Discurso da antropóloga Adriana Dias proferido hoje, 19 de novembro, no Senado Federal destaca o crescimento do neonazismo na internet e o trabalho da B`nai B`rith do Brasil, pedindo a criminalização do negacionismo.
Exmo. Sr. Senador José Sarney, presidente do Senado Federal; exmas senhoras senadores, exmos senhores senadores, demais autoridades aqui presentes ou representadas, minhas senhoras, meus senhores. Nesta “Sessão de homenagem aos grupos vítimas de discriminação e preconceito”, inicio minha fala agradecendo.
Agradeçemos ao generoso convite do Senador Paulo Paim, a mesa dessa casa, em especial a sua Presidência pelo endosso a esse convite, à Universidade de Campinas, que nos formou e forma, nesta verdadeira vocação que é a pesquisa a respeito da discriminação e do preconceito, à B’nai B’rith do Brasil, parceira desta vocação. A atuação em Direitos Humanos pela B’nai B’rith desenvolve-se na luta contra o anti-semitismo, o neonazismo, a discriminação, o racismo e o cerceamento de direitos de modo geral, tendo por base ações educacionais, de comunicação e participação junto a organismos e instituições que estabelecem e promovem políticas públicas de combate ao racismo, diálogo inter-religioso e cultura de paz, para a construção da cidadania e pelo respeito à democracia e à diversidade entre os seres humanos.
Neste momento, apresentamos uma singular causa: a discriminação e o preconceito se tornaram um problema a ser pensado por todos nós. Ainda que os mais desavisados possam observar com surpresa e inquietação, os recentes ataques homofóbicos no dito coração financeiro do país, ou na nossa eterna Cidade Maravilhosa, as falas absurdas e ameaçadoras dos neonazistas ao nosso querido senador Paulo Paim, o medo que decorre da leitura ou da repercussão das frases xenofóbicas proferidas por uma estudante de direito paulista após a divulgação dos resultados das ultimas eleições, saibamos todos: Não há mais nenhum espaço para a dúvida: se mergulhados estivermos numa sonolenta confiança em melhores tempos, ou se momentaneamente nos distraímos em nossas ocupações habituais, estamos de fato diante de um dos mais singulares momentos da nossa história.
É preciso coibir, definitivamente, tais manifestações de racismo, de preconceito, de intolerância.
Como uma epidemia, como ilustrou Camus, em A Peste, o atual estado de ódio, de incompreensão, o gigantesco retorno do antissemitismo, do racismo, da homofobia, da intolerância com a pessoa com deficiência, nos convence da gravidade do momento presente, enquanto tomam o coração e a mente de nossos jovens, eclipsando sua inteligência e sua humanidade. Em nossa pesquisa de mestrado, que defendi na Unicamp em 2007, localizei mais de 13 mil sites neonazistas que trabalham, em língua portuguesa, inglesa e espanhola, para inserir suas frases mortais na alma de seres humanos. Hoje eles ultrapassam a marca de 20 mil sites, dezenas de comunidades em blogs e redes sociais, centenas de perfis no Twitter. Transmitem sua perturbada mensagem contra o negro, contra o judeu, contra o gay, contra o nordestino, contra o imigrante, contra o casamento interracial, contra a adoção de crianças negras.
Seu discurso é lido por mais de 150 mil internautas brasileiros. Em sites neonazis brasileiros é possível encontrar vasto material panfletário, livros para download, livro para colorir para crianças contando a história da supremacia racial, páginas e páginas de negacionismo, a desrespeitosa pseudo tentativa histórica de negação do holocausto, vasto material racista e intolerante. Em seu discurso, esses sites refletiam apenas a ponta do Iceberg desse movimento: no Brasil, esse discurso, esperamos, não encontrará o mais fugaz espaço alem do já conhecido, pois acredito, que desta sessão, sairemos todos sensibilizados para uma mais efetiva ação contra toda forma de discriminação e preconceito. É preciso exigir que tais crimes sejam minuciosamente investigados e punidos.
Este ano comemoramos os cem anos da denominada Revolta da Chibata, e 315 anos da morte de Zumbi dos Palmares. Que a coragem desses libertadores, exilados em sua época, desperte em nós uma angústia profunda, que se resolva apenas quando os raios de sol da solidariedade humana sejam realmente definitivos em todos nós. Este ano se relembra, ainda, com pavor, o septuagésimo aniversário de dois marcos: Há setenta anos era aberto o campo de Auschwitz, há setenta anos, fugindo do regime nazista, Walter Benjamin se suicidaria. A humanidade vivia um de seus piores momentos, a crença numa supremacia racial formara um estado racista, como afirma Michel Foucault. Hoje, valendo-se de uma idéia de anonimato na internet, e uma desconsideração total por esse espaço publico, uma ferramenta humana para humanos benefícios, milhares de pessoas, dezenas de milhares em nosso país fazem novamente apologia ao Nazismo.
Defendem a ideologia nacional socialista, a pútrida mensagem hitlerista, a eliminação de negros judeus, gays, nordestinos, imigrantes, pregam o ódio nas ruas, e pasmem, sua voz começam a ser ouvidas pelos nossos jovens, infelizmente. Como uma peste, tal discurso parece tomar de febre epidêmica redes sociais, blogs, comunidades, cegam o entendimento, relatam que a piedade ou que a solidariedade seja inútil ou covarde. Não é possível consentir. Não é possível silenciar. Nosso silencio será entendido por esse movimento fascista e totalitário como aceitação.
Não é possível que a peste entre nessa casa Brasil. Que a epidemia fascista corra nas veias do nosso povo. E preciso refletir. É preciso punir os responsáveis. É preciso educar para os direitos humanos. É preciso que a Mão fraterna que aceite o outro profundamente e nos guie de volta a vocação essencial de nosso país. A despeito do horror, da violência que assalta a mente dos internautas e que infelizmente já chega às ruas, precisamos retomar o caminho da solidariedade. Numa nação grandiosa como a nossa, o neonazismo, a discriminação, o racismo, o antisemitismo, a homofobia não encontrarão espaço. Cabe-nos ser uma nação exemplo, construindo dia a dia nossa trajetória de solidariedade. A intolerância e a discriminação não morrem jamais, adormecem esperando pacientemente nos baús, nas papeladas, na Web. É preciso acordar a todos, tornando a nossa solidariedade infatigável, para que esta epidemia, gravíssima, não nos faça esquecer que, como escreveu Camus, na humanidade, há mais coisas a admirar que a desprezar. Contamos com o apoio desta casa, o Senado do nosso país, para este alerta e para esta memória.
fonte: BB Press

























