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O biógrafo Peter Gay nos conta que quando o fundador da psicanálise estava para escapar dos nazistas com um salvo conduto, embarcando num trem de Viena rumo a Londres, a SS exigiu-lhe que assinasse um documento. Freud precisava atestar que havia sido “bem tratado” pela tropa de elite nazista. Sigmund impulsivamente rabiscou:

“Eu recomendo a SS”.

Os recentes ataques contra judeus guardam evidente relação com o excesso de menções negativas contra Israel desrepresados acriticamente em toda mídia mundial. É preciso denunciar que — sob o disfarce de antissionismo — o País dos hebreu virou uma metáfora obsedante para a imprensa. Aqui no Brasil, assistimos recentemente as falsas comunicações de crime como pseudo suásticas “plantadas”em corpo e paredes. Isso bastou para excitar o clima de antissemitismo latente em parte da sociedade. No dia 01/11/2018, o escritor Luis Fernando Veríssimo escreveu em sua coluna semanal do Estadão, “Os omissos”, onde lançou mão da alusão às estrelas usadas para identificar os inimigos do Estado na Alemanha nazista.

Em resposta, aquilo que poderia ter sido interpretado apenas como ironia do escritor gaúcho, a FIERJ (Federacao Isarelita do Rio de Janeiro) emitiu uma nota de repúdio, choveram cartas de parentes de sobreviventes do holocausto, além de manifestações individuais acusando o artigo nas redes sociais. Todas elas mostravam indignação. Apesar de parcialmente justificáveis, não alcançaram o núcleo duro do real problema representado pelo artigo. Na carta resposta redigida por LFV, afirma que só quem não conhece sua história pessoal e de sua família poderia imaginar que o texto carregasse elementos de antissemitismo. De fato, confirmado por depoimentos de pessoas que conhecem a trajetória histórica, assim parece ser.

Destarte, o articulista fez uma analogia direta entre as opiniões do novo presidente eleito com o nazismo (ainda que, como afirmou em sua carta-resposta “não o considerar nazista”) quando o regime nacional socialista alemão levou adiante uma política implacável de perseguição aos membros do partido comunista daquele País. Assim, aparentemente, quando afirma no final do artigo, a frase estéticamente duvidosa “por lá deu certo” referindo-se à missão de limpeza étnica e ideologica do III Reich, é que ele nos introduz ao centro da polêmica.

O que de fato interessava ao partido dos trabalhadores do estado germânico desde 1933 era o extermínio de tudo que fosse dissensso, todas as formas de oposição, e a anulação do contraditório, sob a prática — legal e constitucional, referendada por juízes da Suprema Corte, através das Leis de Nuremberg — de expurgos e assassinatos. Pois ali, o daltonismo para as estrelas era oportuno. Se a perseguição às minorias fazia distinção apenas formal para a cor das estrelas “amarela para judeus, vermelha para comunistas e triangulo rosa para homosexuais”, o grande foco de eliminação sistemática para além das objeções poliíticas, era mesmo a etnia judaica. Contando com amplo esforço de marketing para forçar a identificação dos comunistas com judeus, sem esquecer do conceito ariano de “arte degenerada” que também procurava expandir a identificação dos artistas com a corrupção dos hábitos da sociedade. Apesar de tudo isso, nunca foi segredo que o foco fanático dos seguidores de Adolph estava concentrado no “Judenrein” ou “territórios livres de judeus”.

Portanto, o que afinal o citado colunista subestimou?

Acurácia e sensibilidade.

Sensibilidade quando fez associações a um tema como o holocausto, que vem sendo ostensivamente banalizado. Mastigado e colocado junto com outras mazelas do senso comum, o genocídio de seis milhões de pessoas tem aparecido aqui e ali como um conflito ideológico delimitado. A liberdade de expressão não pode prescindir do humor e da ironia e até permite que se tripudie sobre determinados episódios da história, mesmo aqueles mais terríveis. Além disso, a liberdade de um autor não deve ser colocada sob judice quando idissincrasias são atingidas. Mesmo assim, é necessário se constranger frente à dor dos demais.

Acurácia, já que não se pode desprezar o timing nem desconsiderar o contexto. Escrever é um ato político. Pois é aí que enxergo o descaso. Qualquer articulista tem como obrigação ética, se não, estética, de calibrar melhor seus alvos, especialmente em meio às várias comoções simultâneas que testemunhamos: o triste episódio do crime de ódio recém perpretado contra judeus dentro de uma sinagoga em Pittsburg — o pior da história americana — o antissemitismo jihadista em alarmante alta na Europa, as parábolas farsescas de que milicias neo-nazistas estavam na iminencia de assumir a administração do País. Ou, caso recuse a calibragem, que tal amplia-la para melhor situar e servir o leitor?

Ao insistir em afirmar aquilo que os nazistas fizeram com as minorias frizando que “por lá deu certo” o escritor descerrou um dos arquétipo de sofrimento mais impactantes da história. Se a ironia pode funcionar como denúncia, advertência e alerta, também pode insinuar um tom prescritivo: “é assim que se faz bem feito”. Às vezes, não é a leitura racional que impregna o leitor, mas a assimilação subliminar, afetiva. Foi isso que aconteceu.

O “politicamente correto” tem sido uma forma de amenizar, quiça disfarçar, a dureza nua e crua dos eventos, e, ser jocoso, é uma das formas mais refinidas de comunicação literária como Freud demonstrou acima. Contudo é recomendável cuidado com o sarcasmo ambíguo. Corre-se o desnecessário risco da ofensa. O caminho correto para a dessensibilização não é, nunca foi, o da psicanálise selvagem. Até a libertação dos tabús, exige respeito ao sofrimento alheio.

Não é pedir muito, bastaria mais sensibilidade.

Faço votos que o colunista a recobre rapidamente, ainda em nossos dias.

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