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agua

por Carlos Brickmann – Que é que acaba acontecendo? Aquele produto mais nobre da indústria de informação, o que custa mais caro para fazer, o que custa mais caro para adquirir, perde qualidade. Um texto recente, maravilhoso, exemplifica direitinho essa tendência de gastar dinheiro em máquinas, em papel, em frotas, em softwares, e economizar em cérebros bem equipados. A reportagem, super atual num Brasil e num ano em que as chuvas enlouqueceram, mostra como Israel, onde chove muito menos, onde há apenas um rio aproveitável (o Jordão, que aqui seria conhecido como córrego, no máximo riacho), cuida de seus problemas de abastecimento de água.

A matéria se compunha, como manda a atual tendência, de texto e infográfico coloridinho. Dizia-se que Israel consome anualmente 2,1 quatrilhões de litros de água, e a produção de suas fontes naturais de água doce é de 750 trilhões de litros. Não é bem isso: Israel consome anualmente 2,1 trilhões de litros – ou seja, o texto e o infográfico multiplicaram o consumo por mil. A produção não é de 750 trilhões de litros, mas de 750 bilhões (o erro, coerente com o anterior, foi multiplicar a produção por mil).

Aí vem a comparação com São Paulo: segundo texto e gráfico, o Estado consome 4,8 quatrilhões de litros por ano. O erro aqui é mais completo: o número certo é 4,5 trilhões de litros. E a comparação está errada: em Israel, fala-se do consumo total, enquanto em São Paulo entra apenas o consumo urbano, esquecendo-se tudo o que é utilizado na agricultura e pecuária.

É difícil encontrar um repórter que tenha conhecimentos sobre o tema de abastecimento de água suficientes para evitar erros. Mas não é difícil para um bom repórter consultar fontes que possam esclarecer pontos obscuros (o importante não é que o jornalista seja capaz de fazer contas: é que conheça o suficiente de números para chamar o telefone de quem saiba) – desde que ele tenha tempo para trabalhar e não seja obrigado a fazer desenhos, escrever para o pontocom da empresa, para o blog e para a agência de notícias do grupo antes de redigir para seus leitores. Uma matéria sobre tema complexo pode exigir uma consulta final à fonte, para saber se não houve erros ou mal-entendidos. Isso consome tempo. Mas que será mais importante do que levar ao leitor a informação correta?

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