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Polonia sofrida e gelada. Meus passos se perdem ao longo de um gramado verde à beira do rio, bem proximo ao Rynek, o antigo Mercado que acabou. Naquele terreno vazio erguia-se a bela sinagoga de madeira, frequentada pelo meu pai e toda sua grande familia. Entre as muitas cortinas da Arca Santa, uma ostentava o Escudo de Armas da Águia Branca em campo rubro.

Fôra herdada de uma importante família real polonesa, em reconhecimento à participação judaica durante a revolta polonesa de 1863. Nos feriados nacionais, as Autoridades costumavam visitar a sinagoga, e em sua honra essa cortina era colocada à frente, ostentando as iniciais RP – Rzeczpospolita Polska (Republica Polonesa)

Perto da sinagoga ficava o Midrash, casa de estudos, as orações se sucedendo o dia inteiro, um minian após outro, os meninos sentados às mesas de carvalho, absorvidos. Das janelas se podia ver o rio e os gramados em volta. Em outro salão oravam trabalhadores, pequenos comerciantes, artesãos, gente de classe média.

Descendo as escadas, um recinto onde rezavam açougueiros, carregadores, padeiros, carroçeiros, cuja jornada de trabalho começava muito cedo. Milhares de judeus se reuniam nesses lugares para orações. Um mundo que acabou. Fecho os olhos e imagino o Dia do Yom Kippur, a sinagoga e o midrash superlotados. No pátio, centenas de mulheres, usando perucas ou com a cabeça coberta, os olhos cheios de lágrimas, com sidurim nas mãos.

Elas aguardam o Rebbe, Tzadik, Santo Homem, que vai sair do Midrash para a Sinagoga, para recitar o Kol Nidrei. O Rebbe está chegando! Um burburinho perpassa o pátio quando o Rebbe aparece, usando uma túnica de linho branco, com o talit sobre os ombros. Centenas de Hassidim, vestidos do mesmo modo, com suas barbas ondulantes e seus cachos, olhos radiantes, carregam o Rebe, tão fraco, em seus próprios braços.

A rua inteira está completamente tomada pelos jovens, fortes e vigorosos, açougueiros, carregadores, cocheiros, negociantes de cavalos. Eles formam um corredor, ao longo do qual o Rebbe já vai passar, não permitindo que ninguém ultrapasse. De repente surge a procissão, centenas de Hassidim trajando seus robes de linho branco e cobertos pelo talit, carregando o Rebe em seus braços.

Um frisson percorre a multidão, parecem flutuar em meio a uma vibração, uma tempestade quase elétrica. Seus olhos brilham, suas barbas flutuam ao vento frio de Ostrowiec. A procissão chega ao pátio da sinagoga. Milhares de vozes clamam em unissono: “Santo Rebbe! Santo e Justo Homem! Reze por nós! Traga a prosperidade … traga nossa salvação … Reze por um ano bom, pela redenção do Povo Judeu!” Os céus estremecem, o chão balança, um abalo sacode o mundo inteiro.

  • Adaptado do último capítulo de “Koshmarn” (Pesadelos) de Konrad Charmatz, Editora O Novo Momento , Sáo Paulo 1976 e The Days of Awe in Town, por Mendl Hartshteyn, traduzido do yiddish por Tina Lunson, em Ostrowiec – A Memorial Book (Yzkor Book – Pinkas Ostrowiec) Society of Ostrovtzer Jews in Israel, 1970.
  • O autor é Brasileiro nato de 1ª Geração com raízes em Ostrowiec e Ilza, Polonia.
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