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Junho 2019. Noite fria de domingo. A cena era tao fantastica quanto natural: a senhora americana, miuda e ágil em seus 84 anos e suas 3 filhas se encontram com pessoas da comunidade judaica, em um play da Gavea – RIO. Em comum: todos tem raizes em Ostrowiec, Polonia, cidade judaica onde tudo parava no Shabbat, Yom Kippur nem pensar.

A senhora se chama Ruth Webber (Rutka Muszkies), e veio visitar o ramo brasileiro dos Muszkies. Com efeito, o encontro se dá no play da neta do seu tio Icek Aron Muszkies, que emigrou para o Brasil em 1929, antes portanto de Ruth ter nascido.

A menina Ruth passou toda a guerra em guetos e campos, dos 4 aos 9 anos, quando finalmente o pesadelo acabou, com as tropas soviéticas derrubando os portões de Auschwitz. Em um filme rodado pelo Exercito Vermelho, Ruth é a menina alta na fileira de trás da imagem famosa que correu o mundo. 60 anos depois esse dia, 27 de janeiro de 1945, seria escolhido pela ONU como o Dia Internacional em Memoria das Vitimas do Holocausto, com apoio do Brasil.

Ruth foi mandada para um orfanato, onde sua irman Helen a descobriu. Apenas as 3 haviam sobrevivido, de uma grande familia. Mas apesar de tudo a vida lhes iria sorrir, deixando para tras os nazistas e seus cumplices derrotados. Elas seguiram em 1948 para o Canadá, onde em 1956 Ruth se casou com outro imigrante polones, Mordechaj Wygoda (Mark Webber), mudando-se para Michigan, onde tiveram 3 filhas e 5 netos.

Mas a historia nao terminava assim … Wojtek Mazan, 35, historiador de Ostrowiec, colecionava retratos antigos, com o carimbo “Rembrandt”. Conseguiu coletar cerca de 150 fotos de casamentos, batizados, eventos, enfim, um importante testemunho da vida da cidade nos anos 30.

Durante anos Wojtek tentou descobrir quem teria sido este fotografo do estudio Rembrandt, até relacionar a imagem das crianças de Auschwitz com a entrevista de Ruth ao Museu do Holocausto – USHMM. Ficou claro que o tal fotografo era Szmul Muszkies, pai de Ruth, cujo irmao Icek Aron Muszkies tinha imigrado para o Brasil em 1929.

Finalmente pôde editar o livro com as suas 150 imagens: „Szmul Muszkies – Professional Photographer. A portrait of Ostrowiec’s residents in the 1930s, taken at the „Rembrandt” photography studio.” lançado em 29 out 2016 em Ostrowiec, com a presença de Ruth, filhas e demais parentes dos EUA, Israel e Brasil.

Na noite fria daquele domingo da Gávea faltou o calor carioca, mas sobrou o calor humano. Fez-se uma rodinha, onde cada um contou um pouco da sua historia. De como seus pais e avós, tangidos pela intolerancia e falta de perspectivas, deixaram o pequenino shtetl, a meio caminho entre a capital e a Cracóvia, refazendo suas vidas, legando uma rica historia a seus filhos e netos, trabalhando pelo progresso do Brasil.

O encontro vai terminando, o tempo passou mais depressa do que gostariamos. Nas despedidas as promessas de novos encontros, e se você que nos lê tambem tem raizes em Ostrowiec, junte-se ao nosso grupo – Descendentes de Ostrowiec – no Facebook.

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Israel Blajberg
Há 10 séculos seus antepassados paternos saíram de Bleiberg, na Carinthia (Áustria), firmes como o chumbo (Blei) e imponentes como a montanha (Berg), entrando na Polônia sob o Grande Rei Kazimierz. Teve a honra de ser o primeiro Blajberg nascido no Brasil (Rio de Janeiro, 1945), estando hoje a família na terceira geração verde-e-amarela. Professor da UFRJ e UFF e Engenheiro do BNDES, aposentado em 2015. Palestrante e Autor de livros e artigos sobre Historia do Brasil, Militar, Judaica, Genealogia e Viagens. Membro das Ordens do Mérito da Defesa, Naval, Militar e Aeronáutico, e Medalha Pro-Memoria da Republica da Polônia.