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Morreu, aos 87 anos, em Nova York, o grande escritor judeu Elie Wiesel, nascido na Romênia e sobrevivente do Holocausto, autor de mais de 50 livros, e que dedicou sua vida a promover os Direitos Humanos, denunciando injustiças e genocídios em todo o mundo.

A noite, onde recorda os horrores de Auschwitz e, no último capitulo, a terrível morte de seu pai, é uma das obras essenciais da literatura de testemunho do século XX. Há muitos anos, assisti, acompanhado de minha mestra e orientadora, Anita Novinsky, a uma palestra que ele, Prêmio Nobel da Paz, apresentou na USP. Foi emocionante.

A escrita de Wiesel era simples, sem rebuscamentos, quase didática, mas continha uma cultura milenar, que ele conhecia a fundo, e revelava sem alarde, em pequenas doses, ao grande público, como nestas reflexões sobre os livros que compilei de Sinais do Êxodo:

Quando viajo, tenho sempre medo de que me faltem livros. A metade de minha bagagem se compõe de coisas para ler, a outra metade, do que preciso para escrever.

O inferno é antes de tudo um lugar sem livros. Sem um único livro. O que seria a vida sem o poder que têm os livros de despertar nossa fantasia, de metamorfosear as coisas apenas por revelar seu nome secreto?

Hitler e Stalin sabiam a importância dos livros para o judeu. Por isto um os queimou na Alemanha e o outro os fez desaparecer na Rússia. A polícia de Stalin tomou o cuidado de quebrar os caracteres hebraicos nas gráficas judaicas de Moscou, Kiev e Odessa. Seu ódio patológico se desencadeava sobre a fé judaica e, do mesmo modo, sobre a cultura judaica.

O alfabeto hebraico, o alfabeto do iídiche, o irritavam, despertavam sua fúria, eram para ele um desafio; por isto ele condenou à morte aqueles sinais tipográficos, aquelas velhas letras quadradas. Mas nisto, ele não teve sucesso. Como o rabi Hananya ben Teradyon, podemos testemunhar e dizer: Gvilin nisrafin – sim, os pergaminhos podem queimar, mas não as letras, não o espírito, não a visão, não a alma de um povo unido, devotado aos valores eternos, à eternidade.

E, no entanto, sente-se às vezes em alguns mestres alguma reticência quanto a escrever livros. Ari, “o santo”, nunca escreveu nada; nem o Besht; rabi Nahman deu ordem a seu fiel escriba rabi Nathan de queimar seus escritos, e devolvê-los ao céu. Rabi Bounam de Pschiskhe redigia uma obra intitulada O livro do homem; ele deveria conter tudo o que diz respeito à vida e ao homem, à história e à fé, ao passado e ao futuro. Projeto ainda mais grandioso e assombroso já que o autor desejava que sua obra coubesse inteira em uma só página. A cada dia, ele redigia essa página, e a cada noite a atirava no fogo.

Quanto ao ilustre e solitário visionário de Kotzk, ele explicou, um dia, por que se recusava a escrever livros. Quem os leria? Alguns aldeões. E quando teria tempo de lê-los? Certamente não durante a semana. No Shabat, então. À noite? Ah, não, ele está cansado demais. Pela manhã, então. É isto, sim, depois do ofício da manhã. Depois da refeição sabática. Ele apanharia o livro – meu livro – e se deitaria no sofá, finalmente pronto, e desejoso de ver o que tenho a dizer sobre a Torá e o Talmude. E então – ele está tão cansado que seus olhos se fecham logo na primeira página.