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Do Marrocos até Omã, Gustavo Chacra analisa relações Israel-Mundo Árabe, em palestra lotada no Centro da Cultura Judaica.

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foto: Samuel Neuman

Um voo panorâmico pelo norte da África e OrienteMédio, com algumas rasantes em questões específicas, como: o mundo árabe pós-Primavera Árabe, a pouca atenção da mídia a muitos conflitos em países árabes, as nuances do radicalismo islâmico (comparação entre sunitas e xiitas). Assim foi a multifacetada palestra do jornalista Gustavo Chacra, no dia 21 de outubro, com o tema “Israel e o Mundo Árabe”, no ciclo “Israel e o Mundo”, em São Paulo.

Pós-Primavera, um instantâneo do mundo árabe: monarquias absolutistas no Golfo Pérsico, transição política na Tunísia, novo regime militar no Egito, caos na Líbia e no Iêmen, guerra civil na Síria e no Iraque, instabilidade na democracia sectária libanesa e manutenção do impasse entre israelenses e palestinos. Chacra dividiu os países árabes em três grupos, baseados nas suas posturas sobre Israel:

  • Indiferentes – aqueles para os quais a questão Israel-Palestina é marginal, não afetando em quase nada suas políticas domésticas e posições internacionais: Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Iraque, Emirados Árabes, Kuwait, Yemen e Bahrain.
  • Parceiros – são aliados de Israel ou mantêm parcerias em temas específicos, embora sem relações formais: Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Qatar e Omã [país, que segundo Chacra, é amigo de todo mundo].
  • Inimigos – Possuem conflitos abertos com os israelenses: Síria, Líbano e palestinos.

Com relação aos indiferentes, seus conflitos sãopouco divulgados na mídia: os interesses do Marrocos no Saara Espanhol, com um lobby marroquino bastante forte nos EUA, que consegue manter o conflito fora da mídia; os 250 mil mortos da Guerra Civil na Argélia, pouco lembrados hoje.

Com a guerra civil na Síria e o impasse com os palestinos, o maior problema para Israel entre os árabes passa a ser o Hezbollah no Líbano, afirma Chacra. Mas o maior inimigo de Israel não é árabe: o Irã, país que tem outros grandes adversários além de Israel: EUA e ArábiaSaudita.

O jornalista procurou mostrar as nuances do radicalismo islâmico: o Irã, xiita, é inimigo do radicalismo sunita da Al Qaeda. O Hezbollah, xiita, não prega um islamismo fundamentalista, raramente ataca alvos civis e tem, entre seus aliados, os cristãos libaneses. Para Chacra, o grupo é perigoso para Israel porque tem apoio de 1,5 milhão de libaneses e investe não apenas em armas – seus mísseis já podem atingir Tel Aviv – como em educação.

A religião não é o verdadeiro motivo que impede o desenvolvimento do mundo árabe, diz Chacra: “o Líbano é um país libertário; Beirute é uma cidade liberal, muito parecida com Tel Aviv; os muçulmanos admiram a democracia israelense”. E mais uma das contradições do mundo árabe: é justamente no Líbano que os refugiados palestinos sofrem um regime de apartheid: não podem exercer certas profissões e são alvo de grande preconceito. Na Síria, eles não têm direito a voto, mas têm acesso à educação e saúde.

Chacra acredita que árabes e israelenses estão mais próximos da paz hoje do que em 1948: Israel quase chegou a um acordo com Assad, antes da guerra civil na Síria; o próprio reconhecimento da Autoridade Palestina na ONU, em 2012, como estado não membro, com base nas fronteiras de antes de 1967, significa, segundo o jornalista, um reconhecimento de Israel – já que as fronteiras israelenses pós-armistício de 1949 são implicitamente aceitas.

Quanto ao fato de os últimos governos israelenses terem orientação de direita, ele observou que nada impede que a direita faça a paz – como ocorreu com Begin e Sadat. Netanyahu nunca atacou países árabes, ele lembrou – e fez uma ofensiva bastante limitada contra Gaza, em 2012. Os árabes “o respeitam – ainda que o odeiem – porque sabem que ele defende Israel”.

Chacra vê a aproximação do Irã com os EUA com ceticismo, mas acha que as negociações devem prosseguir. Para ele, a mudança na posição iraniana é resultado de dois fatores: as sanções econômicas e a ameaça de ataque de Israel.

Em 28 de outubro, às 20 horas, o ciclo chega ao final com a palestra “Israel e Brasil e América Latina”, com Tullo Vigevani e Guilherme Casarões. A curadoria do evento é do cientista social Daniel Douek. O preço da palestra é R$ 65,00. Idade mínima: 18 anos. A data: 28 de outubro, segunda-feira. Horário: das 20h às 22h. Informações, no Centro da Cultura Judaica: secretaria@culturajudaica.org.br ou secretaria1@culturajudaica.org.br. Telefone: (11) 3065-4349/4337.

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