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Guardado em meio a recordações de familia, amarelecido passaporte polonês traz um carimbo: “Hospedaria de Immigrantes na Ilha das Flores – 24 dez 1929”.

Num passado cada vez mais remoto proliferaram pelo mundo locais de recepção e triagem de imigrantes, situados em geral nos portos ou em suas proximidades, já que o meio regular de transporte intercontinental era marítimo, os chamados “vapores”. Entre outros exemplos, temos Ellis Island em Nova Iorque, Hallifax no Canadá, Hotel de los Inmigrantes em Buenos Aires, e no Brasil as Hospedarias de Imigrantes do Brás em São Paulo e da Ilha das Flores em São Gonçalo – RJ, município contíguo a Niterói.

Quis o destino que um pouco da memória desta última fosse preservada, antes que fosse tarde demais. Lá se instalou a Base de Fuzileiros Navais da Ilha das Flores, garantindo a conservação do que restara da antiga Hospedaria, onde no século passado, os que procuravam um futuro melhor, vindos da Europa sofrida e de outras partes do mundo, eram acolhidos, tendo a hospedaria funcionado de 1883 a 1966.

Em 1929, um garoto polonês aqui desembarcou, sozinho mas cheio da esperança nos seus 19 anos. Jamais voltou a rever os pais, irmãos, primos, que ficaram para trás na Europa gelada, sem terem tido o mesmo privilegio de escapar. Naquela manhã ensolarada de dezembro, na fila formada diante do agente que carimbava os passaportes, jamais poderia imaginar que quase 1 século depois tantos filhos e netos estariam escrevendo um novo capitulo da historia da familia, agora tão brasileira quanto qualquer outra, virada a pagina triste da Polônia.

Hoje, 23 de julho de 2016 a Marinha do Brasil e a UERJ inaugurararam o Museu da Memoria da Imigração, nesta que já não é mais uma ilha, dados os sucessivos aterros. Apenas 4 km após a descida da Ponte Rio Niteroi, pela BR-101.

O Comandante da unidade hoje sediada na Ilha das Flores, Contra Almirante FN Jose Luiz Correa falou na abertura sobre a parceria com a UERJ, que ao longo de varios comandos culminou com a inauguração no dia de hoje. O Prof. Reznik agradeceu em sua fala a todos os pesquisadores que trabalharam no projeto, e fez um retrospecto da parceria com a Marinha. A Sub-Reitora de Graduação da UERJ, Profa. Tania Maria Carvalho Neto usou da palavra, recordando que seus avos maternos passaram pela antiga Hospedaria de Imigrantes.

Na ocasião, o Coordenador do Projeto, Prof Luis Reznik foi agraciado com a Medalha de Amigo da Marinha, concedida pelo Comandante da MArinha, Alte Leal Ferreira. O Capelao Naval 1º. Ten Marco Miranda pronunciou a Bênção ao Museu, após o que as auttoridades descerraram a fita inaugurando o museu. Havia um grande publico presente, incluindo alguns antigos funcionarios da hospedaria, moradores da Ilha, e filhos e netos dos imigrantes que por ali passaram. Foi lançado pelos Correios um selo comemorativo, e cada visitante recebeu um passaporte com os carimbos da Hospedaria e do Museu.

O museu teve apoio da FAPERJ, sendo a museografia e cenografia a cargo da empresa 32Bits Coleções Digitais. Entre as diversas historias contadas nas telas dos monitores, de alemaes, portugueses, espanhois, judeus, arabes e tantos outros, está a das Familias Blajberg e Langier, uma das mencionadas no modulo Entre-Guerras, onde a Professora e Pesquisadora da Universidade Estacio de Sá Paula Ribeiro, auxiliada na entrevista pelo pesquisador Guilherme Cavotti, reuniu fotos e documentos para dar uma forma muito didatica e agradavel, a essa historia que é muito parecida com a de tantos imigrantes.

O evento transcorreu em clima agradavel, uma tarde maravilhosa, superando todas as expectativas, desde o ambiente, com a praça de alimentação, as mesinhas, os food trucks, passando pela inauguraçao em si, as palavras proferidas, até a visita ao museu e por fim a apresentação da Banda Sinfonica dos Fuzileiros que apresentou peças originarias dos paises de onde procediam os imigrantes aqui chegados.

Devemos dizer que os proprios fuzileiros tambem descendem de imigrantes, daqueles soldados-marinheiros da Brigada Real de Marinha, que desembarcou em 1808 com D. João! Se a Tropa não estivesse aqui aquartelada, provavelmente a hospedaria já teria sido perdida para sempre.

Estão portanto todos de parabens, lutadores sociais pela memoria nacional, por esse museu de moderna concepção,extremamente didático, padrão similar aos melhores museus nacionais e estrangeiros.

Conhecedor de 4 das 5 hospedarias pelo mundo (falta Halifax), classifico a nossa como a mais bela e acolhedora, e ai recordo meu pai dizendo: “quando o navio entrou pela barra, só de ver a paisagem já comecei a gostar do Brasil…”

Muitos profissionais se empenharam para que esse sonho se realizasse, e recomendamos a todos que venham visitar o Museu, para conhecer este valioso patrimonio cultural que enriquece bastante a memoria do nosso pais de imigrantes!

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Israel Blajberg
Há 10 séculos seus antepassados paternos saíram de Bleiberg, na Carinthia (Áustria), firmes como o chumbo (Blei) e imponentes como a montanha (Berg), entrando na Polônia sob o Grande Rei Kazimierz. Teve a honra de ser o primeiro Blajberg nascido no Brasil (Rio de Janeiro, 1945), estando hoje a família na terceira geração verde-e-amarela. Professor da UFRJ e UFF e Engenheiro do BNDES, aposentado em 2015. Palestrante e Autor de livros e artigos sobre Historia do Brasil, Militar, Judaica, Genealogia e Viagens. Membro das Ordens do Mérito da Defesa, Naval, Militar e Aeronáutico, e Medalha Pro-Memoria da Republica da Polônia.