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por Rabino Michel Schlesinger – No momento em que Moisés subiu para receber as Tábuas da Lei no Monte Sinai, encontrou Deus sentado enfeitando as letras da Torá com coroas. Moshé perguntou: “O que isso significa?”. Deus respondeu: “Um dia, daqui a diversas gerações, existirá um homem chamado Akivá Ben Iosséf que vai interpretar cada enfeite das letras da Torá e vai extrair delas inúmeras leis”.

Moisés então disse: “Ribono Shel Olam, Senhor do Universo, mostre-o para mim”. Deus respondeu: “Vire-se para trás”. Moshé foi transportado para uma aula do Rabi Akiva, não conseguiu compreender o que estava sendo falado e ficou chateado. Quando a aula chegou a determinado ponto, os alunos perguntaram a Rabi Akiva: “Qual é a origem desse ensinamento?”, ao que o professor respondeu: “Halachá lemoshé mi sinai”, ou seja, “essa lei tem sua origem na transmissão da Torá a Moisés no Monte Sinai”. Nesse momento, Moisés ficou aliviado.

Moshé foi transportado de volta ao Monte Sinai e perguntou para Deus: “Se você tem um homem tão grandioso como Rabi Akiva, porque a Torá precisa ser dada a mim?”. Deus respondeu: “Assim Eu quis que fosse” (Menachót 29b).

O que vem nos ensinar essa lenda talmúdica? Qual é o objetivo do Talmud ao dizer que Moisés não reconhece o judaísmo de algumas gerações seguintes? Por que Rabi Akiva faz questão de dizer que esses ensinamentos vieram do Monte Sinai quando eles são estranhos ao próprio Moshé? Qual é a moral dessa rica fábula rabínica?

Ao longo dos séculos, o judaísmo sofreu inúmeras transformações. Diversos regramentos bíblicos foram abolidos. Não mais matamos aqueles que desrespeitam o Shabat. Os sacrifícios animais foram proibidos. Não permitimos mais a poligamia. Não realizamos enterros em cavernas. As mulheres supostamente adúlteras não precisam tomar uma poção mágica para verificar se estão dizendo a verdade. Não nos pautamos numa lógica de olho por olho, dente por dente. Não possuímos mais escravos. Nissán não é mais o primeiro mês do calendário judaico.

O que faz com que o judaísmo permaneça judaísmo depois de tantas transformações?

O fato de enxergarmos a nós mesmos como discípulos de Moshé e Rabi Akiva faz com que sejamos seguidores daquela tradição. O fato das transformações ocorrerem com fortes raízes fincadas nas tradições, faz com que essas mudanças tenham legitimidade judaica. Existe um modo judaico de se transformar. Existe uma maneira judaica de mudar.

No santuário onde Moshé rezava não havia coral e teclado. As mulheres não frequentavam as sinagogas, mas também não usavam perucas. A comida casher não precisava ter selo e não haviam inventado o elevador de Shabat. No entanto, aquele judaísmo é o mesmo judaísmo de hoje. Mesmo que o próprio Moisés fosse incapaz de reconhecer.

Enquanto grandes impérios desapareceram, o judaísmo permaneceu vivo. O segredo da sobrevivência judaica é a busca do equilíbrio entre o velho e o novo. Doses corretas de tradição e modernidade fizeram com que superássemos as adversidades da História e permanecêssemos vivos.

Assim ensinou Rav Kook: “Haiashan itchadesh veachadash itcadesh”, “Que o velho seja renovado e o novo santificado”.

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