que os atos de Korach estão totalmente distantes de nossa realidade, que não nos atingem. Porém, depois de nos aprofundarmos, aprendemos que “Rabot machshavot belev ish vaatsat Hashem hi tacum” (Mishlê 19:21) – Muitos são os pensamentos no coração do homem, porém o que prevalece é a ideia de Deus. Seja. Para quem acredita, é prato cheio.

Korach tentou de várias formas atingir o alto cargo que cobiçava, porém de nada adiantou, uma vez que não era esta a vontade de Deus (é o que disseram Moisés e sua turma). A História é sempre contada pelos vencedores, não é?

Korach era um homem inteligente, possuidor de muitos bens materiais e de prestígio entre o povo. Os que o acompanhavam também eram pessoas importantes daquela geração. O mais intrigante é que acreditassem que suas ideias iam concretizar-se e que poderiam afastar Moisés e Aarão de suas funções. Eles realmente acreditavam nisso, pois chegaram ao ponto de se exporem a um teste, que lhes custaria a vida caso estivessem errados.

Acaso esqueceram-se da Outorga da Torá presenciada por todos, na qual Deus aclamou Moisés e Aarão como líderes – que fariam a Sua vontade? Acaso faltava algo a Korach? O que o conduziu a esta situação, que lhe custou a vida, morrendo de forma tão trágica? Não encontrou outra pessoa para provocar a não ser o profeta escolhido por Deus, o homem que trouxe a Torá dos Céus para o Povo de Israel?

Ai, ai, ai…conclusão, a inveja foi a causadora dessa tragédia. A força dos vícios tem o poder de cegar as pessoas ao ponto de deixá-las sem enxergar até mesmo o que antes era claro e óbvio. No Pirkei Avot, a Ética dos Pais (cap. 4) os sábios dizem: “Hakin’á vehataavá vehacavod motsiim et haadam min haolam” – A inveja, o desejo material e a ambição pela honra abreviam a vida do ser humano no mundo. Ao comentar esta passagem, Maimônides escreve que com estes vícios (até mesmo com um deles) perde-se a fé na Lei, na Torá e não se consegue alcançar níveis espirituais mais elevados. Ele diz também (Hilchot Teshuvá cap. 7 par. 3), que não devemos pensar que a teshuvá só deve ser feita sobre os pecados ativos como o roubo, mas também devemos nos preocupar e fazer teshuvá por nossas más qualidades como o nervosismo, o ódio, a inveja, a falta de seriedade, a corrida atrás do dinheiro e do respeito, a gula etc. Maimônides completa escrevendo que abandonar estes vícios é muito mais difícil.

Korach dançou, o grupo de Moisés prevaleceu, e a história é contada até hoje, nas discussões da Torá, pelos seus (de Moisés) seguidores. A versão do vencedor é a que prevalece. Estou me repetindo? É claro.

* Segundo o Museu da Diaspora de Tel Aviv, nós, os Veltmans, somos descendentes da tribo de Levi. Com exceção dos coanitas e de nós mesmos, todo o resto do povo judeu, há centenas de anos, desconhece sua origem tribal. Mais recentemente, em Israel, com a Lei do Retorno, surgiram novos pretendentes ao judaísmo, o rabinato acabou legitimando grupos como os etíopes (falashas), indianos (beth Israel), berberes judaizados, etc Ainda há muita gente se dizendo descendentes das tribos desaparecidas, sobretudo africanos. Na minha opinião, sejam bem vindos.

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